sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Lykke-Per - UM HOMEM DE SORTE

(com spoiler)
de Isloany Machado
Um amigo* me recomendou o filme Um homem de sorte (disponível na Netflix, dirigido por Bille August) e eu, vasculhando minhas anotações, resolvi que assistiria ontem. Baseado no livro “Lykke-Per”, do autor dinamarquês Henrik Pontoppidan, o filme conta a história de Peter Andreas Sidenius, um jovem de família cristã, que decide romper com a linhagem clerical e seguir seu sonho de ir para Copenhague cursar engenharia. A primeira cena do filme mostra Peter recebendo a notícia de sua aprovação na faculdade. Em seguida, frustrado com a escolha do filho, o pai faz uma oração em família pedindo a deus que mantenha o rapaz perto de seus ensinamentos, uma fala toda baseada na culpa e ameaça da fúria divina. Mas quem está furioso é Peter, que quer se libertar de sua origem religiosa tão pobre e austera. Numa discussão, o pai o amaldiçoa após o rapaz dizer que sempre se sentiu um "exilado e sem-teto" naquela casa: "Exilado seja aquele que desafia o Senhor!”. É uma cena carregada de muito ódio entre pai e filho.
Na partida, o vento da liberdade lhe tocando o rosto durante a viagem de trem (é um filme de época). Na faculdade, uma ideia obstinada: encontrar outras formas de obter energia elétrica (recursos naturais: água e vento) que não dependam do uso do carvão. Uma constante: o ódio a tudo que remete ao pai e ao cristianismo. Peter, que é muito pobre, conhece uma família de ricos judeus, fica de olho na filha mais nova, mas acaba flertando com a mais velha depois que ouve o irmão dela dizer que, por ser primogênita, a herança é maior. Isso nos dá uma visão do quanto Peter, ou Per, como passam a chamá-lo, é um homem ambicioso.
Jakobe, a filha mais velha da família judia, é muito inteligente e está noiva, mas se apaixona pelo jovem gênio e rompe o noivado. Quando ele passa um tempo na Áustria, ela lhe escreve cartas apaixonadas, às quais ele não responde. A moça chega a ir encontrá-lo e passam uns dias juntos, tempos depois ele regressa e oficializam o noivado (Jakobe está grávida, mas não diz nada a ele porque quer lhe fazer uma surpresa). Nesse meio tempo, o pai de Per morre, e a mãe vem morar na mesma cidade que ele (Copenhague) porque quer ficar perto do filho mais velho, irmão de Per que também é clérigo, como o pai.
O futuro sogro tem bons contatos e coloca Per para falar diretamente com um homem do governo, um ministro, que poderia autorizar a execução de seu projeto de energia hidrelétrica e eólica, mas quando este homem, um ex-militar de idade avançada, corrige sua postura: “Endireite as costas!", o ódio flui na expressão facial de Per e tudo está Per-dido. Ambos se insultam, o jovem o chama de velho louco e mais. Um tempo depois, o sogro organiza um consórcio de pessoas ricas que estão a fim de financiar a execução do projeto, mas ainda assim dependeriam da aprovação do tal ministro. Per recusa-se, cara-a-cara com o homem, a pedir perdão a ele por tê-lo insultado, e diz que quem lhe deve pedido de desculpa é o ministro. Mais uma vez: tudo Per-dido.
A mãe de Per morre e seu corpo será transladado de navio para o interior, de onde vieram. O irmão não poderá acompanhar o féretro (ó, falei difícil!) por motivos de trabalhos oficiais e pede a Per que o faça. Ele se recusa, mas, de última hora, decide ir. Reencontrar-se com suas “raízes", o lugar onde sempre morou e que o remetia a toda culpa cristã, à austeridade do pai, etc, logo depois de ter fracassado em seu projeto de vida, faz uma reviravolta na cabeça de Per. Chega a ter uma terrível crise de angústia e questiona o vigário que enterrou sua mãe: "será que é por causa da maldição de meu pai?". Volta para Copenhague, rompe o noivado com Jakobe que, devastada, faz um aborto discretamente em outra cidade. Tempos depois ela decide abrir uma escola para crianças carentes, longe da lógica cristã da culpabilização e do ódio, pois diz ter visto de perto o que a austeridade é capaz de fazer com uma pessoa.
Completamente perturbado e em dívidas com a família dela, volta para o interior, se casa com a filha do vigário e tem com ela três filhos. Anos depois está abençoando o filho mais velho, conferindo se as orelhas estão limpas, mandando que endireite as costas. A esposa lhe pede: “não seja tão duro com ele". Na comemoração de aniversário desse filho, Per se vê como sempre: um exilado. E então foge também dessa mulher e, inclusive de sua posição de pai, para viver sozinho no meio do nada, onde reencontrou-se com suas raízes a partir da própria solidão.
O filme não é uma lição de moral sobre a importância da humildade, como o pai de Per tanto queria fazê-lo engolir goela abaixo. É sobre a quase impossibilidade que temos de romper com aquilo que somos, com a alienação ao Outro. A obstinação e genialidade de Per o levam para longe do pai, mas as raízes do ódio estão tão fincadas nele que o fazem perder qualquer chance de realizar seu sonho. Por ódio ele se move para longe do pai e pelo mesmo ódio, torna-se algo bem parecido com ele. Os caminhos da pulsão nos levam a percorrer sempre as mesmas veredas em busca de um objeto que não existe. E sobre o amor, Per foi amado pelas mulheres, mas não sei se amou alguma delas. Ele, que se movia pelo ódio, talvez não soubesse o que era o amor, talvez não soubesse uma forma diferente de amar que não fosse odiando.
Extra 1: O nome do filme, "Um homem de sorte”, tem a ver com os ricos judeus dizerem que Per era um homem afortunado por sua genialidade.
Extra 2: Já mais velho e adoecido por um câncer, Per faz contato com Jakobe. Ela vai até ele, que a chamou porque quer lhe dar todo o dinheiro que conseguiu juntar na vida para que ela aplique na escola. Ele pergunta: “eu a magoei muito?”, ao que ela responde: “Eu não mudaria nada na minha vida. Foi por ter conhecido você que pude ser quem eu sou". Talvez Jakobe tenha amado sozinha, mas, como disse Lacan, “quem ama nunca está sozinho". Encontros assim são raros, da ordem do milagre, como também diria Lacan, ou, "são mais difíceis do que ganhar na mega sena", como diria minha analista.
(* Fui eu, Henrique, esse amigo...rs.)

