quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Narrativas do Sofrimento da Classe Batalhadora no Cinema Brasileiro da Retomada

A Retomada do Cinema Brasileiro : 3º capítulo da mini-série  
de Christian Ingo Lenz Dunker
Podemos dizer que o Brasil pós-inflacionário gestou um novo tipo social, que o cinema soube captar antes de sua consagração sociológica, a saber, o batalhador, ou a nova classe trabalhadora. Segundo Jessé Souza1, este novo tipo social se caracterizaria pela inclinação para a auto-superação. Retenhamos o nome escolhido para designar este movimento maciço de ascensão social: batalhador, o que nos remete à retórica da guerra e do confronto diário e continuado, cujo resultado é obtido por meio de ação planejada. O batalhador possui elevado senso de sacrifício para projeção dos filhos e para a ascensão, condição necessária para a disciplina de poupança e economia integrada a uma visão negocial da vida capaz de gerar um senso permanente de orientação para o futuro. Esta disposição ascética requer uma orientação para bens de consumo superiores, uma qualificação dos atos de consumo que implica em adiamento da satisfação como virtude. A importância atribuída à aprendizagem pela experiência e sua transmissão as descendentes e aos membros da comunidade estendida reforça o senso de solidariedade e lealdade com o passado assim como consolida a família como unidade de produção compartilhada. Inversamente a família organiza-se me torno da construção de uma imagem positiva, da disposição para fazer-se de exemplo e para reconhecer a importância do exemplo. Mas não se trata de uma família hierarquizada ou centralizada em torno da figura ou das expectativas que recairiam sobre o pai. Como lugar de convergência entre o poder econômico e a força moral. A família é antes uma unidade de produção e um laço regido por trocas e divisões de esforços e favores, ou seja, é o que Lacan chamaria de discurso do mestre o que faz a função de distribuir posições e dívidas.
Entre a posição dos novos batalhadores temos de um lado a antiga classe média que vive momentos de insegurança crescente, não apenas do fantasma da proletarização, mas também da crise que demanda novos esforços de identificação. Do outro lado encontramos o significativo contingente de miseráveis que passam a integrar a posição do que Jessé de Souza chamou de “ralé”, ou seja, que consegue se incluir em padrões mínimos de consumo e cidadania. O batalhador exprime assim uma nova modalidade subjetivação na qual o trabalho adquire uma centralidade inovadora. Sua própria existência questiona a posição daqueles que obtém e exibem signos de status social, sem que possam apresentar as credenciais de sua obtenção por meios dotados de valor. No espaço de 20 anos o Brasil aprendeu que é preciso justificar a riqueza e que a ascensão social destituída de uma história que a legitime pode ser tão suspeita ou condenável quanto a exclusão e a invisibilidade.
Disso infere-se, em escala invertida, novas narrativas de sofrimento e novos tipos de sintomas, inicialmente caracterizada pelo exagero ou pela suspensão das disposições psíquicas associadas a tal forma de vida. De fato é o que ocorre quando encontramos a desarticulação da gramática do sacrifício, ou seja, da violação do pacto subjetivo, expressa nas atitudes de cinismo, de excesso de instrumentalização das relações, de corrupção, trapaça, suspeição da fidelidade com relação às origens. Aqui a violência cumprirá um papel restitutivo, assumindo uma função trágica de lembrança e de retorno. O temor de que aquilo que se adquiriu com muita disciplina, mas não sem o concurso da fortuna, pode igualmente ser perdido, mostra-se em uma permanente crítica de si e de prevenção diante das ilações desejantes que podem arrastar o sujeito para uma “vida de dissipações”. A dívida simbólica torna-se assim uma dívida impagável, sendo seu incremento e reposição, parte da filiação que se espera do batalhador. Gratidão sem fim, privações auto-impostas, masoquismo moral, são efeitos clínicos desta espécie de gramática do sacrifício que se torna a mímese perfeita das estratégias de reconhecimento e de demanda.
Durval Discos
O segundo tipo de temor que colide com as aspirações do batalhador ou da nova classe média brasileira são as patologias do consumo e sua inevitável associação com a aparição de um objeto intrusivo, seja ele a droga, as más companhias, ou tudo aquilo que desvia e retira o sujeito de seus valores de origem, de seu compromisso com o futuro, de sua comunidade de destino. Adições e acumulações, recusa ou excesso de consumo, exibicionismo, nos colocariam na trilha de uma violência cuja função é segregativa, ou seja, ela não reequilibra narrativamente um desvio das virtudes mas exclui ou inclui comunidades e modos de satisfação.
