quarta-feira, 17 de agosto de 2016

MATRIX - variantes do Real

de Christian Dunker

O Real como Ato

         A abertura do filme é comandada pelo deslocamento de uma pergunta feita ao nosso protagonista. Anderson, é nos apresentado como um funcionário de uma empresa de software – Metacortex -, que durante a noite incursiona redes de computador como hacker (Neo). O tema é clássico, o dia e a noite como duas injunções de um mesmo personagem: o público e o privado, o pacato cidadão e o super herói, ou ainda o fiel cumpridor da lei e da ordem e o cruel assassino noturno. Aqui se poderia perguntar, qual dois é mais real ? Qual das duas esferas de existência realiza de fato o ser deste sujeito ?
         Mas o filme situa bem melhor uma primeira variante do que Lacan chamou de Real, isto é algo não representável, difuso, que ronda a existência do sujeito, sugerindo aqui e ali que as coisas não são exatamente como são; ou como parecem ser. Nosso herói,  é exposto a uma seqüência de perguntas que situam este real, que o localizam:
         - “Você já sentiu como se não soubesse se está acordado ou sonhando ?”
         É o que nosso herói pergunta o líder da gangue do coelhinho branco, recebendo como resposta uma outra pergunta:
         - “É sua escolha sair ou não.”
         O diálogo seguinte com Trynity reproduz esta mesma questão. “Eu sei qual é a sua pergunta (O que é a Matrix ?)”. Coloca-se de novo uma espécie de alternativa: você realmente deseja saber ? Tal como Édipo em sua procura pela verdade. Não há como saber de antemão os riscos desta investigação. Ao mesmo tempo esta investigação só ocorrerá se o desejo do autor estiver empenhado. Ou seja Neo está confrontado com uma escolha onde o ato da escolha participa ativamente do sentido da escolha. O ato de escolher transforma aquilo que é escolhido. Em outras palavras aqui o sujeito está diante de uma escolha real.
         De forma oposta encontramos na cena seguinte uma interpelação onde o ato da escolha não muda o que é escolhido:
“- Você deve estar na sua mesa na hora certa ou então procurar outro emprego. Você escolhe.”
O discurso do chefe é na verdade uma ameaça: esteja no seu posto caso contrário será despedido. É um discurso que pressupõe que Anderson deseja seu emprego, que ele não quer abrir mão dele. A mesma chave é utilizada às avessas por Morpheus no telefonema:
“- Só há duas maneiras de sair do prédio: com eles ou pelo andaime. Você escolhe.”
Aqui, como nas cenas anteriores, Anderson/Neo hesita. Ele diz que não entende por que aquilo está acontecendo com ele, que ele não é nada. Esta suspensão do ato redunda na vacilação em que ele deixa cair o telefone e se deixa pegar pelos Agentes da Matrix e cai na cena do interrogatório. Nova questão:
-  “ Você leva uma vida dupla. Quer recomeçar ? Você escolhe.”
         A seqüência é mostra uma alteração da posição de Neo. Em vez de hesitar, vacilar ou não entender ele se recusa a participar deste tipo de escolha, este tipo de  escolha forçada. Ele quer um telefonema. Mas, suprema metáfora do filme: O que adianta um telefone se você não tem boca ? De que serve a vida sem isto que a faz livre ? De que serve existir se esta existência não é ?
         A resposta vem nos termos da questão inicial. Será real o sonho ou a vida acordada  ? Neo acorda em sua cama achando que aquilo foi um sonho. Mas como ele mesmo disse anteriormente: não sei distinguir bem sonho e realidade. Agora com um transmissor inoculado em seu umbigo Neo recebe o seu ... telefonema. Seria este telefone que ele pedira antes ? Seria isto uma forma de voltar a seu instante de hesitação no alto do edifício e dizer: sim acredito em você Morpheus. O diálogo segue esta mesma lógica da inversão:
         - “Você acha que está procurando por mim a muito tempo, mas eu estou procurando por você a vida toda.”
         É por isso que na seqüência seguinte Neo volta ao ponto de sua escolha anterior. Trynity  retoma a questão do chefe:
         “Agora é do nosso jeito ou caia fora.”
         Neo quase abandona o carro, mas volta em seguida, agora contendo este momento de hesitação no interior de seu ato. Ele escolhe ficar, mas quase se foi. Uma escolha que agora inclui dentro de si uma hesitação. Quando escolhe ficar ele fica sabendo que não se tratava de um sonho.
Havia realmente um transmissor embutido dentro de seu corpo, que é então extraído. Vê se assim como o filme vai traçando um percurso de constituição do Real, mais além da realidade. A inversão opositiva entre realidade e sonho, entre vida e noite, entre  ilusão e real cede lugar à uma situação onde o sujeito progressivamente vai realizando o real na medida de seu ato. Na medida em que seu ato o ultrapassa e o nega ele é capaz localizar a ordem entre realidade e sonho. O ato permite que ele se desloque desta alternativa. Um ato que contém dentro de si sua própria negação (hesitação) e vacilação (incerteza).
Vemos aqui como a assunção da ignorância torna a equivocação da verdade o motor de um processo de experiência subjetiva. Claramente havia ali a saída pelo amor e a saída pelo ódio, mas elas seriam inoperantes para o processo em questão. É a paixão da ignorância, representada pela indagação “O que é a Matrix ?” que franqueia esta passagem do simbólico ao real.
        