Isloany Machado é psicóloga clínica, psicanalista, membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano-Fórum do Campo Lacaniano de MS. Revisora de textos na Oficina do Texto. Especialista em Direitos Humanos pela UFGD e em Avessos Humanos pelo Ágora Instituto Lacaniano. Mestre em Psicologia pela UFMS. Dispensadora da ciência e costuradora de palavras por opção. Autora dos livros “Costurando Palavras: contos e crônicas crônicas” (2012); “Em defesa dos avessos humanos” e do romance “Nau dos amoucos” (2017). É a mãe do Adriano.
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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

QUE HORAS ELA VOLTA?

de Isloany Machado
**Alerta de spoiler**
Quantas pessoas precisaram me dizer para assistir esse filme antes que eu pudesse fazê-lo? Em uma escolha (quase) ao acaso, Que horas ela volta? me fez chorar. 
Em essência, o filme diz sobre o não-lugar, o não-pertencer, conta sobre as diferenças estabelecidas entre as classes sociais. Regina Casé (sim, aquela do Esquenta!) faz a personagem principal, uma empregada doméstica que deixou o nordeste e foi para São Paulo ganhar a vida, trabalhar para sustentar a filha de dez anos que deixou por lá, sob os cuidados de outra pessoa. Mora num quartinho na casa dos patrões, faz trabalhos domésticos e cuida de Fabinho, da mesma idade de sua filha. 
Empregada não come à mesa junto com os patrões, não usa a piscina, mesmo sendo "quase da família", como diz Dona Bárbara, a patroa. A paz de todos é abalada quando Jéssica, a filha da empregada, decide ir para São Paulo para prestar o vestibular de arquitetura na FAU-USP. O que a mãe tem de subserviente, a filha tem de corajosa, dedicada e estudiosa. Além disso, Jéssica não se coloca em momento algum como inferior às pessoas da casa, o que faz com que sua mãe a tome por "sem-noção", abusada. Ela conversa com os patrões de sua mãe em pé de igualdade, fala de arte e arquitetura. Questiona a subserviência da mãe, se exaspera quando descobre que ela nunca entrou na piscina. 
A patroa, Bárbara, passa a não suportar sua presença, e o ápice do mal-estar é representado pelo pedido dela de que a piscina fosse esvaziada após Jéssica ter entrado junto com seu filho, o Fabinho, com a desculpa de que "um rato" havia sido encontrado. É, sim, para os burgueses é melhor uma piscina vazia do que "cheia de ratos". Jéssica vai embora depois que a patroa da mãe proíbe sua livre circulação pela casa. Até que consigam um lugar para morar juntas, Val permanece na casa dos patrões. Jéssica passa na primeira fase do vestibular, Fabinho não. Pela primeira vez, tomada de alegria e orgulho da filha, Val entra na piscina (cuja água está pelo joelho), num ato de insubordinação, e liga para a moça, dizendo de seu orgulho. A cena é tão linda que me fez chorar.
Para além de uma crítica social das diferenças de classes, o que mais me tocou foi o deslocamento das maternidades. Val deixa a filha pequena no nordeste, nas mãos de outra pessoa. Bárbara, a patroa sempre ausente, deixa Fabinho nas mãos de Val e ambos estabelecem de fato uma relação mãe-filho. Val somente consegue se desvincular dele e de seu emprego quando, fracassado no vestibular, Fabinho vai para um intercâmbio na Austrália. Ao mesmo tempo, descobre que Jéssica tem também um filho que deixou no nordeste (haja repetição), Jorge (elas não se falavam há mais de três anos, por isso não sabia). Assim, Val, que só pôde ser mãe de Fabinho, ou seria seu Falinho(?), o substitui por Jorge, o neto. Não são abandonos maternos, mas deslocamentos.
O que me doeu pessoalmente foi a impossibilidade dessa mulher em ser mãe da menina, mas isso é problema meu (haja divã). Que horas ela volta? Talvez não volte porque não possa, talvez porque não queira. O desejo sempre está em outro lugar.
Isloany Machado, 12.02.2019

