sábado, 12 de agosto de 2017

O tempo do fantasma em Meu Malvado Favorito 3

de Isloany Machado    

        Quem me conhece sabe que eu adoro animações. Quem gosta de animações sabe que muitas delas não são feitas para crianças, mas para os pais, que têm nos filhos uma boa desculpa para ir ao cinema ver desenho. Pois bem, por que estou falando essa baboseira toda? Porque dias atrás, depois de uma abstinência de quatro meses, fomos ao cinema levar nosso sobrinho para assistir Meu malvado favorito 3. Se você não conhece, vou resumir o enredo da trilogia em algumas palavras.

       No primeiro filme, Gru é um vilão megalomaníaco que tem planos de roubar grandes monumentos: começa a história roubando uma pirâmide do Egito com uma arma disparadora de um raio encolhedor. Mas ele tem um concorrente muito forte, que lhe rouba a arma porque tem pretensões de roubar a Lua. Seria o maior roubo da história. Gru precisa reaver sua arma e está planejando como fazê-lo quando conhece três meninas órfãs moradoras de um abrigo. Elas estão vendendo biscoitos para ajudarem no custeio de suas despesas.
               Gru, um sujeito que odeia crianças, tem a brilhante ideia de adotá-las para ter auxílio em seus crimes. Apresenta-se como interessado na adoção, criando uma identidade de dentista e convence. Leva as meninas para casa, consegue reaver a arma, roubar a lua e tudo mais, mas quando se vê na iminência de perder as garotas, sofre e percebe que as ama. Uma luta para reavê-las e nasce, na minha opinião, um amor paterno avassalador. Gru se fantasia de bailarina ou de qualquer outra coisa para a felicidade das meninas, e agora já estamos no segundo filme. Conhece uma mulher e se casa com ela. Passa a trabalhar na liga anti-vilões. O louvável do nascimento do amor paterno é que Gru, além de não conhecer seu pai, ainda tem uma relação péssima com sua mãe. Uma mulher que sempre tratou com pouco entusiasmo ou até mesmo desprezo tudo o que ele fazia ou desejava desde a infância. Mas como “amar é dar o que não se tem”, como dizia Lacan, Gru pode dar a estas meninas um amor antes inédito.
Eis que estamos no cinema para assistir ao terceiro da saga. Gru já não é mais um vilão. Tem um emprego e uma família. Isso tudo poderia parecer pouco emocionante, um modelo de família burguesa, chata e medíocre demais se comparado à vida de aventuras anterior do ex-vilão. Mas ele perde o emprego, bem como a esposa, porque há uma mudança de chefia na liga anti-vilões logo após eles não terem conseguido solucionar uma missão. Pausa para o vilão da vez.
            O nome dele é Balthazar Bratt, um homem de uns 35 anos que foi, na década de 1980, uma criança prodígio que teve seus dias de glória e fama quando atuava em um seriado na tevê, no qual ele protagonizava “um menino mau demais”. Quando a adolescência chegou e, junto com ela os hormônios, ele cresceu e vieram as espinhas e barba. Por não ser mais um menino, ele deixou de fazer a série e também de ser amado pelo público. Qual é o grande lance? Bratt não se conforma com a perda a ponto de viver preso em seu passado dourado, de três décadas atrás. Ele usa ombreiras, bigode, tem um corte de cabelo característico e suas armas, bem como toda a trilha sonora que rodeia este personagem, está ambientada nos hits dos anos 1980.         Bratt rouba a cena. Eu amei este vilão, devo confessar.
            Passados alguns dias, estava eu sentada a estudar psicanálise para uma fala que iria fazer e, dentre os assuntos, a travessia do fantasma durante a análise era um deles. O fantasma, também chamado de fantasia fundamental, é um conceito muito importante na psicanálise. Em termos imagéticos, o fantasma poderia ser comparado a uma tela sobreposta à realidade. Em termos palavréticos, o fantasma seria a historieta que criamos sobre nós mesmos, sempre ficcional, a partir do que achamos que o Outro quer de nós. Assim, a partir dessa historieta, dizemos: eu sou isso ou aquilo e assim e assado. Mas o fantasma, assim como o sintoma, o recalque e todas as tentativas humanas de tamponamento do real, fracassam, se esgarçam em algum momento. É quando as pessoas chegam à análise, rotas, manquejantes.
            O fantasma é aquilo a que estamos presos e, para isso, não importa a passagem do tempo. Assim como Freud dizia de um dos princípios do inconsciente: a sua atemporalidade, também o fantasma não sofre desgastes temporais. O que isso quer dizer? Ora, que não há cura espontânea para a neurose. A famosa expressão “o tempo cura” cai por terra com a psicanálise. Na verdade, o tempo só faz piorar. Quem é chato só fica mais chato ainda. E por aí vai. Então, li num livro do Luiz Izcovich: “Contra o discurso corrente que diz ao sujeito ‘tens a idade de tuas artérias’, o sujeito permanece insensível, ele tem a idade do seu fantasma.” Aí eu só conseguia pensar em Bratt, aquele “menino mau demais” preso em seu fantasma a ponto de construir um mundo particular cuja passagem do tempo não conseguia penetrar.
            Em uma análise é preciso fazer a travessia do fantasma, deixar cair as identificações ao discurso do Outro, criar um estilo próprio a partir de um desejo inédito. Para fazer essa travessia, contra a atemporalidade, é preciso entrar na roda do tempo. A angústia, por ser um afeto que não engana, serve como bússola para o desejo, mas também é o que permite ao sujeito se dar conta passagem temporal, que não é de ordem cronológica, mas lógica. Trata-se do tempo lógico da neurose de cada um. Agora estou doida para estudar os tempos das neuroses. Ai que esse desejo não acaba nunca. Valei-me são longuinho! 
Isloany Machado, 10/08/2017.
TRAILER