O Real como Experiência da Verdade
         Estamos agora em outro ponto das relações do sujeito com o real. É isso que abre o momento seguinte do filme. Morpheus e Neo conversam. Neo revela que ele sente que há algo de errado com o mundo, uma espécie de zunido na cabeça. É este pequeno pedaço do real que encontra-se fora do lugar que é posto em questão. O que é a Matrix ?
         A dificuldade de Neo diz respeito à localização da Matrix. Ela está em todo lugar. Ela está à sua volta agora.
         “- Um mundo posto diante dos seus olhos para que você não veja a verdade.
           - Qual verdade ?
           - Que você é um escravo.”
         Aqui Morpheus inicia uma nova posição de indagação frente ao Real. O real não é o que você vê diante dos seus olhos, simples impulsos eletromagnéticos do seu cérebro, mas  é uma realidade justamente o que você vê, e tem que ver, e só pode ver, para não enxergar. Aqui real e realidade se separam, em perfeito acordo com a tese de Lacan. A realidade é aquilo que a Matrix produz. Um sistema de significações, uma ideologia, uma visão de mundo, que o organiza de forma a velar o Real. A realidade humana, neste sentido, é sempre experimentada como uma mistura entre o Imaginário e o Simbólico. Ilusão e verdade, era essa a oposição inicial do filme. Oposição que deixava de fora a possibilidade de que pode haver algo que não seja nem realidade nem ilusão. Iu melhor que não dialetiza a realidade da ilusão com a ilusão da realidade. O Real é o impossível de aparecer nesta dupla conjunção. Ele é impossível de ser simbolizado, mas também, impossível de ser imaginarizado. Como a alucinação do sujeito psicótico ou o núcleo do sintoma neurótico. É por isso que Morpheus afirma que ele não pode dizer o que é a Matrix. Só se pode ver a Matrix por si mesmo. Mas ver não indica aqui a ação sensível do olhar. Trata-se da experiência, não do conceito, nem da intuição.
O Real só é acessível por uma experiência que reúna sob si o mostrar e o demonstrar, o conceito e a intuição. Sabendo disso Neo é então exposto novamente à mesma alternativa:
         (1)  Pílula azul: você acorda na cama acreditando no que você quiser acreditar.
        (2) Pílula vermelha: fica no País das Maravilhas (Wonderland) e verá até onde vai a toca do coelho.
         A alternativa é irônica e nesta ironia se faz a experiência da verdade em ato. O tema está em Hegel e Kierkgaard. Acordar na sua cama é escolher a alienação, escolher não saber, escolher dormir. Mas por outro lado se você quer realmente saber é justamente de uma história infantil, que não é infantil, que se trata. Uma aventura pelo país da contradição. A Wonderland de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carol é uma alusão ao saber que se sabe equivocado. Nesta equivocação está a sua verdade. Não sem antes reafirmar a precisão do que está sendo oferecido.
         - “Lembre-se ... o que eu ofereço é a verdade e nada mais. Você escolhe.”
         Após escolher a pílula da verdade, amarga como sempre, ocorre uma curiosa constrição ou retração do imaginário representando por um de suas alegorias mais eficazes: o espelho. Neo toca o espelho mas é o espelho quem toca e devora Neo.
         A verdade é que você está em uma bolha, uma banheira de realidade, uma cápsula de ilusões. A verdade é que você tem olhos que nunca viram, que você tem um corpo que nunca experimentou e que serve como fonte de energia para um outro regime de funcionamento: a máquina. Dialética: a máquina que nos serve se torna nosso senhor. O tempo em que o sujeito está é um falso tempo, não 1999, mas algo em torno de 2109. Aqui, portanto, o real se revela como história, como núcleo impossível da história.
Esta é a experiência de extimidade, de exteriorização a que Neo é submetido. Resgatado pela nave submarina Nabucodonosor, dividindo um espaço degradado. Assim como em Blade Runner, o futuro em Matrix é barbárie. Mas seria então  o real este futuro anterior que revela ao sujeito a equivocação na qual este se encontra?
A genialidade do filme está em não se contentar com esta solução fácil. Neo agora sabe a verdade, mas a verdade que se converte em saber não é mais verdade. O real do encontro com Nabucodonosor torna-se apenas outra face da realidade, com os mesmos dramas da realidade anterior: dominador e dominados, senhor e escravos, ilusão e verdade. A vida dentro deste submarino errante é miserável,  crua e incerta. O que a legitima é a utopia de libertação. Ou seja, a primeira volta da verdade é insuficiente, ela realiza subjetiva o desejo, mostra seu núcleo traumático, revira a história, no entanto abre como questão o Outro e com isso A Resistência.
  