Isloany Machado é psicóloga clínica, psicanalista, membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano-Fórum do Campo Lacaniano de MS. Revisora de textos na Oficina do Texto. Especialista em Direitos Humanos pela UFGD e em Avessos Humanos pelo Ágora Instituto Lacaniano. Mestre em Psicologia pela UFMS. Dispensadora da ciência e costuradora de palavras por opção. Autora dos livros “Costurando Palavras: contos e crônicas” (2012), “Em defesa dos avessos humanos” e do romance “Nau dos amoucos” (2017). Mãe do Adriano. 
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sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Eu Não Sou um Homem Fácil (Je ne suis pas un Homme Facile)


de  Marisa Costa 

Eu Não Sou um Homem Fácil (Je ne suis pas un Homme Facileé um filme francês, original Netflix, lançado nesse ano que vem conquistando o público. Usa a comédia para distorcer os princípios da cultura patriarcal ao mesmo tempo em que me fez pensar no amor.
Damien, o protagonista é o típico machista, não só por conquistar todas as mulheres, mas por também tratá-las como objetos. Nesse sentido, diz Monseny: “para que um homem goste de uma mulher é preciso gostar antes das mulheres” (2004, p. 96).
Sabemos que a psicanálise muito se interessa pela história dos sujeitos e sobremaneira pelas cenas infantis e sexuais, as quais nos marcam como nos diz Lacan em uma fixão e ficção. Pois tem algo que é da realidade psíquica, da fantasia do sujeito ao mesmo tempo em que nos fixamos e repetimos inconsciente e neuroticamente essas cenas, à nossa revelia. Lacan nos alerta que devemos “recorrer ao não-todo”; em seguida, explica “isto é, aos impasses da lógica, é mostrar a saída fora das ficções de Mundanidade, fazer outra ficção (fixion) do real, isto é, do impossível que o fixa pelas estruturas de linguagem” (LACAN, 1972/2003, p. 480).
         Desse modo, podemos fazer uma leitura da fixão que Damien faz com seu sintoma, em uma estrutura de linguagem. Em uma das primeiras cenas ele aparece em sua análise dizendo do seu sofrimento em escovar repetidamente os dentes, primeiro por três e depois por trinta minutos – eis o seu sintoma. Lia Silveira, psicanalista cearense, nos lembra no facebook que “se brosser”, em francês, é escovar os dentes, mas que também significa abrir mão do que se deseja. Desde o início da psicanálise, Freud relacionou o sintoma à linguagem, como na descrição de sua paciente Elisabeth que paralisou a perna após pensar, no velório de sua irmã, que poderia casar-se com seu cunhado. Em seguida, censurou-se com o seguinte pensamento: não poderia dar um mau passo – daí o início de seu sintoma de perna paralisada. Lacan no excerto abaixo relaciona o sintoma ao significante.

O sintoma, aqui, é o significante de um significado recalcado da consciência do sujeito. Símbolo escrito na areia da carne e no véu de Maia[1], ele participa da linguagem pela ambiguidade semântica que já sublinhamos em sua constituição (LACAN, 1998, p. 282).

            Sabemos que o desejo impossível é uma característica da neurose obsessiva. Mas não estamos aqui para diagnosticar o personagem. Diferentemente, buscarei analisar os ditos de Damien para fazer uma leitura do que é o amor para psicanálise, qual seja, uma repetição. Para Freud os objetos de amor serão escolhidos ao modelo dos objetos infantis. Vamos para a associação que o próprio Damien faz na mesma sessão de sua análise. Ele se recorda da cena infantil em que todas as meninas da escola estavam se maquiando para a apresentação da Branca de Neve, eis a cena inicial do filme. A colega que seria a personagem principal da peça fica doente e sua mãe leva à escola a roupa que ela usaria na apresentação. A professora pergunta quem da turma poderia substitui-la. Inesperadamente Damien se prontifica a se vestir de branca de neve, para poder atrair o olhar da menina que gostava – Aurora.
 [...] o amor, não um vago sentimento, mas o verdadeiro amor, é um forçamento do Ich. O amor-paixão, não só é inesperado, sensível ao encontro e ao azar, mas também perturba as homeostases. Se existe alguma coisa que causa curto-circuito no equilíbrio dos significados de um sujeito é sua escolha amorosa, que pode se impor em contradição, em objeção com suas opções na vida (SOLER, 1995, p. 90).

