sexta-feira, 27 de abril de 2012

As Horas



por Henrique Senhorini


As Horas - premiado filme do diretor Stephen Daldry (que já havia dirigido o bom filme Billy Elliot e mais tarde O Leitor), baseado no livro de Cunningham que se inspirou no famoso Mrs. Dalloway de Virginia Woolf.


Num primeiro momento, pensei muito em tratá-lo como via preferencial para discutir sobre a mulher e o feminino. Em seguida, sobre a depressão e a melancolia. Depois sobre o tema Morte (tão difícil de aceitar, porém é "a finalidade de toda vida"). Por fim - após alguns anos deixando-o descansar - escolhi um outro víeis para ler o filme.

Eu mesmo compro as flores.”
Essa frase aparece no filme (como significante mestre?) iniciando as três histórias de mulheres que possui o livro Mrs. Dalloway (outro significante?) como baliza, condutor e entrelaça-dor das histórias apresentadas, cada uma delas, em lugares e épocas distintos seguindo uma linha temporal:
a) Anos 20 – Virginia Woolf – Inglaterra
b) 1951 – Laura Brown – Las Vegas (USA)
c) 2001 – Clarissa Vaughan – NY (USA)

Além dessa frase, que também inaugura o livro, percebemos que outras questões também significativas – algumas já citadas acima - perpassam as histórias, como a tristeza, a melancolia, a depressão, o suicídio. Mais a questão do feminino, sexual e a homoafetiva. Para não perder o bonde, na psicanálise há diferenças entre homossexualidade e homoafetividade?

Porém, o que me chamou mais a atenção foi a problemática da escolha.
E não se trata de uma escolha qualquer, mas, no mínimo, das mais importantes: como viver? como morrer? mais ainda, viver ou morrer?
Escolher é quase sempre muito difícil e complicado, pois ela - a escolha - já traz consigo uma perda, uma renuncia. Por isso, há uma grande evitação em escolher, em tomar decisão por uma alternativa entre tantas outras que podem ser apresentar, pois suportar a renuncia - seja ela qual for - não é um tarefa das mais fáceis. Tanto é assim, que muitos ficam com a escolha de não escolher – a preferida pelos neuróticos histéricos e obsessivos. Esses últimos então, sofrem...

Bem, vejamos algumas cenas.... Primeiro no caso de Virginia Woolf:
tem a cena do passarinho morto: “parece tão tranquilo”; “vivo uma vida que não desejo viver. Minha vida foi tirada de mim”; “não se pode ter paz evitando a vida”; “Até loucos gostam de ser convidados para festa”. E …“não posso mais ficar atrapalhando tua vida”.
Woolf, diante das alternativas em ceder ou em não ceder de seu desejo, faz sua escolha: a morte.
Na segunda história, a dona de casa Laura demonstra todo seu desconforto em ocupar a posição social (como era esperado na época) de boa esposa, dona de casa e mãe com sua mudez...e mais a questão da homossexualidade transbordando. E por não conseguir outras alternativas para suportar a insuportabilidade que se apresenta na sua condição de mulher ideal, faz sua escolha: a morte.

Já na terceira história, a da editora Clarissa, percebemos todo um amor, carinho, afeto, cuidado que ela tem para com Richard. Este – muito doente e com a vida super limitada por conta da aids - fica entre merecer ou não o reconhecimento. Mas, não era pelo Outro fundamental. Decide pela morte. (Poderíamos entrar aqui numa outra discussão sobre Richard: Houve falhas significativas de investimento libidinal em seu narcisismo primário ou no secundário? Mas, vamos deixar para um outro momento.)

Cabe algum tipo de julgamento, seja de ordem moral, religioso, social e cultural sobre essas escolhas?
Escolheram erroneamente?
Tinham liberdade de escolha?
Como analistas podemos apontar uma escolha ao paciente?
(é bom lembrar que ao analista cabe apenas esclarecer pontos, questionar essa escolha, até dar sustentação para que essa possa ser refeita. Porque o analista aposta que a posição subjetiva do sujeito pode ser modificada, refeita, desconstruída e reconstruída, re-inventada... Porém, cabe ao sujeito escolher por si mesmo.)

Em “Mal-estar da civilização”, Freud afirma a necessidade de cada um salvar-se a sua maneira frente à dureza da vida, que me fez pensar - mais uma vez – sobre a questão da escolha:

O que leva um sujeito a fazer uma escolha, especificamente escolher a morte?