O Real como Resíduo          
         Portanto temos aqui que admitir, freudianamente, que a fantasia é uma faceta da realidade, ou com Lacan que a fantasia é o que organiza a realidade para um dado sujeito. Uma tela de onde o sujeito vê o mundo e de onde o mundo se torna possível. Todavia o Real não está nem do lado de lá: a ilusão produzida pela Matrix, nem do lado de cá: o cyberuniverso dominado pelas máquinas: o Real está na travessia, na passagem ou na relação entre um e outro. Esta passagem é o fantasma.
         A primeira coisa da qual Neo é informado, quando reingressa na Matrix - agora sabendo do que ela se trata que - é existe uma “autoimagem residual”. A existência de um mundo da neurosimulação, não apenas conjecturado mas efeito de uma experiência de verdade.  O narcisismo é reconstituído, sua geometria se estabiliza, recoloca-se a questão: onde está o Real, agora ?
         O primeiro movimento é lembrar que o Real não pode ser a experiência dos sentidos, o que se pode sentir, ver e provar. Mas também o real não está “fora” desta experiência e da linguagem que comanda sua apreensão.  O Real, deste ponto de vista é um deserto:
         “- Bem vindo ao deserto do real.”
         É a frase de Morpheus, o senhor dos sonhos, mas também da forma. Depois disso o que vem é uma nova versão da história: não nascemos, somos cultivados. Vivemos inertes e adormecidos em casulos de onde a energia de nossos corpos é retirada para alimentar a Matrix e o exército de Robôs que tomou conta do planeta. A vida é um sonho. Os mortos são liquefeitos para alimentar os vivos. A guerra permanente e a dominação pelas máquinas, essa é a realidade de onde se torna necessário algo como a Matrix – na verdade um sistema de simulação neuronal capaz de produzir a ilusão de uma vida, a nossa vida, que como tal é apenas um artifício de imagens. Matrix pode então ser definida como um gerador de falsas experiências.
A verdade se torna então “óbvia”, mas curiosamente ela não é dita por Morpheus, mas mostrada: somos uma bateria, diz seu gesto ao segurar uma pilha comum em suas mãos. Diante disso Neo desfalece, recua, não acredita. A verdade não é uma experiência fácil, mesmo sendo óbvia.
         A próxima cena mostra Neo, novamente acordando.
         “- Não posso voltar ?
          - Não, mas se fosse possível você iria querer ? “ 
         Esta interpretação de Trynity inaugura um novo passo nas relações de Neo com o Real. O passo que Édipo dá em seu movimento rumo ao deserto, acompanhado por Antígona, carregando seus próprios olhos. Ele diz: “Seria melhor não ter nascido.” Seria melhor não saber. Ressurge então a questão da escolha e da verdade. No primeiro passo o real é a escolha sem sujeito (ato), no segundo é sujeito sem escolha (verdade). Aqui a questão gira em torno do valor de objeto que o sujeito deve assumir ao assumir seu destino. Um resto que fica na passagem do mundo provido pela Matrix ao mundo organizado pela Resistência. A Resistência é este grupo de errantes que lutam contra os Robôs. Entrando e saindo da Matrix a Resistência é uma minoria que tenta desestabilizar o sistema, ao mesmo tempo é a própria razão de ser do sistema: destruir e dominar os humanos.
Há algo residual entre um e outro: é a figura do Escolhido (The One). Curioso termo, apesar de incorretamente traduzido. Neo de escolhedor ele passa a escolhido. Tha One é também simplesmente e alusivamente aquele, que poderá inverter a relação de forças entre os Robôs e a Resistência.  
          O oráculo previu, desde muito, a volta do Libertador. Aquele que pode mudar tudo, aquele que primeiro se libertou, capaz de combater o mundo da máquina, destruir a Matrix e por fim a guerra. Ele está no  fim da história, fim da dominação, fim da ilusão. Eis o ponto de estimidade do Escolhido: interno e externo a um estado de coisas. Resíduo da incompletude de dois universos.