Já adulto, em meio as suas inúmeras conquistas, uma ocupa o lugar de seu desejo – Alexandra. Justamente a moça máscula que seu amigo lhe diz para desistir dela. É a única que não dá bola pra ele. Freud, em Um tipo de escolha especial feita pelos homens destaca que a primeira amada impossível é a mãe, a qual precisamos desistir desse amor. A esse respeito Colette Soler afirma: “ora, o parceiro do amor, ‘uma mulher’ é, uma parceira, eleita, distinta dentre todas. Não que seja a única nem que seja para sempre, contudo, a eleita não é trocada todos os dias – algumas vezes é até conservada por toda a vida” (SOLER, 1995, p. 78). 
Alguns críticos colocam o nome do filme como sendo um pouco besta. Não sei o porquê da escolha desse nome ao filme. Pensei que pode ser para marcar a persistência de Damien quando deseja uma mulher, como uma marca em sua forma de amar infantil.
No mesmo dia em que conhece Alexandra, Damien bate literalmente a cabeça em um poste. E acorda em um mundo invertido. Neles, homens e mulheres tem seu papel trocado. Os homens são os sentimentais, as mulheres são fortes e potentes. Os homens se depilam, as mulheres usam ternos, o que evoca nossa riso. Alexandra, por sua vez, sua amada, o faz provar de seu próprio veneno enquanto objetifica os homens. Por ela, Damien passa a vestir-se como mulher com pernas de fora, depilando-se. Assim como outrora vestiu-se de branca de neve para ser olhado. Impossível não se lembrar do último hit de Chico Buarque, “Blues pra Bia” – “Até posso virar menina pra ela me namorar”. O amor é um semblante. Passamos pelo tortuoso caminho de “como chegam os homens a interessar-se pelo Outro sexo”, não de forma direta, mas sim, através de um semblante. (MONSENY, 2004). A esse respeito Lacan adverte:
O problema do amor é o da profunda divisão que se introduz no interior das atividades do sujeito. A questão de que se trata, para o homem, segundo a própria definição do amor – dar o que não se tem –, é dar aquilo que ele não tem, o falo, a um ser que não o é (LACAN, 1957-1958/1999, p. 364, grifos no original).

Quando damos o que não temos, fazemos um semblante de quem tem. Por outro lado, Lacan faz a partilha dos sexos em relação à suas posições de gozo, posições sexuadas do ser falante, todo fálico do lado masculino e não todo fálico do lado feminino. Assim, em psicanálise não se trata de anatomia (macho ou fêmea), nem à genética (XY e XX) nem aos semblantes sociais (Quinet, 2012). É comum inclusive encontrarmos casais em que a mulher ocupa a posição de toda fálica e o homem de não todo fálico. Com relação ao filme, podemos dizer que ambos ocupavam a posição de todo fálicos, de quem tem o falo?
Lacan, por sua vez, afirma que não haveria nada no psiquismo “pelo que o sujeito se pudesse situar com ser de macho ou ser de fêmea” (1964/1988, p. 194). Se por um lado não há quem diga para uma mulher como é ser mulher, por outro lado, segundo Lacan, o homem é ajudado pelo pai à mostrar os documentos que tem guardados no bolso. Nesse sentido o filme fica nos devendo. Nada mostra sobre seus pais antes da inversão de papeis.
Pela psicanálise, estar na posição feminina ou masculina é uma coisa, ter um homem ou mulher como objeto sexual é outra”. Por isso, Damien pode ocupar uma posição masculina e desejar uma mulher da mesma posição que ele.
Lacan, em Instância da Letra, ao inverter o algoritmo saussuriano, faz uso de duas portas com letreiro: homem e mulher. Deste modo o autor discorre sobre a soberania do significante em detrimento do significado. Em última instância, homem e mulher são apenas significantes que nos servem para clarear em que porta de banheiro devemos entrar, e o filme parece brincar com isso, porque afinal de contas, um significante pode significar qualquer coisa, inclusive que homem significa ser mulher (como conhecemos em nossa cultura) e que mulher significa ser homem.
De forma invertida o filme nos mostra o protagonista suplicando pelo amor de sua amada, que não quer saber dele. Digo de forma invertida porque na maioria dos casos são as mulheres que são objetificadas por um homem que não quer saber delas. Para marcar os desencontros do amor, para contrariar a perspectiva platônica presente no Banquete das duas metades que passam uma vida em busca uma da outra, para evidenciar que no amor não se trata do encaixe da tampa que procura por sua panela, Lacan utiliza da impactante frase:
 [...] não há relação sexual. É claro, assim parece um pouco maluco, um pouco disparatado. Bastaria dar uma boa trepada para me demonstrar o contrário. Infelizmente, é a única coisa que não demonstra absolutamente nada de semelhante, porque a noção de relação não coincide absolutamente com o uso metafórico que se faz, simplesmente, dessa palavra “relação”; “eles não tiveram relações”, não é exatamente isso (LACAN, 1971-1972/2000, p.21).
Ainda nesse sentido o autor complementa que se há algo possível na relação dos sujeitos é justamente o amor, que surgiria como suplência da falta primordial e estruturante desses, ou, dito nas palavras de Lacan: “o que vem em suplência à relação sexual [inexistente], é precisamente o amor” (LACAN, 1972-1973/2008, p. 51).
         O desencontro amoroso aparece por toda parte no filme. Mesmo quando achamos que os personagens ficarão juntos, quando Damien pede Alexandra em casamento e surpreendentemente ela aceita, ele descobre que ela já é casada e assim parece sempre existir um muro entre os dois. Um exemplo de limite inerente ao sujeito e presente inclusive no amor em Lacan, pode ser ilustrado nos versos a seguir:
Entre o homem e o amor,
Existe a mulher.
Entre o homem e a mulher,
Existe um mundo.
Entre o homem e o mundo,
Existe um muro.[2]
(ANTOINE TUDAL, in LACAN, 1953/1998, p. 290).
Lacan utiliza dos versos de Antoine Tudal para resgatar o muro, o furo do amor. O autor ainda acrescenta um sétimo verso para tornar o poema circular, a saber, entre o homem e o muro existe uma letra de (a) muro[3], que em francês é homofônico à letra de amor. Ele continua para nos dizer que entre o homem e esse suposto mundo a conhecer, há um muro, o que Freud conceituou como a castração e na abordagem, sobretudo da diferença entre os sexos (FREUD, 1931/1996), para nos apontar que há uma barra, isto é, uma impossibilidade frente ao conhecimento absoluto a qual é inerente ao sujeito. Brunetto, nesse sentido, defende que “quando se diz haver um mundo entre o homem e o amor é para marcar que vocês nunca chegarão lá. […] O muro é o lugar da castração e Lacan concluiu que com relação ao homem e a mulher a castração está por todo canto” (BRUNETTO, 2013, p. 37).
O filme termina, sem nos deixar saber se eles conseguem ou não ficar juntos, e chegar lá, no bom encontro amoroso. Até porque felicidade parece ser antinôma de amor, como bem nos lembrou a peça de Nelson Rodrigues “Myrna sou eu”, em que Myrna – pseudônimo de Nelson – responde, em um programa de rádio, cartas enviadas pelas ouvintes, era um consultório sentimental. Em uma delas a ouvinte queixa-se de estar muito triste pois ama muito um homem que não quer saber dela. Ao que ele responde: "Não lhe basta amar? Você quer, ainda por cima, ser feliz?"



