terça-feira, 10 de janeiro de 2017

AQUARIUS

Vocês esqueceram a revolução sexual
de Christian Dunker 
Encontrei Kleber Mendonça Filho no dia em que ele tinha terminado de editar Aquarius. Ele estava meio distante, com aquele branco cansado de quem passou pela maratona da sala de montagem. Conversamos sobre a Fundação Joaquim Nabuco, sobre a Ocupação Estelita e sobre a crítica que eu havia feito de Som ao Redor. Ele parecia longe. Como alguém que olha a vida com um recuo, tipo quinze anos para trás ou para frente. Uma distância que ninguém na mesa, em tempos de impeachment, conseguia ter.
Um ano depois, Kleber deixou a Fundação para fazer mais cinema, a Ocupação do cais Estelita obteve vitórias substanciais, apesar da indiferença da imprensa local, Dilma caiu e eu acabo de sair do cinema, consternado com a rede de contradições que Aquarius conseguiu formalizar sobre o Brasil, com seu recuo histórico. Muitos disseram tratar-se de um estudo de personagem, a arquetípica Sonia Braga, e seus conflitos de elite em torno da intransigência e da resistência para não deixar “seu lugar”, na praia da Boa Viagem, ser tomado por uma construtora.
Não é.
Seria o mesmo que dizer que a Fenomenologia do Espírito de Hegel é um romance filosófico causado pelo impacto de alguém que assistiu a entrada de Napoleão em Jena. Análogo de afirmar que Memórias Póstumas de Bráz Cubas ou Grande Sertão: Veredas são estudos sobre psicologia de personagens. Correto desde que se entenda, equivocadamente, que a psicologia é apenas o estudo de indivíduos típicos e suas generalizações identitárias. Isso nos levará ao apequenamento de quem só consegue discutir quantos negros, homossexuais, mulheres ou pobres comporão o banquete universitário de fim de ano. Verdadeiras pessoas são universos em contradição, não personagens que valem pelo tipo que representam.Tolice de quem não entende que cinema é linguagem e pensamento.Seu papel foi crucial para o pouco de reflexão sobre o Brasil dos anos 1980 ao fim do Lulismo. Aqueles que se demitiram de pensar o Brasil, que se evadiram dos conceitos e suas práticas, são os mesmos que agora lamentam que a abstinência política nos levou ao pior.
Aquarius é uma enciclopédia sobre o Brasil que encontra, literalmente, o universal em seu quintal. Uma aventura filosófico-psicanalítica de quem nasceu sob a ditadura civil militar e que tinha diante si o projeto de reconstruir o Brasil sem recursos opulentos, apenas Taiguara, Chico e Caetano e o novo rock de Legião, Titãs e Barão Vermelho. Um filme sobre causas impossíveis. Um filme diagnóstico, como Invasor, de Beto Brant, Central do Brasil, de Walter Sales e Que Horas Ela Volta?,de Ana Muylaert.
O filme começa, com uma tomada dos anos 1980, na festa de aniversário de 70 anos de Tia Lúcia, mulher “liberal” que tem sua biografia lida cerimoniosamente pelos sobrinhos. Enquanto eles fazem a tradicional nobiliarquia familiar, ela relembra tórridas noitadas com o seu amante, casado e que jamais deixaria sua família, sem por isso deixar de consagrar-se, para ela, como um grande amor. Nossa memória pertence e depende de lugares. Neste caso uma espécie de cômoda, em cima da qual ela criava momentos de lúbrico sexo oral. O móvel antigo faz função inversa ao da máquina de lavar com a qual Maeve Jinkings, a solitária e narcísica dona de casa de Som ao Redor, se masturba. Esta lembrança faz Tia Lúcia interromper o tom elegíaco da festa familiar e lembrar em alto e bom tom seu amante. Um marco que aponta, simbolicamente, que aquele lugar não pode e não deve ser abandonado. Neste momento diagnóstico, ela proclama: “Vocês estão esquecendo a revolução sexual”.
Clara, a heroína de Aquarius, não veio do nada. Ela foi formada por Tia Lúcia, uma destas mulheres que fizeram a revolução sexual, mostrando em ato o que pode um corpo. Mas uma verdadeira transmissão simbólica, como diria Lacan, decide-se em três e não em duas gerações. Daí o mal-estar de Clara diante dos filhos, a quem não carece amor. Seu filho homossexual não consegue apresentar seu amante para a mãe. Sua filha não consegue desprender-se do rancor de sua vida instrumental. Seu outro filho parece preso em um ideal plástico de bom casamento. Em suma, um desejo que fracassou na sua transmissão. Um sonho esquecido que não criou as condições para realizar seu próprio futuro. Um sonho que se mantém pela resistência do corpo. 
É assim entre gerações, é assim entre brasis.  Os jovens pós-revolucionários, herdeiros dos anos 1970, tornaram-se yuppies nos anos 1990 e criaram uma geração X de normalopatas conformados. Exceção improvável da namorada de Facebook, estrangeira, que chega do Rio de Janeiro, lembrando que uma tia, e não só uma mãe, é capaz de transmitir o desejo. No mais, uma tropa de anestésicos performativos, ocupados e carreiristas.