O Real como  Furo no Saber: o Sujeito 
         Aqui vale destacar um dos primorosos diálogos do filme. Neo encontra-se com o Oráculo. O Oráculo é uma velha senhora em seu decrépito apartamento suburbano, repleto de crianças candidatas a messias. A pressuposição estruturante da situação é: o Oráculo sabe. Não há saber que lhe escape. Uma conjectura filosoficamente trivial. Exatamente por saber, e apenas saber, que o diálogo com o Oráculo deixa aparecer a dimensão da verdade como resíduo do saber. O que é impossível no real é que ele não reúna saber e verdade. Mas, saber e verdade não fazem um todo. Este todo é impossível. O diálogo com Oráculo é a experiência, em ato, desta impossibilidade.
         “- Não se preocupe com o vaso”.  Diz a anciã assim que Neo entra no recinto.
          “- Qual vaso ?”  Ao procurar o objeto Neo vira-se abruptamente e derruba a mesa sobre a qual está o referido vaso. “
         “- Como você sabia ?
         - Que pergunta tola. A questão é: será você teria quebrado se eu não tivesse dito ? ”
         Nesta passagem vemos o real em ação como um encontro sobredeterminado pela contingência. As afirmações do Oráculo são perguntas e as perguntas são afirmações. É esta regra que ela aplica na seqüência:
         “- Você é bonito por isso ela gosta de você. “
         - Quem ?
         - Mas não é muito inteligente.”
         Ou seja, Neo não foi suficientemente astucioso para perceber o interesse de Trynity por ele mesmo. Trynity é uma mulher que trabalha na Resistência e, desde a cena inicial, exerce uma estranha atração sobre Neo.  Mais tarde veremos como aqui já está a chave do enigma. O oráculo havia profetizado que aquele por quem Trynity se apaixonará é o Escolhido. Se Trynity se apaixonou por ele então ele é o escolhido. Mas nem ela nem ele sabem disso.
 Neo só será o escolhido se, de fato, puder reconhecer-se sendo reconhecido pelo outro como objeto de seu desejo. Neo está antes disso. Ele está ás voltas com sua suposição de saber, localizada no Oráculo. Ele entra na situação com uma única posição, equivocada,  qual seja: será  que o Oráculo me reconhecerá como O Escolhido? Ou não? Aqui seu ego o atrapalha: terei predicados?  Tenho condições para a tarefa?
 Neo está alienado no saber do Oráculo. O Oráculo está às voltas com separá-lo desta alienação. Isso só poderá ser feito:
(1) Em ato, não pela representação de si em uma posição ou outra diante do saber.
(2) Por um processo, uma experiência, entendida como uma sucessão de voltas concêntricas onde a verdade surge, a cada momento, da equivocação.
(3) Com o Outro, segundo uma estrutura cujo conceito é a a proporia temporalidade desta experiência.
 O primeiro passo do Oráculo, assim como seria o do analista, é remeter a questão ao sujeito:
         “- O que você pensa? Você é o Escolhido?
         A pergunta retoma a chave usada antes por Morpheus: “Eu posso mostrar a porta, você deve atravessa-la”.
         “- Sinceramente não sei.”
         O movimento retoma a hesitação anterior, aceitar ou não o convite, aceitar ou não a pílula vermelha, quase sair do carro. O Oráculo aponta para o dictum escrito sobre a porta:
         “- Você sabe o que significa ? Está em latim. Conhece-te a ti mesmo.”
         Ou seja, está em uma linguagem que você não conhece, mas que diz tua própria verdade. O Oráculo força a subjetivação da questão. Pressiona por um ato subjetivo. Um ato improvável: impossível saber a verdade. Não posso decidir se sou ou não o Escolhido.
         “- Ser o Escolhido é como estar apaixonado. Ninguém pode dizer que você está.”
         Sim, ninguém poderá dizer  que você está, mas para estar é preciso o encontro com o outro e a experiência simbólico imaginária do amor. Novamente “a porta” a via de acesso à verdade do Escolhido é indicada: a paixão de Trynity. O Oráculo faz então uma última tentativa:
         “- Deixe-me examina-lo. Agora eu deveria dizer: ‘Interessante mas..´‘ . 
         O Oráculo brinca de falso Oráculo (aquele que reúne verdade e saber sobre o sujeito) para que Neo apreenda o caráter trágico de sua alienação. Aqui ela aponta o ponto de inserção do sujeito, esta pequena pausa que se segue ao “mas ...”. isto é aqui ele deve-se incluir, ele deve-se contar nesta abertura do Outro. Em vez disso Neo remete ainda o saber sobre si ao Outro.
         “ – Mas o quê ?”
         Ao que o Oráculo repete a estratégia.
         “- Você sabe o que eu vou dizer ...
         “- Eu não sou o Escolhido.”
         Nitidamente por medo e desejo de ser o Escolhido ele diz que não é o Escolhido. Já que ele tem dúvida ele não pode sê-lo. Ainda mais o desejo joga sua partida contra o ser. O ser do sujeito não se realiza. O verdadeiro Escolhido não hesitaria, como ele hesitou não é. Aqui o Oráculo segue a resposta do sujeito:
         “- Desculpe garoto, você tem o dom, mas ... parece estar esperando algo.
         - O quê ?
         - A próxima vida talvez, quem sabe ... ?
         - Morpheu ... quase me convenceu.”
         Aqui se revela o furo no saber. A realização da posição de Escolhido não pode decorrer da persuasão do outro. O Escolhido não pode esperar algo do Outro, mas para isso dever realizar o fato de que há um furo no saber do Outro. Há um furo real no saber, um furo introduzido pela palavra.  Assim como Neo estava alienado na realidade da Matrix, Morpheu está alienado na crença de que Neo é o Escolhido. Nada que Neo faça ou deixe de fazer retirará esta crença. Cara eu ganho, coroa você perde. A transferência entre Neo e Morpheus  continua a cobrar seus efeitos. Entre escravo e mestre a morte é a báscula central.
 Morpheu acredita tão cegamente que dará a vida por Neo. Uma vida baseada em uma falsa crença, isso recoloca a trama em sua posição inicial. É por isso que novamente Neo se confronta com a escolha:
(1)  salvar Morpheu, sacrificando-se por ele, mas ao mesmo tempo destituindo sua crença fundamental no Escolhido.
(2)  deixar que Morpheu se sacrifique por ele, mantendo sua crença fundamental no Escolhido.