[1] “Essa expressão é utilizada por Schopenhauer (a partir do deus hindu Maia que representa a ilusão) para explicar o mundo fenomênico das aparências e das percepções que, para ele, seguindo uma tradição filosófica iniciada por Platão, se situa em oposição ao mundo escondido que seria o verdadeiro, o mundo em si. O sintoma escrito no véu de Maia está na cara, mas a sua verdade é escamoteada na medida em que sua constituição utiliza-se da propriedade da equivocidade do significante” (QUINET, 2003, p. 123). 
[2]Entre l’homme et l’amour, / Il y a la femme. / Entre l’homme et la femme, / Il y a un monde. / Entre l’homme et le monde, / Il y a un mur.
[3] Lettre, em Francês, é tanto letra quanto carta. E a letra “a” também significa o verbo ter na terceira do singular, o que torna a frase extremamente polissêmica. E novamente Lacan está jogando com amor e muro.

Marisa Costa é Psicanalista, membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano - Brasil e do Ágora Instituto Lacaniano - MS.  Mestre em Psicologia pela UFMS.

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sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Clube dos Pervertidos - Uma Vergonha Sacana


de Oscar Cesarotto

Nos últimos anos do seu seminário, Jacques Lacan comentou, com sorna, aquilo que nunca teria acontecido: a psicanálise inventar alguma perversão inédita ou, talvez, outro pecado original. Encore, na televisão, ainda esperava, suspirando com Rimbaud, que um novo amor desse um jeito na ausência da relação sexual...


O diretor norte-americano John Waters não precisou ser lacaniano para filmar, em 2004, A dirty shame, O clube dos pervertidos, no Brasil, direto para as locadoras. Mas teria sido bem freudiano ao mostrar um insólito cardápio de psichopatias sexualis, na atualização, para o século XXI, do primeiro dos Três ensaios. Em português, o título é superegóico; em inglês, politicamente correto. No deboche dos melindres contemporâneos, isto é, da correção política, as “perversões” capitalistas, adultas & consensuais, colocam em xeque tanto os limites da moral, quanto da democracia. O tempora, o mores? Sic transit gloria mundi!