A revolução sexual dos anos 1960 não foi apenas uma modernização de costumes, trazendo aumento da tolerância para temas como divórcio, homossexualidade e padrões de família. Foi uma revolução bovarista, no sentido de que ela nos mostrou que outro futuro é possível, que podemos ser “outros para nós mesmos” (como Madame Bovary) e que o futuro começa pela relação com o corpo e com o desejo. Aquarius é um filme essencial a ser estudado por aqueles que estão em busca do próximo capítulo, depois do “aquilo deu nisso”, que vai de Lula e Temer.
Clara não é um ser anacronicamente ligado a uma vida que já passou. Ela nos fala do futuro possível, feito de um passado imprevisível. O contraste é brutal com o falso futuro que nos oferece Diego, o empreendedor, neto do dono da construtora, que quer fazer seu primeiro grande negócio comprando o último apartamento que falta para criar o “Novo Aquarius”. É um filme sobre o papel dodesejo, do corpo e da memória na história.
Desejo que se transmite e se repete desde Tia Lúcia, como reconciliação com a experiência de amor que não terminou com a viuvez. Exemplo. Diante do bacanal contratado por Diego para perturbá-la noite a fora, em vez de intimidada, chamar a polícia, ela chama o amante profissional. Resposta exata e inversa ao ódio banal do ressentido, em vez de acabar com a festa do outro, entrar nela, por seus próprios meios. Desejo que a faz se afastar dos três filhos para escrever um livro sobre Villa-Lobos. Desejo que a torna uma Antígona brasileira. Desejo que aparece sempre na enunciação musical que atravessa o filme de Queen (um marco da internacionalização brasileira desde o antológico show de 1981) até Altemar Dutra, Paulinho da Viola e Alcione.
Memória que trabalha tanto no corpo mutilado e sobrevivente do câncer, como no rico repertório de recriação de experiências que ela construiu para si em seu apartamento. Sozinha, mas não só. Com ela estão neto, empregada, salva vidas, amigas, antigos conhecidos de jornal, filhos, sobrinhos e ao final os próprios capangas da construtora, entre eles o impagável Irandhir Santos. É isso que Diego, o jovem e impiedoso negociante, com seu MBA feito nos USA, herdeiro profissional, não consegue entender, pois não consegue lidar com pessoas que não vivem apenas no presente.
Corpo que nos fala do presente como instante de sobrevivência e de urgência. Presente que é expresso nos banhos de mar diários, na maconha vivida com exuberância, no vinho e no sexo sem piedade ou constrangimento. Clara é o anti-síndico, cura e solução para o que chamei de vida em forma de condomínio.  Ela extrai do corpo algo mais do que o cultivo narcísico de uma imagem, pois encontra nele um princípio de fidelidade ao futuro, resistência ao presente e invenção do passado. Por isso, se o filme começa e termina com Hoje, de Taiguara, sua chave secreta é Universo no teu Corpo, do mesmo autor. Falecido em 1996, de câncer, aos cinquenta anos de idade, depois de dois exílios e 68 músicas censuradas pela ditadura entre elas “o meu pedaço de universo é no seu corpo”, que sugiro ao leitor escutar enquanto lê o resto deste texto. Ela começa pelo absolutamente contemporâneo: “Eu desisto, não existe esta manhã que eu perseguia. Um lugar que me dê trégua ou me sorria. E uma gente que não viva só para si.” Ou seja, a constatação de que nossas ilusões de transformação do mundo, de justiça, igualdade e liberdade não são mais do que ilusões. Nada mais atual do que recomeçar a conversa por: “eu desisto”. Reconhecimento de que a aposta em outro mundo precisa de nova formulação. Que o futuro, como universal, pode ser reinventado a partir do pequeno particular que o nega enquanto tal: o corpo.
Momento de inversão e desilusão. Instante no qual o real bate à porta mais uma vez, perguntando se “por uns velhos e vãos motivos, somos cegos e cativos, no deserto sem amor”.  Clara vive um mundo sem ilusões, por isso mesmo sem concessões. Sem entregar-se ao imperativo instrumental que transforma em dinheiro lembranças, sonhos e experiências insubstituíveis dos lugares que ela viveu nos anos 1980, com seus discos de vinil. Portanto, ela não é mais uma destas viúvas da revolução que tem à mão o modelo prét-à-porter de futuro revolucionário. “Estou morto para este triste mundo antigo”. Ela vive além dos anos 2010, com suas crises de identidade, suas ofensas narcísicas e objetivos instrumentais. “Só encontro gente amarga mergulhada no passado, procurando repartir seu mundo errado”. Estes são os jovens neoliberais que só pensam em seu primeiro sucesso, feito de negócios, de estratégias de imagem e de marketing. São também os jovens ressentidos com um futuro brilhante e fácil que não lhes foi entregue na realidade. Os jovens como Diego, que não sabem desistir, portanto não sabem fracassar.