O Real na Travessia do Fantasma: o objeto a 
A última etapa do filme é uma solução para o enigma deixado pelo diálogo com o Oráculo. Enigma de duas faces: o indecidível e o impossível. Colhido pelo Outro nesta posição de escolha o sujeito fica às voltas com o seu fantasma. Isso implica dizer que o que o sujeito jamais reconhece é seu lugar como objeto a.
A primeira figura do objeto a aparece quando a Matrix muda a realidade. Esta mudança deixa uma pequena ranhura, um breve desajuste. Um gato preto repete por duas vezes o mesmo movimento, como se um problema na máquina de projeção tivesse passado por duas vezes a mesma seqüência do filme.. Pode-se dizer que o objeto a é isso que aparece nesta repetição. Não o gato em si, mas isso que permite realizar o fato de que aquele gato é um “falso gato”.
Outra forma de demonstrar isso é atentar para o lugar que a  Resistência assume para os Agentes e em especial para o Agente Smith. A Resistência é este cisco que impede o fechamento da realidade sob si mesma, esta cicatriz que instabiliza todo o sistema. Como ele chega a afirmar:
“- A primeira Matrix foi um fracasso pois foi projetada para todos serem felizes. Os humanos parecem definir a realidade pelo sofrimento e pela desgraça.”
“- Os humanos são a praga, nós a cura.”
A Resistência, e Neo que a simboliza, representam este resíduo que mantém o Agente Smith atado à sua operação de purificação e limpeza da realidade. Operação que ele sonha ver concluída. O Um da totalidade realizado pela eliminação do um em excesso. The One, tem esta curiosa ambigüidade quando lido á partir da Resistência, e quando lido à partir da Matrix.
Essa alternativa se coloca exatamente na mesma proporção para a luta final entre as duas posições. Primeiro Tank tem que fazer uma escolha: matar Morpheus para salvar os códigos que poderiam destruir o Sião – um dos nomes para a utopia que move a Resistência. Um homem para salvar uma idéia. O sacrifício de um para salvar o todo. Neste ponto, em que Tank e a Resistência aproximam-se da lógica da Matrix, interpõe-se o ato de Neo.
(1) Ele conclui que não é o Escolhido e como tal deixa de ser alguém privilegiado e muito bem pode morrer para salvar seu amigo e, agora revelado, pai.
         (2) Mas ao se reconhecer como um e não como Um, ele se permite reconhecer na crença de Morpheus.
         (3) Não há mais diferença entre ir e não ir ... e justamente por isso ele decide-se ao ato de enfrentar a Matrix. Diante do inédito de seu ato ele é indagado:
         “- Ninguém jamais fez algo assim.
         -  Por isso vai dar certo.”
         (4) Neo reverte a lógica que o dominara no diálogo com o Oráculo: primeiro saber quem você é, depois decidir o que você deve fazer. Ele introduz em seu ser a lógica da experiência que o constitui.
         “- Cedo ou tarde você perceberá a diferença entre conhecer o caminho e percorrer o caminho.” 
Publicado variante originalmente em CINEMA e PSICANÁLISE -vol.2 - Ed. nVersos - São Paulo - 2013, p.103-131.

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano e fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Autor de vários livros, entre eles Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica (AnnaBlume, 2011) vencedor do prêmio Jabuti de melhor livro em Psicologia e Psicanálise em 2012. Seu livro mais recente é Mal-estar, sofrimento e sintoma: a psicopatologia do Brasil entre muros  (Boitempo, 2015)