Desde sempre, John Waters foi infame; famoso, só depois. Autor de uma filmografia indecente, antes underground, foi se tornando conhecido do grande público após o sucesso de Hairspray (1988), Cry Baby (1990), Mamãe é de morte (Serial Mom – 1994), Cecil Bem Demente (Cecil B. Demented – 2000), graças à colaboração de atores & atrizes de boa reputação, junto com outros seres ímpares & bizarros, um panteão permeado de anormais & extraviados, a serviço do seu talento criativo, provocador & transgressor. No filme mencionado, esforçou-se para imaginar um novo ato sexual, um exercício de amor físico novinho em folha. Vejamos:

Sylvia, sexualmente insatisfeita & sempre mal-humorada, a pesar de Vaugh, seu marido insinuante & disponível; sua filha Caprice, portadora de enormes seios, louvados pelo seu fã clube; Big Ethel, sua mãe, indignada com a vizinhança liberal demais & beata perante tantas imoralidades. O bairro, que já foi pacato, agora abriga moradores devassos; como de praxe, situado na cidade de Baltimore, cenário autobiográfico do diretor.

A dona de casa vive atribulada, cuidando de sua loja & vigiando a filha, em prisão domiciliar por conduta indecorosa. A vida de Sylvia vira de pernas para o ar quando ela sofre uma pancada na cabeça num acidente. É socorrida pelo motorista de guincho Ray-Ray, na verdade, um competente guru sexual, que a introduz num grupo de perversos polimorfos muito contentes de satisfazer suas pulsões & desejos mais íntimos, sem pudores. O tesão que então experimenta a faz sentir viva & ousada, assediando desde o marido até qualquer um, na demanda de ser satisfeita do modo preferencial, buco-genital. De repente, o erotismo que parece tomar conta de toda a comunidade produz, dialeticamente, uma reação proporcional. Liderados por Big Ethel, mãe, avô & matriarca, uma porção de vizinhos se declaram “assexuados”, melhor dizendo, “neutros” (neuters), sem gênero nem vontade, planejando uma campanha para denunciar a sordidez & promover a castidade. A partir daqui, sucederão idas & vindas, vitórias & derrotas das forças repressoras & dos cidadãos libidinalmente libertos.

Entretanto, o que está em jogo vai além da simples insurreição pulsional: para uma verdadeira revolução dos tabus, precisará ser desenvolvida uma façanha sexual, transcendente & radical. Ray-Ray confia na capacidade de Sylvia ser o paradigma encarnado, após a concussão que a despertou para o gozo. Eureka! Um croc bem dado na cabeça corresponderia à função do orgasmo preconizada por Wilhelm Reich, ademais de localizar o ponto G no cocuruto! A boa nova: testa com testa, batendo de frente, ambos participantes atingem o acme do prazer, o paraíso percutido, knock out.

Também, merecem destaque as aberrações sexuais pós-freudianas & pós-lacanianas preliminares ao clímax, da suruba & do filme:

1. Misofilia: Atração lúbrica por sujeira.
2. Adulto neném: Regressão lúdica à organização pré-genital. 3. Sanduba humano: Uma mulher, prensada entre dois homens famintos. 4. Família Ursa: Coletivo de homossexuados obesos & peludos. 5. Sploosh: Fetiche inglês. Desejo de despejar comida em seus locais íntimos. 6. Anorexia sexual: Desinteresse pela manducação erétil. 7. Neutralidade carnal: Anulação dos impulsos da sexualidade, com ajuda do Prozac.

No final apoteótico, Ray-Ray, mestre & messias, eleva-se ao céu. Seu corpo inteiro, transformado em falo, supera a lei da gravidade, com sua cabeça ejaculando ecumenicamente sobre os personagens, a câmera & os espectadores deste lado da tela. THE END. Happy wet end. Por fim, o novo ato sexual foi realizado por alguém especial, Aquele aquém & além da castração; pelo menos Um, cuja performance vale para todos, como transferência & ideal. Alguma vez jorrou sangue do Ungido; nos dias de hoje, pinga sêmen lá de cima...

Missão (impossível) cumprida? Em termos cinematográficos & contra-ideológicos, okey, vale a pena assistir & dar muita risada. Na procura do Bem Supremo, o goal & o graal, ainda falta muito a desejar. O Kama Sutra proposto, téte-a-téte, não passa de uma formação de compromisso, sintetizando escândalo & recalque. Não há relação sexual: Parece ter sido lido ao pé da letra, pois no filme tem de tudo, menos penetração. De fato, o que o matema psicanalítico afirma é a não proporção entre os sexos, diferentes no real da anatomia & distintos na sexuação. Mas, para Waters, todo mundo é simétrico, apenas parceiros hermafroditas que gozam autoeroticamente de forma chocante. A pancada erógena não deixa de ser um traumatismo craniano, que parece afetar mais ao cérebro que aos genitais. Por isso mesmo, pode ser praticada sem tirar a roupa. Em definitivo, uma perversão puritana, sublime & pasteurizada. Uma vergonha limpa, ironicamente correta.