 Isloany Machado é Psicóloga clínica, psicanalista, membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano-Fórum do Campo Lacaniano de MS. Revisora detextos na Oficina do Texto. Especialista em Direitos Humanos pela UFGD e em Avessos Humanos pelo Ágora Instituto Lacaniano. Mestre em Psicologia pela UFMS. Dispensadora da ciência e costuradora de palavras por opção. Autora dos livros “Costurando Palavras: contos e crônicas” (2012), “Em defesa dos avessos humanos: crônicas psicana literárias” e do romance “Nau dos amoucos” (2017). Mãe do Adriano

domingo, 2 de abril de 2017

Carnage - Le Dieu du Carnage

de Graça Nunes

E a polidez é  (...)  “organização de defesa ante a sociedade; ... equivale a um disfarce que permitirá a cada qual preservar intatas sua sensibilidade e suas emoções... é um triunfo do espírito sobre a vida. Armado dessa máscara, o indivíduo consegue manter sua supremacia ante o social... a polidez implica uma presença contínua e soberana do indivíduo” Jorge Forbes

A civilização tem de utilizar esforços supremos a fim de estabelecer limites para os instintos agressivos do homem e manter suas manifestações sob controle por formações psíquicas reativas”, afirmava Freud (1930, p. 68). E caso essas restrições fossem abandonadas, não saberíamos prever o destino da humanidade.

Alan Cowan : ‘’Moralmente, você deve superar seus impulsos, mas há momentos em que não quer superá-los. Eu acredito no deus da carnificina. O deus do qual a lei não foi desafiada desde tempos imemoriais.”.