Trailer

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Star Wars, a morte e o sexo

de Marcus do Rio Teixeira

Um filme jamais se resume às imagens e sons que o compõem, mas é também a soma das leituras que dele são feitas. No caso de Star Wars, Episódio VII - O despertar da força (2015) o culto fiel dos fãs que sustentam a grande mitologia da saga é apenas a forma explícita do que ocorre em outras obras cinematográficas. Assim, as críticas, resenhas e discussões também fazem parte de Star Wars. Nesse sentido, a opinião dos atores é um componente importante do filme. Carrie Fisher, a atriz que interpreta a princesa Leia, queixou-se dos comentários dos fãs e críticos de cinema sobre o seu envelhecimento, comentários que, segundo ela, feriram os seus sentimentos. Ela exortou ainda os espectadores a reconhecerem a velhice como um processo natural, parte do ciclo da vida. Bem, não há como negar essa obviedade. Porém, creio que a atriz se engana ao considerar exagerada ou não pertinente a preocupação dos espectadores com tal processo. Isso porque na verdade, toda saga diz respeito, justamente, ao envelhecimento.
“A saga é uma sucessão de eventos, aparentemente sempre novos, que se ligam, ao contrário da série, ao processo ‘histórico’ de um personagem, ou melhor, a uma genealogia de personagens. Na saga os personagens envelhecem, a saga é uma história de envelhecimento (de indivíduos, famílias, povos, grupos).”1
Não é surpreendente, portanto, que os fãs de Star Wars, Episódio VII se interessem pelo envelhecimento dos atores, uma vez que a saga trata do envelhecimento dos personagens interpretados por esses atores. Ambientado trinta anos após os acontecimentos do Episódio VI (aproximadamente o mesmo tempo transcorrido entre os dois filmes na realidade), o filme mostra os personagens vivendo as mudanças decorrentes da velhice. Por trás da morte espetacular, dramática, provocada pelos sabres laser e explosões de planetas, espreita a morte mais prosaica, silenciosa, que resulta da passagem do tempo e do envelhecimento dos corpos. Esta, contudo, não é abordada diretamente. Ao contrário, quanto mais é exposta de forma violenta, mais a morte é afastada, denegada. Com exceção de Yoda, que morreu com novecentos anos, os protagonistas de Star Wars não morrem de causas naturais.
Porém, a saga não trata apenas do envelhecimento e da morte, mas também da genealogia. Daí porque um ponto central da trama seja o conflito entre pai e filho (acerca do qual não entraremos em detalhes para não entregar spoilers). Se esse conflito não parece inverossímil a nós espectadores, tão tolerantes na suspensão da descrença, é porque ele nos evoca o conflito entre Luke Skywalker e Darth Vader presente na trilogia original. Como nos lembra Umberto Eco, o novo na saga é apenas aparente; na verdade, ela acompanha a morte dos velhos personagens para repetir as mesmas tramas, as mesmas situações narrativas com novos personagens, indefinidamente. A autocitação também faz parte do mecanismo da saga, e nesse filme ela está presente de forma evidente ou sutil, em toda parte: nos cenários, no figurino, ou no bar repleto de alienígenas.
Quanto ao conflito entre pai e filho, chama a nossa atenção o fato de que esse tema tão caro a Freud, que soube reconhecer a sua presença na literatura ocidental desde a obra de Sófocles, assim como para Lacan, que o redefiniu em tempos lógicos e deu uma nova definição ao conceito de castração, seja situado pelos cineastas como ponto central de várias narrativas ao mesmo tempo em que tem sua importância minimizada hoje em dia por alguns autores lacanianos.
Outro tema se faz presente no filme: trata-se do sexo, que não deixa de se estar relacionado ao tema da morte, conforme Lacan2 teoriza no Seminário Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise: “(...) o vivo, por ser sujeito ao sexo, caiu sob o golpe da morte individual”.
Novamente é Carrie Fisher quem dá a deixa. “Não seja uma escrava como eu fui. Lute pelo seu figurino. Continue lutando contra o traje de escrava”, disse ela numa entrevista, dirigindo-se a Daisy Ridley, a atriz que interpreta Rey, a personagem feminina do novo filme. Ela se referia ao biquíni que usou quando a princesa Leia foi escravizada pelo monstruoso gangster Jabba. Na verdade, o figurino da princesa é uma referência evidente aos trajes sensuais de Dale Arden, a noiva de Flash Gordon, na HQ desenhada por Alex Raymond nos anos 30, à qual Lucas sem dúvida presta homenagem. Ao que parece, esse biquíni causou tanta controvérsia que a Disney, responsável pela comercialização dos brinquedos da franquia Star Wars, decidiu retirar das lojas a boneca da princesa Leia. O que causou outra controvérsia, pois agora as pessoas se queixam de que só há bonecos de personagens masculinos da série...
Mas ela prossegue nos seus conselhos à jovem atriz: “As pessoas vão ter fantasias com você! Isso vai fazer você se sentir desconfortável, eu imagino.” Não vou discutir aqui a contradição explícita entre ser uma atriz, alguém que interpreta personagens, e não querer que os espectadores tenham fantasias. É claro que sabemos que Carrie Fisher não se refere a fantasias em geral, mas a um tipo específico, as fantasias sexuais. São essas fantasias que ela considera que fariam a atriz se sentir “desconfortável” e que deveriam ser evitadas.