Mas felizmente há outros jovens. Há jovens que ocupam escolas, como Clara ocupa sua própria casa. No filme de Kleber Mendonça e na canção de Taiguara eles dizem “vem comigo”. Não como um apelo grupalizante, mas como endosso de uma atitude de resistência.Sonia Braga formou-se na herança da pornochanchada, do teatro de resistência (trabalhou no Hair) e do cinema marginal (a cena do Opala na praia é uma citação de O Bandido da Luz Vermelha). Consagra-se como heroína da telenovela nos anos 1980 com os personagens de Jorge Amado, e nos anos 90, faz sucesso em Hollywood. Aos 66 anos de idade, com um seio a menos, Sonia é um signo perfeito para representar a transição e a contradição entre um Brasil fechado em seu próprio atraso dos anos 1980, sua súbita e impensada internacionalização nos anos 1990 e o desastre daqueles de esqueceram a revolução sexual. A revolução sexual não era apenas o incremento do direito das mulheres e a luta por equidade, mas uma forma de ligar desejo, história e corpo.
Nos anos 2000, Sonia Braga fica sem trabalho no Brasil, mesmo com suas aparições em Sex and the City (2001), Law and Order (2003) e CSI Miami (2005). Efeitos do envelhecimento do corpo ou porque sua corporeidade tornou-se excessivamente brasileira? Assim como Aquarius não é indicado ao Oscar, pelo Ministério da Cultura, em uma operação obscena para esconder a brasilidade real diante a brasilidade imaginária (aquela da qual nos envergonhamos diante do “estrangeiro”). Por isso também o filme é inicialmente censurado e recomendado para 18 e não 16 anos, como em outros países, porque afinal nossa brasilidade deve responder ao olhar do outro, não ao nosso. O fato de seu elenco ter denunciado o golpe em Cannes é secundário diante da própria mensagem estética do filme. É ela que não deve aparecer, no regime de censura branca no qual nós entramos. 
Indagada sobre sua própria análise, Sonia Braga disse: “Fazia [psicanálise]. Quando percebi que o analista já estava melhor, se vestindo direitinho, sorrindo de novo, dei alta para ele.” Ou seja,  a relação de autoridade tradicional, pela qual supõe-se que o analista é quem dá alta, sendo ele mesmo um paradigma de normalidade, é invertida, corretamente. É isso que se vê no filme. Todos a consideram uma louca, mas é ela mesma que nos guia para algum senso de lucidez.         
Ela nos lembra que fomos criados por uma história que nos antecedeu. Que Temer ou Trump não são acasos fortuitos do passado, mas invenções de um futuro antigo. Um futuro feito apenas de regras e exceções: sem corpos, sem memórias e sem desejos. Futuro para o qual devemos estar prontos a estar mortos de antemão, como Lacan dizia da posição do psicanalista. Contra ele, o filme traz algumas respostas.
É preciso Maria Bethânia para reencontrar a intensidade da palavra capaz de causar amor, de verdade. É preciso coragem para mostrar uma mastectomia radical sem que isso perca seu erotismo. É preciso ternura para mostrar como alguém que sobrevive ao câncer pode formar uma nova atitude diante a vida. É preciso democracia para mostrar um baile de negros e brancos, de ricos e pobres, de velhos e moços. É preciso astúcia para mostrar uma empregada doméstica branca defender sua patroa morena diante de um síndico educado, atencioso e canalha. É preciso delicadeza para mostrar um bombeiro-salva-vidas criar uma exceção à lei e deixar uma velha senhora nadar na zona dos tubarões, ou invadir um domicílio, se for preciso. É preciso solidariedade para mostrar dois funcionários, demitidos profissionalmente, reconhecer o bom trato recebido, pessoalmente, sob condição de desigualdade. É preciso lucidez para mostrar como uma linhagem de mulheres resistentes pode gerar uma filha funcional e adaptada, cujo único sonho é a sobrevivência. É preciso sensibilidade para introduzir em meio às recordações de filhos e netos que nos auto-realizam, o contraste com a memória do filho morto da empregada, atropelado sem consequência, sem justiça e sem relevância.
Brasília Teimosa, o bairro que resiste à incorporação imobiliária em Recife, toca-se dialeticamente com o Edifício Aquarius, onde Clara resiste solitária contra o bacanal, as igrejas, a insegurança, o interesse familiar, os princípios de segurança razoável e ao final … os cupins, que roem por dentro, em silêncio, como o câncer. Os cupins que roem tudo, menos a cara de pau dos empreiteiros. Lembremos que é um filme profético, feito e concebido antes da Lava a Jato.
Esquecermos da revolução sexual não significa que nos tornamos mais caretas, mas que desaprendemos a desobedecer. Pulamos a parte na qual, em vez de querermos limitar os poderosos, estávamos em busca de mais liberdade para aqueles que não são poderosos. A parte universal na qual nossos desejos valiam mais que nossas imagens. 
*Publicado originalmente em Revista Brasileiros - 2016 : http://brasileiros.com.br/
Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano e fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Autor de vários livros, entre eles Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica (AnnaBlume, 2011) vencedor do prêmio Jabuti de melhor livro em Psicologia e Psicanálise em 2012  e o finalista do Jabuti 2016 :          Mal-estar, sofrimento e sintoma: a psicopatologia do Brasil entre muros  (Boitempo, 2015)
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domingo, 4 de dezembro de 2016