 “Carnage", um filme com ar de peça de teatro,  89 minutos  em uma única locação,  o interior do apartamento de New York de Michael & de Penélope Longstreet,  os pais de uma criança asmática Ethan, que foi  espancado com um bastão por seu colega de escola,  Zachary,  porque chamou Zach de ‘’um idiota’’.    Com a premissa de que “meu filho é melhor que o seu”,   os pais de Zachary,  o advogado Alan & a corretora da bolsa de valores Nancy Cowan, batem à porta do apartamento do vendedor  Michael & da ativista de Direitos Humanos Penélope.   
O encontro  pacífico entre eles,  para elaborar uma carta para prevenir fututras ações legais,  degenera abruptamente em um  jogo de insultos ao qual voltaremos mais tarde.  "Carnage" é uma crítica aguda sobre a artificialidade das relações que se esconde atrás da capa da etiqueta social. 
De início,  é perceptível que a responsabilização  das crianças a respeito do  ocorrido – um insultou e o outro revidou com violência causando a perda de um dente e talvez de um segundo dente – não está nos planos dos casais. O filme revela o quanto, numa época de multiplos modelos com o  Outro pulverizado,  a quebra de orientação pelo enfraquecimento  do ordenador vertical impactou na subjetividade, na formação de  um  novo tipo de  laço social e uma desorientação do sujeito quanto aos modos de satisfação.  Isso se faz sentir em todos os espaços sociais e reflete nas novas formas de expressão do sofrimento,  os chamados novos sintomas,  entre eles e pertinente à esta análise, a violência na escola. 
"Carnage" nos convida a especular um jogo de palavras camufladas  por um arsenal de máscaras  que aos poucos são perfuradas por sorrisos de perfídia,  insultos e elogios dolorosamente ambíguos,  manifestações claras da hostilidade entre os personagens.    Num gozo excessivo, obsceno e explícito, os quatro se entregam a um bate boca que pouco ou nada tem a ver com os fatos que motivaram a reunião sem responsabilidade e implicação em suas próprias palavras,  eludindo assim qualquer peso que as mesmas pudessem  ter.   
Durante todo o filme acompanharemos um diálogo rápido, inteligente e sarcástico, humor quick wit, uma batalha de sagacidade,  palavras que ferem ,  incisivas,  penetrantes,  palavras que são como  navalha na carne,  palavras que irrompem descontroladamente descortinando a verdade por trás da cena,  daí o nome de Carnage,  a carnificina de palavras,  evidenciada na descrição de Jacques Alain Miller :  

‘’Se não houvesse o gozo,  uma palavra equivaleria a outra, não haveria a palavra justa, a palavra que fere, elas teriam apenas a função de demonstrar, porém as palavras trespassam, comovem, perturbam,  inscrevem-se e são inesquecíveis pelo fato da função da fala não ser ligada apenas a estrutura da linguagem,  mas também a substância do gozo   ‘’.... as palavras tem uma carga que dizemos afetiva, 
que é libidinal, uma carga de gozo.‘’  Miller, J.A.