Ora, para um psicanalista soa extremamente estranha a ideia de evitar que os sujeitos tenham fantasias. Mesmo se tomarmos o termo “fantasia” no sentido proposto por Fisher, de roteiro de um devaneio sexual, e não segundo Lacan, como uma articulação entre o sujeito e o objeto perdido que causa o seu desejo. Ainda assim não há como imaginar a possibilidade de por em prática o conselho da atriz e suprimir as fantasias ou devaneios sexuais, uma vez que esse roteiro sexual é a forma imaginária da fantasia que organiza o desejo, a qual é sempre inconsciente e não pode ser suprimida.
Semelhante ascetismo pode parecer anacrônico em uma época que superou o moralismo tradicional e ampliou a liberdade sexual. Mas alguns fatos recentes mostram que a censura ao sexo e o moralismo parecem ter voltado à moda, agora sob nova inspiração ideológica. Leiam, por exemplo, o ótimo artigo de Tati Bernardi3, “Respeite as mulheres, sua vaca!”:
“Meu ex-analista me contou que um paciente seu de 17 anos vomita toda vez que bate punheta pra namorada. As feministas da sua classe disseram a ele que ‘punheta é nojento, é tratar a mulher como objeto, como carne barata’. Um colega escritor premiado e respeitado se desesperou ao saber que, após um texto seu falando sobre admirar uma mulher bonita, sua filha sofreu bullying das coleguinhas: ‘seu pai é misógino’.”
É importante observar que a ideia subjacente a essas críticas é a mesma do conselho de Fisher: o desejo masculino constitui uma depreciação da mulher. Não um determinado tipo de desejo, mas o desejo em si. Segundo essa visão, ele é uma forma de depreciação da mulher porque o homem a toma como um objeto. Diríamos, mais precisamente, que o sujeito a toma como a encarnação desse objeto perdido que é sempre imaterial, ao qual ele tenta dar uma forma imaginária. É esse lugar de objeto que seria desconfortável para uma mulher. A psicanálise não ignora esse desconforto, muito pelo contrário. Ela está atenta para o que concerne aos efeitos imaginários das escolhas simbólicas. Porém ela não compartilha da ingenuidade de supor que o desejo possa ser causado por uma “pessoa” em vez de um objeto. Acerca dessa questão, Lacan4 observa:
“Que eu saiba, depois de ter dado uma conotação tão pejorativa ao fato de considerar o outro como um objeto, ninguém jamais observou que considerá-lo um sujeito não é melhor. Vamos admitir que um objeto valha por um outro, sob a condição de darmos ao termo objeto seu sentido original, que visa aos objetos na medida em que os distinguimos e podemos comunicá-los. Se é, pois, deplorável que o amado jamais venha a se tornar um objeto, será melhor que ele seja um sujeito? Para responder a isto, basta observar que, se um objeto vale um outro, para o sujeito isso ainda é pior. Pois não é simplesmente um outro sujeito que ele vale - um sujeito, estritamente, é um outro.”
Façamos a hipótese de que os roteiristas de Star Wars se deixaram influenciar por essa noção do desejo masculino como uma depreciação da mulher. Apesar de se passar em outra galáxia, a história segue a ideologia presente nos países ocidentais do nosso modesto planeta. A questão que se coloca para os roteiristas é a seguinte: como representar a aproximação sexual em um casal de jovens heterossexuais quando as normas de conduta contemporâneas consideram o desejo masculino como algo condenável? Isso nos ajudaria a entender porque a paquera, ou sei lá como chamar, entre essa catadora de lixo espacial (Daisy Ridley) e esse desertor interpretado por um jovem ator negro (John Boyega) é tão insossa, tão sem graça. Sabemos que em praticamente todos os filmes do cinema mainstream assumidamente dirigidos a um público adolescente (penso em séries como Divergente, Jogos Vorazes, Crepúsculo, etc.) o enredo diz respeito ao rito de passagem para o mundo adulto (o qual por sinal, como muitos notaram, assume um caráter cada vez mais ameaçador nos exemplares mais recentes).
Porém, ao lado dos desafios fálicos também se faz presente a temática do amor. Trata-se aqui de uma forma de elaborar o real do sexo. Os adolescentes são particularmente concernidos pelo sexo, pois eles vivem o momento de reafirmar a identidade sexual definida anteriormente na escolha da posição de gozo (todo fálico ou não-todo fálico). Porém, a assunção dessa identidade não é sem consequências, pois implica o encontro, sempre traumático, com o sexo. Por isso é comum nos enredos dos filmes de adolescentes o tema do casal que vive uma grande paixão e enfrenta o mundo.
Em Star Wars, Episódio VII essa temática é extremamente tênue, para não dizer que se trata de um filme assexuado, até mais do que a média dos filmes da Disney. O envolvimento do jovem casal se resume a um abraço e um beijinho (na testa). Na maior parte do tempo o relacionamento dos dois pode ser descrito como uma camaradagem assexuada, uma parceria de companheiros de brincadeiras, em que ambos fogem de bandidos, se escondem, explodem naves espaciais, etc. Essa menina é na verdade um bom amigo (sic): ela sabe se virar, gosta de consertar motores e pilotar carros, digo, naves espaciais, e se precisar entrar numa briga pode dar umas porradas. Além disso, não veste um biquíni de escrava, mas um traje de mendiga espacial que cobre o seu corpo de modo a não despertar fantasias.