A terceira forma típica de sofrimento inferida da narrativa ascendente do batalhador brasileiro baseia-se no trabalho de articulação simbólica entre suas origens e sua atual posição social. Uma ascensão baseada no esforço coletivo, na ajuda mútua, nos laços de produção familiares ou comunitários, muitas vezes reforçado por comunhão religiosa e moral, requer uma ampla articulação histórica de sua própria forma de vida. Neste contexto a desregulação sistêmica, pode colocar em risco a unidade, coerência e congruência entre valores de origem e valores que triunfam ao final do percurso ascensional. É a insegurança sistêmica de que assim como o “triunfo” se colocou por vias e regras que não se sabe esclarecer, um grande fracasso e um retorno podem ocorrer a qualquer momento. Há um tipo de depressão ansiosa que se desenvolve facilmente neste contexto. O esforço para sonhar, desejar e imaginar novos futuros possíveis depende da consolidação simbólica das realizações passadas. A ausência desta articulação pode se apresentar como o sentimento permanente de uma “vida postiça” ou de um empuxo à performática social. Aqui a violência assume o aspecto de fantasia de punição ou de imagens masoquistas,
A quarta narrativa do sofrimento, característica do Brasil pós-inflacionário, refere-se às patologias da imagem de si. Isso pode se apresentar sob forma de reificação de uma forma de vida cujo protótipo são as figuras da adolescência: indeterminação de destinos, crise permanente da identidade de si, sentimento de inadequação do corpo próprio, orientação sexual-amorosa baseada na experimentação. Aqui é a narrativa da perda da alma, e das estratégias de recuperação que ganha relevo. A violência assume a figura da demanda de reconhecimento. Os tempos articulatórios da demanda: o pedido, a recusa, o objeto oferecido e a negação, encontram-se dispersos e por vezes desarticulados. Isso explicaria os fenômenos secundários da erotização da infância e das práticas de controle e descontrole alimentar (anorexia, bulimia, vigorexia).
A ideia de uma nova forma de violação do pacto social aparece em Boca do Lixo de Eduardo Coutinho (1992). Aqui vemos a violência silenciosa, baseada na ruptura da conexão ideológica entre pobreza-violência ser deslocada para a narrativa da violação do pacto entre ricos e pobres, lido agora na chave das patologias do consumo. A rarefação de ideais, torna-se um problema maior do que a oposição entre estética ou cosmética da fome. O estudo sobre a população que vive e se reproduz em torno do lixo encontra sua apoteose na cena final na qual a massa se percebe no pequeno monitor de televisão posicionado em cima de uma Kombi da produção, ao som de uma romântica balada que reproduz um sucesso musical americanizado. Vidas em situação de precariedade, na qual pequenos sonhos e a capacidade de imaginar um futuro melhor aparecem como despropósitos desmentidos pelo documentário. Vidas que retratam a ordem e o caráter sistemático em uma situação à qual supõe-se anomia e efeitos radicais da exclusão. Percebe-se então diferenças até então irrelevantes, entre aquele que pertence à ralé e o que pode emergir como batalhador. Diferença tão sutil como perder ou manter os dentes da frente, possuir ou não uma carroça para catar papelão, ter um endereço para receber entregas ou um telefone para se definir a partir de um “lugar”.
É a dificuldade de sonhar, desejar e imaginar futuros possíveis que se encontra também em Carlota Joaquina - Princesa do Brasil de Carla Camurati (1995) que aponta como a desarticulação da gramática do sacrifício leva ao cinismo, ao excesso de instrumentalização das relações e á lógica da indiferença. Encontramos aqui a matriz reversa da inveja como capacidade articular atos de indiferença social ao outro, que se mostrará fortemente presente na reação das classes médias ao forte movimento de ascensão da ralé à pobreza e da pobreza à condição de batalhadores bem sucedidos. A “retomada” do sentido da aristocracia mostra-se assim um movimento defensivo ao grupo que terá seu padrão de subjetivação baseado no consumo ameaçado pela generalização do consumo para as classes sociais ascendentes.
Outro filme que aborda a desarticulação da gramática do pacto-sacrifício é Guerra de Canudos de Sérgio Rezende (1997). Novamente encontramos aqui o tema da violência em nome da supressão da violência, o cinismo das lideranças como origem do ressentimento social. A hipótese de Euclides da Cunha de que o Brasil se tornaria um país viável na medida em que formas de vida, presentes no homem litorâneo, conseguissem se articular com o sertanejo do interior, reaparece agora tematizando a guerra como paradigma na “resposta exagerada”. Contra a hipótese de Antonio Conselheiro, de que um novo mundo seria possível, insurge-se uma espécie de aniquilação engendrada pelas forças da união. Temos aqui um exemplo da alternância entre a narrativa do objeto intrusivo, a comunidade de Canudos, e a violação do pacto, entre Estado e sociedade civil. Ocorre que neste lugar sem Estado a auto-organização é sentida como violação de um pacto, de outra forma quase inexistente.