 Com uma veia irônica afiadíssima o diretor é hábil ao desvelar o quanto as nuances de classe, gosto e comportamento assumem enorme importância com a proximidade (o inferno são sempre os outros) e detalhes e dificuldades antes ignorados expõem fraquezas até então ocultas e à medida que a verdade aparece e perpassa qualquer tentativa de decoro social, o sangue frio se vai e os quatro continuam num embate fálico enquanto desintegram-se as máscaras e os laços entre os casais.  
Com as frentes de batalha traçadas sobre a mesa de centro (decorada com vasos de tulipas e livro de arte de Oskar Kokoschka), rapidamente percebemos que não haverá heróis nesta guerra.   Não a Penélope, passiva agressiva,  ou o Michael insensível, que alegremente admite ter jogado o hamster amado da sua filha para fora na rua "como se fosse um rato de esgoto".  E  certamente não a Nancy frágil,  ou Alan, um advogado  frio a quem o filme prodigaliza todas as melhores linhas.
A certo ponto o advogado Alan diz: "Moralmente, você deve superar seus impulsos, mas há momentos em que não quer superá-los. Eu acredito no deus da carnificina. O deus do qual a lei não foi desafiada desde tempos imemoriais.".
O que nos leva diretamente ao texto de Freud,   O Mal estar na Civilização:
  [...] a maneira pela qual os relacionamentos mútuos dos homens, seus relacionamentos sociais, são regulados - relacionamentos estes que afetam uma pessoa como próximo, como fonte de auxílio, como objeto sexual de outra pessoa, como membro de uma família e de um Estado.  Este seria para Freud o aspecto mais importante da civilização. 
Sendo que o maior impedimento para Freud seria :
[...] a agressão constitui no homem uma disposição original e auto-subsistente, tendo como representante a pulsão de morte.  
"Nós não somos todos  filhos da puta de pavio curto!", Penélope grita enquanto só vemos evidências do contrário .  A esta altura todos estão embriagados de whiskey.   Michael insidiosamente enfraquece  Penélope,  Penélope  ataca Michael,  Nancy tem um colapso nervoso, Penélope  chora e grita,  Nancy joga o celular de Alan dentro do vaso de tulipas,  Alan pega seu celular mergulhado em meio as tulipas de Penélope,  Nancy  destrói as tulipas .  A tensão em graus agonizantes  é muito para  Nancy, que  vomita copiosamente sobre a mesa de café,  sobre  o precioso livro de Oskar Kokoschka de Penélope.   É uma cena tão surpreendente que funciona como um ótimo quebra-gelo em meio a toda a angústia.
Em  parte  o filme versa sobre  “narcisismo das pequenas diferenças’’,  termo que Freud atribuiu aos membros de um grupo em que todos estão identificados ao UM do ideal do eu e que, por serem todos iguais perante esse mestre, tentam se distinguir uns dos outros salientando suas pequenas diferenças e lutando incessantemente por elas [...]  o narcisismo das pequenas diferenças aparece no grupo como defesa, pois cada um se atém à sua particularidade e diferenças imaginárias para não ser apanhado por essa identificação especular com o outro. “Para não ser outrificado, o sujeito se atém às suas mínimas diferenças, provocando as rivalidades imaginárias e a angústia vinculada à competição.”.  na precisa descrição de Antonio Quinet.
A violência na escola pode,  se ampliarmos o contexto do filme para a sociedade, ser vista como um sintoma no sentido psicanalítico (condensa verdade e gozo) e surge como manifestação do que não está bem na ordem da civilização.   Lacan indicou, particularmente em  Televisão,  que o gozo contemporâneo, indexado pela barra sobre o Outro,  já não se situa pela castração:  com a queda dos ideais, não é mais o significante mestre ou os semblantes ordenadores da civilização a regular o gozo.  Encontramos uma bela resposta sobre o que é a civilização em "O Outro que não existe e seus comitês de ética  "uma civilização é um sistema de distribuição do gozo a partir de semblantes, um modo de gozo, uma distribuição sistematizada dos meios e maneiras de gozar.’’ (Miller, J.A.)
O que pode uma mãe frente a atos violentos de seu filho na escola?  As palavras da psicanalista Claudia Riolfi são claras :   Quando uma criança separa a mamãe que dá colinho da mulher que preza sua honra e é capaz de dizer “isso não dá para mim”, capta a existência do que a psicanálise chama de “ponto de vergonha”, um lugar a partir do qual precisa parar se não quiser entrar no campo do intolerável.
O que pode uma análise quanto a criança envolvida em atos violentos?  A análise permitiria um deslocamento de criança sintoma para a criança que tem um sintoma através do percurso da desalienação em relação aos seus pais.  Quando a criança se aliena ao que é falado sobre ela, torna-se dependente do que imagina que é o que querem dela, isso ao preço de muito sofrimento psíquico.
Uma das saídas do impasse que originou o encontro e a discussão  seria  a aposta na  passagem de uma posição  irresponsável  e inconsequente  para a posição de decisão e implicação nos diferentes aspectos da vida,  da reinvenção dos laços familiares,  deixando para trás  a busca por um culpado, mostrando aos filhos que atos inconsequentes não existem.
A aposta  é no não sentido,  no limite do saber e da presença do incompleto.  A inserção na cultura é feita pela via do desejo e para se  construir laços satisfatórios  é necessária uma grande dose de renúncia na sua satisfação e narcisismo e , finalmente, parafraseando  Jorge Forbes:  o  estabelecimento de uma ética que ultrapasse as leis morais,  responsabilizando-se não só pelo que é compreensível, mas também pelo contingente e  pelo desconhecido,  através da análise estabelecer  uma ética para além das  leis morais,  "uma fantasia que sustente um semblante atrás do qual ela se satisfaça e satisfaça ao outro’’.

Direção de Roman Polanski  - 2011
Elenco : Kate Winslet (Nancy,  Judy Foster (Penélope) ,  Christofh Waltz  (Alan) e John C. Reilly (Michael)
Roteiro adaptado da peça da roteirista e escritora francesa Yasmina Reza , ‘’Le Dieu du Carnage".

Graça Nunes é Psicóloga, Psicanalista em formação contínua, analisanda. Participa semanalmente, sendo 2017 o sexto ano, de  aulas e sessões clinicas no IPLA sob direção de Jorge Forbes, Instituto da Psicanálise Lacaniana. Especialização de 2 anos em Terapia Familiar  Sistêmica no Intercef em Curitiba. Especialização em  Gestação, pós-parto e puerpério com Maria Tereza Maldonado.

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