Já se falou muito que os filmes contemporâneos de Hollywood possuem personagens e se dirigem a um público constituído por púberes (não importa qual seja a sua idade cronológica). Faltou dizer que esses personagens e esse público, na terminologia freudiana, permanecem na fase de latência. Só para lembrar, essa fase se situa entre a saída do Édipo e o início da adolescência e, ao contrário do que reza a vulgarização da teoria freudiana, não se caracterizaria pela ausência de sexualidade, mas pelo fato de que os sujeitos ainda não se acharem inscritos enquanto seres sexuados, mas aguardarem o momento de reafirmação da sua posição de gozo. Assim, a atividade sexual que pode ocorrer não teria ainda o sentido de um encontro com a alteridade do sexo (nesse sentido, a expressão “jogos sexuais”, comumente empregada pelos psicólogos, é bastante feliz).
Charles Melman5 lembra que a neurose visa suprimir o sexo, fonte de transtorno e mal-estar para o falasser.
“Tudo que a psicanálise pôde mostrar quanto à organização das neuroses ilustra, seguramente, de que maneira esse estranho animal humano trata de se defender contra esse encargo ligado à identificação sexual, de todas as maneiras possíveis. Não sei se é necessário aqui, imediatamente, não sei se é necessário desenvolvê-las, seria abrir o capítulo das neuroses, sejam elas obsessivas, sejam histéricas, sejam fóbicas, todas se caracterizando como sendo defesas contra a identidade sexual e o encargo, eu diria, a cumprir.”
Ele lembra também que o apelo à igualdade de gênero se faz sempre no mesmo sentido, ou seja, no sentido masculino.
“Mas, em todo caso, isso não impede de modo algum que essa palavra de ordem tenha vindo se inscrever, esse campo político com essa consequência que não é uma qualquer, é que essa igualdade parece obrigatoriamente vir se inscrever como a repartição geral de um traço masculino. Afinal de contas, não vejo por que é que, ...bem..., seria forçosamente esse traço que deveria ser escolhido como índice da igualdade que se deveria generalizar... Por que é que não seria um traço feminino? Seria fácil mostrar que, do ponto de vista da qualidade, ele certamente não é inferior e menor que o traço masculino!”
O que Melman comenta com ironia é que a igualdade dos sexos tão preconizada nos dias de hoje (e que confunde igualdade de direitos civis, isonomia salarial, etc., com igualdade sexual) elimina a dimensão da alteridade do sexo, colocando todos os falasseres do lado todo-fálico. Ora, a psicanálise não vê nenhum problema no fato de que a identidade sexual imaginária de um sujeito não corresponda à sua anatomia. Aliás, foi graças à teoria freudiana que se pôde encontrar argumentos consistentes para pensar a sexualidade como independente de uma determinação “natural”. A alteridade de que se trata aqui não diz respeito estritamente ao casal heterossexual. Como lembra Melman, ela também está presente enquanto diferença de posições de gozo no casal homossexual, no qual os parceiros possuem anatomia idêntica.
A questão está na indiferenciação das posições de gozo, gerando o que chamei de forma aproximativa de prolongamento da fase de latência. Dulce Duque-Estrada6 analisa as consequências da ausência da diferença fálica em adolescentes e jovens contemporâneas. Para a autora, porém, essas jovens se situariam numa fase pré-edípica e não na latência. Feita esta ressalva, é importante destacar entre os efeitos dessa indiferenciação o estabelecimento de uma relação que pode ser descrita, como o faz Melman, como uma espécie de companheirismo, onde a impossibilidade da relação sexual é substituída pela possibilidade de um laço entre companheiros. Laço que, como na latência, se não elimina a sexualidade, exclui a alteridade do sexo.
O escopo deste texto não permite abordar o voto de castidade dos guerreiros Jedi. Mas devemos lembrar que esse voto não impediu Anakin Skywalker de ter dois filhos com a princesa/senadora Padmé Amidala (alguém poderia argumentar que isso é compreensível, porque ela era Natalie Portman, mas poderia ser acusado de misoginia). Alerta de spoiler: circula atualmente entre os fãs o boato de que Rey seria filha de Obi-Wan Kenobi, o que revelaria que os Jedi descumprem seu voto de castidade mais do que poderíamos imaginar...      
    Referências:
1. ECO, Umberto. A inovação no seriado, In: Sobre os espelhos e outros ensaios. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989, p. 125.
2. LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise [1964]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008 (2ª Ed.). p. 201.
3.BERNARDI, Tati. Respeite as mulheres, sua vaca. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2015/11/1711635-respeite-as-mulheres-sua-vaca.shtml Acesso em 29/11/2015.
4. LACAN, J. O Seminário, Livro 8, A Transferência [1960-1961]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010 (2ª Ed.). p. 186.
5. MELMAN, Charles. Uma calça para dois: o ideal da paridade no mundo industrial. Tradutor: Sérgio Rezende. 14 maio 2008. Disponível em: <www.tempofreudiano.com.br>. Acesso em: 12 maio 2013.
6. DUQUE-ESTRADA, Dulce. Função e campo do gozo ou a falta que o falo faz. In:______. O umbigo do sonho...e o nosso. Porto Alegre: CMC, 2011. p. 57-62.


Marcus do Rio Teixeira – Psicanalista, diretor da editora Ágalma. Autor de O espectador ingênuo – Psicanálise, cinema, literatura e música (2012) e Vestígios do gozo (2014), entre outros


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