Artigo postado, com autorização da autor, após publicação original na Revista Flutuante : https://revistas.pucsp.br/index.php/leituraflutuante/article/view/37656

Oscar Angel Cesarotto possui graduação em Psicologia - Facultad de Filosofia & Letras de La Universidad de Buenos Aires (1977), e doutorado em Comunicação & Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1998). Atualmente, exerce a prática clínica, é professor da PUC-SP no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação & Semiótica, e coordenador do curso de especialização Semiótica Psicanalítica - Clínica da cultura (COGEAE).
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domingo, 1 de julho de 2018

WestWorld - Alguma vez você já se questionou sobre a natureza da sua realidade? Você sente inconsistência no seu mundo? Ou repetições?

de Viviana S. Venosa


"Astronarta" libertado
Minha vida me "urtrapassa"
Em "quarqué" rota que eu faça
Dei um grito no escuro
"Sô parcero" do futuro
Na reluzente "galáchia"
(“Dois Mil e Um”,  de Os Mutantes)

    Estas três questões que intitulam esse texto são feitas aos androides de WestWorld, uma série de ficção-científica cuja primeira temporada foi exibida em 2016 pela HBO. O gênero de ficção científica, tanto no cinema quanto na literatura, é bastante amplo que se pode considerar como partes deste grande conjunto tanto Frankenstein de Mary W. Shelley, quanto a franquia Star Warsde George Lucas ou a série “Guia do Mochileiro das Galáxias” de Douglas Adams, ou mesmo o clássico Blade Runner de Ridley Scott que, por sua vez, foi baseado no livro Androides Sonham com Carneiros Elétricos? de Philip K. Dick. A lista é tão grande que, se eu me pusesse a tarefa quase infinita de completá-la agora, certamente não terminaria esse texto.

    Para circunscrever o escopo, parto novamente das três perguntas: Alguma vez você já se questionou sobre a natureza da sua realidade? Você sente inconsistências no seu mundo? Ou repetições? – se você respondeu “sim” a alguma delas, ora ora, você é um possível analisante! E o que isso quer dizer? De saída, que é uma possibilidade, mas não uma imposição ou uma necessidade. Ainda que, muitas vezes, talvez quase todas as vezes, as pessoas procurem analistas por atribuir que têm questões de necessidade. Isto é, quando algo não funciona bem, seja um estranhamento com a realidade, uma inconsistência ou repetições.

    E o que isso tem a ver com ficção científica? Muita coisa, além das perguntas já supracitadas, claro. Phillip K. Dick, cujos livros inspiraram alguns filmes de ficção científica, foi um autor que persistiu na pergunta sobre o que é a realidade, praticamente em toda a sua obra. Pergunta essa a qual também remonta boa parte da tradição filosófica ocidental. No entanto, pessoas com estas questões procuram a análise para tratar delas. Portanto, não é meramente um tema da metafísica, mas também teórico-clínico da psicanálise.

    Na série WestWorld, ao avesso da psicanálise, essas perguntas não eram feitas para despertar, mas para manter “sonhando” os androides. Mantê-los na crença consistente de seus cotidianos vividos em loopings repetitivos. Na série, a realidade dos androides está na “inconsciência” sobre suas repetições. Em psicanálise, podemos dizer que a inconsistência não é oposto da repetição. A repetição de uma inibição, um sintoma, uma angústia é aquilo mesmo que pode fazer alguém indagar sobre sua “realidade”.

    Ora, é no caráter absurdo dos sonhos que Freud vai apoiar o método psicanalítico, no sentido de que – apesar de parecer absurdo à vida de vigília – o sonho tem uma lógica própria, um modo de funcionamento que a nossa razão desperta interpreta como “sem razão” ou sem sentido. E é com Lacan e a leitura particular que faz de Freud que podemos sintetizar mais ou menos e muito caricaturalmente o seguinte: a lógica que nos dá consistência de ser é construída sob o princípio da não-contradição. Ou seja, na medida que alguém diz “eu sou”, uma consistência se definiria. Sendo assim, o sem sentido do caráter absurdo do sonho pode ser dito como um sentido Outro, que não implica necessariamente em significar. Dito de outro modo, é uma divisão, um corte que faz cair as significações, que o modo de funcionamento dentro da lógica da não-contradição sustenta como consistentes.

    Mas, se “sou lá onde não penso, e penso lá onde não sou” (Lacan), em “dois dias essa realidade se desmonta” – parafraseando o texto de Philip K.Dick de 1978 – isto é, se sou onde não faz sentido e o sentido está onde não sou, a afirmativa verdadeira e consistente de meu ser está em... Outro lugar. No lugar de onde isso fala por meio de sonhos, atos-falhos, chistes e outros absurdos sem sentido, como as inibições, os sintomas e as angústias. Os sintomas, especialmente, também marcam o nascimento da psicanálise, pois é com seu caráter absurdo à medicina que Freud propôs escutá-los – como fez com os sonhos. Se temos uma cárie, vamos ao dentista, mas se falamos de dor de dente na análise, outro campo se abre. Um campo no qual o tratamento é a escuta desta outra lógica, também chamada de lógica do significante.