Aqui podemos até evocar a noção do livre-arbítrio, mas será válida?
Interessante que essa questão sobre o livre-arbítrio suscitou outras tantas:
  • Somos realmente livres para escolher?
  • Ou estamos escolhendo através do modo que fomos constituídos, juntamente com nossa historicidade, com nossa herança genética,  ancestral, com nosso ambiente e mais o acidental?

    Isso sem contar as nossas fantasias, a nossa realidade psíquica que é mais decisiva para nós que a realidade objetiva, concreta, factual.
    De acordo com Freud, “A livre escolha... não é propriamente uma  escolha livre...”
(Freud nos ensina que o tipo da resposta de nossas escolhas depende da especificidade de cada sujeito e da singularidade da interação entre constituição psíquica e circunstâncias do ambiente e da história de cada um.)

Bem, eu disse que na segunda história, a dona de casa Laura escolheu a morte e morreu. Vocês podem argumentar – com propriedade – que ela não morreu. Mas insisto... ela morreu para seu filho e para aquele tipo de vida que levava. Trata-se de uma morte simbólica?
Porém, a morte foi bem concreta para a primeira história tanto quanto para última história.

E, mais uma vez, fui socorrido. Desta vez, remetido para o texto freudiano de 1913, O tema dos três escrínios, encontrei bases para pensar que a escolha no suicídio se colocou “no lugar da necessidade, do destino”.

Retornando ao filme, Virginia Woolf deixa claro toda a sua insatisfação com a vida limitada e aprisionada que levava em várias passagens, mas tem uma em especial, na qual ela diz: “Vivo uma vida que não desejo viver. Minha vida foi tirada!”
Estaria Virginia fazendo um trabalho de reconhecimento e elaboração da castração, da sua condição faltante? Não é justamente através do modo como se enfrenta a castração que fazemos nossas escolhas?
E ela se mata !!!

Desta maneira, o homem supera a morte, que reconheceu intelectualmente. Não é concebível maior triunfo da realização de desejos.” diz Freud em “O tema dos três escrínios” no qual mostra a escolha mais singular, mais única do sujeito: o desejo.
E diz mais: “Faz-se uma escolha onde, na realidade, há obediência a uma compulsão...”.
Percebam que Freud utiliza o termo obediência e não determinismo.

Mas, vamos voltar ao filme, na história do Richard. Cenas densas com sua Clarissa Mrs. Dalloway. Sua paixão, sua amada, sua mãe? Não era assim que ela se apresentava? Amorosa, cuidadosa e cuidadora?
E Richard, perante a encruzilhada que se formou – além de todas as suas limitações na vida prática - em aceitar ou não – através de um prêmio – o reconhecimento da sociedade, revive intensamente a dor do abandono, do desamparo e da falta. E podemos pensar, como hipótese: Um prêmio pode reconhecer o que não foi reconhecido pelo Outro fundamental? Dá para fazer suplência? Richard responde com seu ato sua escolha: a morte!

Nesse ponto, podemos nos aproveitar, para o caso do Richard, de uma interpretação - nas palavras de Freud, de uma forma alegórica superficial – no texto de 1913, ao Rei Lear (de Shakespeare) na qual ele apresenta as três relações inevitáveis que um homem tem com uma mulher: “a mulher que o dá à luz, a mulher que é a sua companheira e a mulher que o destrói; ou que elas são as três formas assumidas pela figura da mãe no decorrer da vida de um homem - a própria mãe, a amada que é escolhida segundo o modelo daquela e por fim a Terra Mãe, que mais uma vez o recebe.”
(o modelo também pode ser substituído por seu oposto)

Então, Richard saltou para ir ao encontro da mãe? Ao reconhecimento materno que não lhe foi dado? Foi atrás de as Horas? As Horas seria um significante mestre?
Bem, M.Cunningham foi leitor de Virginia Woolf que por sua vez foi leitora de Freud e este leitor de Shakespeare. Nós somos leitores de Shakespeare, de Virginia Woolf, de Cunningham, de Freud e de seus leitores... E sabemos: isto produz efeitos...Efeitos de transmissão..
Penso que é aí que as histórias fundem-se de vez, tornando-se uma só história.