A CHEGADA - Arrival

de Ana Paula Gomes

Dennis Villeneuve já havia nos brindado na direção de um dos melhores filmes do século 21 - "Incêndios"- uma espécie de Édipo moderno, que através da herança de duas cartas de uma mãe para seus filhos, permite que eles façam uma travessia ao encontro de suas origens.
Da onde viemos? Para onde vamos? Qual o propósito de estar aqui ? Viver a que será que se destina? Questões essenciais da humanidade, que são retratadas no novo filme de Villeneuve, "A chegada", quando 12 naves alienígenas ocupam lugares aleatórios e inóspitos na Terra, devolvendo para os governantes do planeta, o grande enigma humano, traduzido pelas questões acima.
Para ajudar a resolver tal enigma a linguista Louise Banks é convocada pelo governo americano para tentar traduzir o que dizem os alienígenas, a fim de descobrir o propósito da vinda deles ao planeta Terra.
Louise, interpretada pela fascinante Amy Adams, é uma linguista reconhecida, grande conhecedora das línguas do mundo, e da estrutura da linguagem. No prefácio de um dos seus livros ela escreve: "A língua é a base da civilização, é a cola que une uma nação. Em caso de conflito deve ser a primeira arma a ser sacada".
A partir deste prefácio podemos pensar na bela e lacaniana metáfora que o filme nos proporciona, na travessia que Louise faz para decifrar o enigma alienígena se valendo da língua, seus mistérios e equívocos para tal.
O inconsciente, atemporal, que mistura o passado, o futuro e o presente, embaralha nossa memória, é estruturado como uma linguagem. Essa, a linguagem, servindo à comunicação está fadada ao equívoco. Não há como se comunicar com o semelhante enquanto alteridade, pois o humano sempre conversa com sua própria fantasia, o que bem demonstra o equívoco na leitura que cada nação faz da sua base alienígena e transmite para as outras nações, dificultando o acordo, que é necessário e dificílimo entre elas, para que uma guerra não exploda.
Uma psicanálise é feita através da fala, da linguagem, que permite um acesso à fantasia inconsciente, não-toda traduzível. O acesso a esse impossível de tradução é feito através dessa língua que nos banhou, e também através de alíngua, a integral dos equívocos, fonte dos afetos enigmáticos. É preciso se despir, olhar, escutar e sentir na pele os efeitos desta travessia para aceder a uma pequena margem de liberdade, de escolher e acolher o lugar para onde o desejo nos guia. O desejo, esse alienígena que nos habita.
A Chegada, um filme obrigatório para muitos, especialmente para os lacanianos.