    Mais uma vez, uma ponte com a ficção científica pode ser traçada. Os androides de WestWorld têm suas consistências vitais criadas por histórias, é preciso conferir-lhes algo próximo a lembranças para que permaneçam incautos, ingênuos.

    Entrar em análise pode se considerar uma grande aventura. Implica perder a verdade que garante a existência e desarticular esta verdade do saber. Implica escutar sua carta escrita para alguém, lida por aquele que ocupa o lugar de analista como inversão e subversão da sua frágil e ficcional história. Em Blade Runner, a vertigem desta aventura está na versão em que não sabemos se Deckard é – ele mesmo – também um replicante. Qual seria a sua verdade? E esta versão do filme deixa, oportunamente, essa pergunta sem resposta.

    Nos fóruns de discussão sobre WestWorld  muitos internautas também se perguntavam, jocosamente, se eram eles mesmos androides, se estavam a repetir um loop. Será que estes internautas poderiam supor que, quando cometem um ato-falho, é Outro que fala? E o que temos a ver com este Outro que fala em nós? Implicamos com o Outro, ou estamos implicados neste Outro que nos atravessa, fundando um sujeito em esquize?

    Os loops dos androides de WestWorld consistidos por estas realidades criadas podem habitar qualquer um deles. Quando uma máquina quebra, basta substituir-lhe os softwares e toda a historieta algoritmicamente inventada. Assim, os androides podem escolher com base nos algoritmos que os programam, mas não podem decidir fora deles. A diferença que proponho entre escolher e decidir é tal que em escolher se calcula como se perde “menos”, e na decisão um encontro ocorre. Encontro de imprevisibilidade com a marca que nos define únicos, insubstituíveis. Mas insubstituíveis naquilo que nos marca como sujeitos, a divisão mesma que inaugura a série repetitiva que nos faz indagar e mobiliza para o início de uma análise. A origem daquilo que já estava lá, e paradoxalmente aparece como um novo, um supetão no vazio, o tropeço do sempre aí.

    Com isso, quero propor que as lembranças não são memórias. As lembranças são as repetições algorítmicas às quais estão sujeitos os androides e... nós? São o conhecimento adquirido que nos faz ter bom senso sobre certas coisas. A memória, esta da que tratamos em psicanálise é referida a esta marca inaugural, traço primeiro e único que faz diferença. E em fazendo, perfaz outro tipo de repetição do súbito vazio.

    Como eu disse, há os sintomas – uma análise não deveria funcionar para conversar sobre problemas filosóficos – há dor implicada, há angústias em jogo. Isto quer dizer que há efeitos. Os tais significantes são uma lógica sincrônica da linguagem, que faz furo na lógica da não-contradição. Mas quando falamos, eles estão lá a dizer outra coisa,  contra-dizendo.

    Então, como pode que, pela operação do significante [pela operação de uma análise], existam pessoas que se curam? Pois é exatamente disso que se trata. É fato que existem pessoas que se curam. Freud bem sublinhou que não era preciso que o analista estivesse possuído pelo desejo de curar; mas é fato que há pessoas que se curam. (LACAN, 1978)

    Quando falamos, sideramos. Uma análise tem a visada de desideração, e isso tem a ver com o desejo. É nesta sideração do que se diz em análise que a causa do desejo se revela. Não como um objeto de conhecimento. Mas como um saber sobre esse furo que fundamenta o sujeito. Uma análise é para qualquer um, mas apenas a sustenta algum que se disponha ao desejo de se colocar em posição de analisante.

Bibliografia:
Dick, Philip K. (1978) Como Construir um Universo que não Desmorone Dois Dias Depois. Disponível em: http://capacitorfantastico.blogspot.com.br/2010/04/como-construir-um-universo-que-nao.html, acessado em 08.04.2018.
FINGERMANN, D. Repetição e experiência analítica. In: FINGERMANN, D. (org.) Paradoxos da repetição. São Paulo: Annablume, 2014.
FREUD, S. (1900) A interpretação dos sonhos. In: FREUD, S. Edição standard das obra completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996, vol. IV.
LACAN, J. (1978) A transmissão - Encerramento do 9º Congresso da Escola Freudiana de Paris. Disponível em: http://www.appoa.com.br/correio/edicao/246/a_transmissao_encerramento_do_9_congresso_da_escola_freudiana_de_paris/222, acessado em 08.04.2018.
LACAN, J. (1960) Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano. In: LACAN, J. (1966) Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 843-864.

Artigo postado, com autorização da autora, após sua publicação original no blog da editora Aller :
https://www.allereditora.com.br/single-post/2018/04/09/Alguma-vez-voc%C3%AA-j%C3%A1-se-questionou-sobre-a-natureza-da-sua-realidade-Voc%C3%AA-sente-inconsist%C3%AAncia-no-seu-mundo-Ou-repeti%C3%A7%C3%B5es

Viviana S. Venosa é psicanalista, mestre pela USP e tem a ficção científica como seu gênero cinematográfico preferido.


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