Também, segundo uma leitura de Karin de Paula, outra coisa interessante é notar a linha de articulação entre os personagens do filme, de diferentes universos e tempos, nos é encaminhada a partir de alguns elementos que são grampos que prendem as estórias; que parecem produzir as estórias... a estória como efeito desses grampos, de alguns significantes. Por ex.: “ Acho que eu mesma vou comprar as flores” é o primeiro deles... Esses grampos são significantes por que estão implicados não pelo que representam, mas pelas novas representações que produzem. São elementos que geram novas ligações...novas experiências... Ao longo do filme podemos ter esta impressão que a história é outra e ao mesmo tempo, uma leve impressão de que algo se repete... Algo que os faz e nos faz confiante e aterrorizados ao mesmo tempo...

As Horas na mitologia
No texto “O tema do três escrínios”, Freud – por conta de uma interpretação – é levado para a mitologia grega, na qual deusas-irmãs estavam relacionadas entre si. As Horas eram originalmente deusas das águas do céu. Responsáveis pela chuva e o orvalho e pelas nuvens, das quais a chuva cai. Como as nuvens eram vistas como algo que fora tecido, essas deusas passaram a ser conhecidas como fiandeiras, atributo que depois passou a ser dado às Moiras. Com o tempo, o simbolismo das Moiras foi se modificando e passaram a representar a força misteriosa do destino. A primeira representa o acidental, que está incluído na regularidade do destino, corresponde à experiência. A segunda é a disposição inata. Já a terceira e última representa, por sua vez, o ‘inelutável’, aquele que não se pode lutar, ou seja, a Morte.
A divindade existe para lembrar ao homem da sua condição mortal. Além disso, Freud lembra que as grandes deusas-mães dos povos orientais parecem ter sido tanto deusas da vida e da fertilidade, quanto deusas da morte.

sábado, 14 de abril de 2012

La Luna

de Bernardo Bertolucci
por Karin de Paula

O incesto como insígnia do campo de discussão a
ser feito e não como tema; o filme como um sonho,
o sonho como uma psicose noturna e não como uma tentativa de reproduzir a realidade... 
Vários índices para isso, desde a declaração do próprio Bertolucci :

Um dos primeiros impulsos para realizar este filme, ele explicou numa entrevista feita entre a pré-estréia no festival de Veneza, em setembro, e o lançamento em Paris, em outubro do ano de 1979, foi uma recordação pessoal reproduzida no filme, numa das imagens do prólogo. Uma lembrança de uma tarde de verão, em que ainda um bebê sentado numa cesta presa ao guidom da bicicleta ele olhava o rosto de sua mãe e viu a lua no céu por trás dela.


Como restos diurno vemos citações aos cineastas – Pasolini Accattone (1961), Godard O acossado (1959) , ou de sua própria cinematografia ( “1900” de 1976[a fazenda]/ A estratégia da aranha (1970) [a Lua]/ Último tango em Paris [chiclete na varanda]... à Fidel Castro (falação que não interessa X momento do esquerdismo do cineasta)/ o dono do bar de estrada recita um trecho do próprio texto da ópera de Verdi (así, el posadero, cuando Caterina le pide "una habitación para dos" contesta con la narración que hace Azucena del suplicio de su madre, en "Il Trovatore" ("Condotta ell'era in ceppi al suo destin tremendo"), a Maria Callas 2 vezes tocada – voz- e outra num livro dado a Caterine de presente.


... E de forma marcante há as referencias às óperas de Verdi:
Mais claramente às: Il Trovatori/Rigoletto/ La traviata ( Il Trovatori sobre mãe e filho/ Rigoletto sobre filha ao pai) Il Trovatori é uma exceção na obra de Verdi que sempre escreveu sobre figuras de pais fortes


O tema de La luna, a conversa que o filme abre com o espectador, é sua encenação. Um pouco porque ele se refere a pessoas que encenam o tempo todo sua própria condição. Um pouco porque Caterina, Joe, Ariana, Marina são personagens que se interpretam a si mesmos com gestos exagerados, como atores de uma ópera que se esforçam para se fazerem compreender mesmo pelo espectador sentado na ultima fila do teatro. Gestos largos, voz bem projetada.


  • Sobre as aparições da lua ( mãe/lua/ Conde de Luna/no cenário da ópera) desde o filme anterior de Bertolucci
  • Desta mesma perspectiva, a droga dicção torna-se insígnia do gozo mortífero pertinente ao universo pulsional, dos excessos, como também no sonho.