Ana Paula Gomes é psicanalista, membro da Escola Lacaniana de Psicanálise-RJ
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segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Do azul e outras cores


de Marcus do Rio Teixeira

Em “Azul é a cor mais quente” (Abdellatif Kechiche, 2013), Adèle (Adèle Exarchopoulos) é uma adolescente que vive num mundo pequeno, dividindo seu tempo entre as tarefas escolares e a diversão com a galera. 
Apesar dessa limitação, ela possui uma sensibilidade muito aguçada pela literatura e uma intuição de que o mundo é muito maior do que os papinhos das amigas. Essas características não são exatamente úteis para melhorar a sua relação com o seu meio, sobretudo no que diz respeito ao sexo: ela enjoa rapidamente de um rapaz com quem iniciou um casinho – mais por insistência das amigas do que por um interesse autêntico – e que é nitidamente inferior a ela na visão de mundo.


As coisas mudam quando ela conhece Emma, uma mulher mais velha e mais experiente do que ela e muito convicta na sua opção heterossexual (na definição de Lacan, heterossexual é todo sujeito que ama as mulheres). A relação das duas é um ótimo exemplo do que Lacan afirma no Seminário 20, Mais, ainda: que as posições masculina e feminina na sexuação não têm necessariamente uma relação com a anatomia. Adèle se situa como objeto causa do desejo para uma Emma que se ocupa da sua sedução de acordo com o cânone masculino. Como frisa Charles Melman, a dimensão da alteridade se instaura no casal, ainda que este seja constituído por seres de corpos semelhantes: Adèle cuida amorosamente do lar enquanto Emma se inquieta com a sua suposta insatisfação e quer que ela seja feliz (o que ela afirma tranquilamente já ser).


O diretor tem o mérito de retratar uma relação entre duas mulheres de forma não preconceituosa e tampouco militante: enquanto seres da linguagem, Adèle e Emma experimentam as dificuldades corriqueiras do laço conjugal entre um homem e uma mulher, que vão do cômico ao trágico. Quando a pulsional Adèle, que devora tudo “mesmo quando não tem fome”, mostra que o sexo para ela é algo tão natural quanto sair na balada, Emma, que busca constituir uma família, não acha isso nem um pouco engraçado.


Apesar do título, a fotografia explora as cores quentes e a textura da pele dos corpos filmados em close. Apesar de não sentirmos a lentidão do ritmo, algumas cenas são muito mais longas do que o padrão cinematográfico atual. Isso se nota, sobretudo, nas cenas de sexo, mas não somente: quando Adèle conversa, dança ou grita slogans numa passeata estudantil a cena se estende por vários minutos. Poderíamos pensar, a princípio, que esse procedimento tem uma intenção erótica: exibir o corpo da personagem que, como uma ninfeta nabokoviana, parece não se dar conta da sua sensualidade, perambulando no mundo com os lábios sempre entreabertos.


Porém, creio que há mais do que uma intenção erótica nessas cenas alongadas além do habitual. Nessa tentativa de igualar o tempo narrativo e o tempo narrado, o diretor parece deixar transparecer uma posição: a ideia de mostrar as coisas “como elas são”. Creio que essa pretensão naturalista pode ser confirmada na forma como a própria história é narrada, evitando fazer um julgamento. Ora, ocorre que as coisas nunca podem ser mostradas “como elas são”, num filme ou em outra obra de arte. Acerca desse tema já se gastou muita tinta e papel (ou tela de computador). Talvez por isso, ao final do filme, ficamos com uma sensação de estranheza, como se tivéssemos acabado de assistir um documentário, e não uma obra de ficção.

Marcus do Rio Teixeira – Psicanalista, diretor da editora Ágalma. Autor de O espectador ingênuo – Psicanálise, cinema, literatura e música (2012) e Vestígios do gozo (2014), entre outros


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