É desde o fracasso de “alguma função paterna” que parece retornar à Caterina questões sobre ser uma mulher para Giuseppe: ele odiava minha voz, era egoísta, estava apaixonado por sua mãe”.
A questão parece ser antes sobre um “complexo”de Jocasta do que do de Édipo. Ela passa a perguntar-se: eu odeio minha voz? Tenho que não mais cantar? Ponho perguntas no lugar de afirmações desesperadas...
Complexo foi o conceito que Lacan tomou de Freud como precursor do de estrutura e de significante.


- sobre os dois momentos que pergunta do pai: de Douglas/ Giuseppe (as coincidências de nomes também, por exemplo, Giuseppe era o nome de Verdi, do servo de Violetta Valerie de La traviata, também do pai de Joe e do pai que Caterina queria “forjar”para o Joe quando o Leva aos portões da casa do músico... pai alucinado/inventado/desencarnado – a La Hamlet? Puro gozo de uma mãe não castrada?)
- das repetições que só se revelam depois: a mãe do pai (Giuseppe) e o pai; entre ela e o filho (Joe)
- falta por excesso de olhar? ... Coisas do Inconsciente...
La Luna
Karin de Paula é Psicanalista, Mestre e Doutora pela PUC-SP,  Pós-doutoranda na Paris 7, professora na universidade e em curso de formação de psicanalistas. Membro fundadora do umLugar – Psicanálise e Transmissão. Autora dos livros $em – sobre a inclusão e o manejo do dinheiro numa psicanálise”, Ed. Casa do Psicólogo e Do espírito da coisa - um cálculo de graça”, Ed. Escuta.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Metáforas surrealistas

de Vítor Viana
Realidades transparentes em tempos e dimensões diferentes. Sementes...
Contagiantes sistemas que se desmistificam em verdades adjacentes. Inteligentes...
Metáforas do mundo em transformação, paredes meias com charadas. Híbridas!
Hibernação de ideais em comunhão de fundamentos. Sentimentos...
Pactos diabólicos com religiões, adoração de ícones, blasfémias ancestrais. Imorais!
Contemplação espiritual, eremitas, gurus e outros que tais! Fundamentais!
Viajantes no tempo, no espaço, espaço de tempo! Intemporais!
Traficantes de afectos, de sentimentos e de emoções. Ilusões...!
 Impávidos, serenos, destituem o portador dos seus íntimos... Futíl!!
Omnipotentes fantasias, embebidas em absinto!
Levando a mente ao conflito. Aflita!!
Lavando-a de preconceitos, tabus e falsas teorias. Vazia!!
Recriando-a, alucinando-a, tatuando-a de mensagens. Cheia!!!
Novas ilusões, antigas questões, premonições!
Bureau Surrealista de Faro (3º Encontro Regional de Poesia)
Menção Honrosa
Faro, 1987 (Agosto)

Vítor Viana, nado no Porto, Portugal, no ano da graça de 1960, cidadão do mundo, escreve-se desde 1976 aquando iniciou as suas deambulações por diferentes países de Gaia, planeta que habita e por onde vai planando. Gestor de empresas até 2008 aposentou-se nessa data para se dedicar à actividade de livreiro antiquário vivendo da venda de livros que alguém já não queria e usufruindo da vivência que lhe proporcionam as pessoas que os ainda procuram. Tem três livros de poesia escritos mas ainda sem titulo e por editar, desconhecendo se alguma vez isso irá acontecer. Até lá continua na sua lida enquanto para isso não lhe faltarem as forças. ...

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Day By Day


de Rodolfo Coelho


Dia após dia
A cada minuto
Esperando o pulsar dos segundos
As mudanças que hão de vir pacientemente
Espero no meu aguardômetro
Apesar de tudo,
Tenho esperança de um novo tempo,
Espero ansiosamente
Este tempo
O fruir
O gozo
A sapiência
Não é fácil esperar!
P'rá ninguém!
Mas a gente espera
O povo espera
Por quê não eu?
Aguarde a sua vez
Por certo ela virá
Vira, virou!


Rodolfo Coelho, poeta urbano, é autor de seis livros:
RuAugusta com Creme – O Lobo Mau da Rua Augusta  - ]gnição – 
Táxi e Outros Poemas Inéditos – Salada Paulista - Poesia 100 Filtro