Cronicamente Inviável
Também se encontrará esta ligação em Cronicamente Inviável de Sérgio Bianchi (2000). A fixação masoquista ao sacrifício, a interiorização como defesa ao sentimento de isolamento são novamente endereçados à gênese do ressentimento social. É, por exemplo, o caso da cena no qual o trabalhador volta para casa em seu ônibus lotado, mas em recuo introspectivo, medita sobre as condições da troca social a que está exposto pelas regras do trabalho em uma cidade como São Paulo. Sua meditação é interrompida pelo carro de uma mulher que enguiça a frente do ônibus. O motorista buzina e pede passagem, o que é saudado pelos que estão no ônibus. Contudo, em plena avenida Paulista o que se vê é uma jovem senhora de classe média sair aos brados de seu carro e proferir impropérios ao motorista, exacerbando sua “força de classe”, representante pelo carro contra o ônibus que ela está a atravancar. O motorista se cala, a população bate palmas, a violência do condutor fora enfim contida e sobrepujada pela reação excessiva, exagerada e simbólica levada a cabo pela madame. Temos aqui os traços característicos da narrativa da alienação como perda da alma: interiorização, humilhação, exercício conspícuo do poder, intimidação.
Abril Despedaçado, de Walter Salles Jr. (2001) é outro caso de desarticulação da gramática do sacrifício e do pacto. Aqui a violência do agreste, dá suporte à narrativa da vingança como forma atrasada e equívoca de solução para a tensão social. Mesmo que o tema seja as relações históricas de vingança entre famílias rivais no agreste brasileiro, o mal-estar está presente e transpira como uma alegoria. É o relógio que marca a hora da vingança, do inexorável ajuste de contas, mas que já é sentido como anacrônico, e fora de hora. Ou seja, a mais tradicional e instituída das formas de violência no interior do Brasil profundo mostra-se anacrônica, excessiva, fora de hora. Mais do que uma típica aventura de inversão e reequilibração o filme aborda o cansaço e a impotência da vingança promovida fora de um universo onde a honra é um valor de fato, fundamental. A vingança não está a cargo de um ajuste de contas ascensional com o futuro ou com um ato de liberação simbólica para com o passado, mas é uma vingança que trabalha fora do tempo.
A narrativa do objeto intrusivo aparece em Ação entre Amigos de Beto Brandt (1998) e Que é isso Companheiro, de Bruno Barreto (1997) corrupção, trapaça, e suspenção de relações de fidelidade determinam ressentimento social como incapacidade de luto. Já em O Invasor, de Beto Brant (2001) vemos o problema do objeto intrusivo induzindo uma situação de anomia decorrente do excesso de instrumentalização das relações. Paulo Miklos, ex Titãs, é contratado para eliminar um dos sócios de uma construtora. Feito o ”serviço” ele reaparece na empresa, se faz introduzir na casa dos outros sócios, aproxima-se da filha de um deles, enfim, mostra uma situação na qual os muros e cercas, invisíveis, são ultrapassados produzindo um sentimento de insegurança que não decorre da potencial violência do “invasor”, mas de que seu agente aparece de forma visível e fora de controle.
Outro exemplo desta forma de sofrimento cuja gramática baseia-se na aparição de um objeto intrusivo é Carandiru, de Hector Babenco (2003), no qual o universo fechado da prisão coloca-se como um comentário ao massacre de 1992. Aqui a crise de sentido no interior da ordem sistêmica prisional, associada com a sempre disponível hipótese do declínio da imago paterna, com sua retórica da impunidade e do medo, dão margem à reconstrução, violenta e insensata, do universo da lei. Esta abordagem do massacre dos 111 presos do Carandiru é ótimo exemplo de como vidas comuns, com seus desencontros comuns, são compactadas e destruídas pela uniformidade da hipótese de a-violência. Hipótese pseudo-democrática de que diante de a-violência seríamos todos iguais. O filme é a primeira tentativa de interpretar a violência nascente segundo sua própria lógica.
Observe-se como em todos os casos subsequentes temos a intrusão de um olhar deslocado: o menino de classe média que se envolve com o tráfico em Cidade de Deus, o médico de presídio em Carandiru, e o matador que passa a participar, como um intruso, na vida de seus contratantes em O invasor. Nos três casos há uma espécie de prazer ou de flerte hesitante em conhecer as raízes do excluído social. A fascinação exercida pela alteridade interna, mas distante, dá lugar ao horror e angústia quando reconhecemos sua proximidade. Não creio que nesta gramática se trate apenas de humanização do excluído, mas, como afirmou a crítica literária Maria Elisa Cevasco (2003), de filmes que “usam a linguagem da mercadoria, da propaganda, para falar da realidade de quem está excluído do consumo”2. Temos assim um erotismo produzido no olhar do espectador a partir de uma posição deslocada. Erotismo que não se reconhece como tal, e encontra como substitutivo a violência. Situação simétrica verifica-se no caso da jovem esposa, algo entediada com seu marido, que recebe da vizinha uma receita para “aditivar” suas relações: a introdução de uma banana no seio da vida erótica do casal. A resposta do marido vem em ato: ele mata sua própria esposa, intuindo que a invenção de tal prática só poderia advir de um relacionamento extra-conjugal. Vê-se bem aqui como a violência emerge no lugar do erotismo suprimido. Demonstração do equívoco de Reich. A sociedade de indivíduos dóceis, apáticos... “bananas” (para voltar ao assunto) não é apenas efeito da repressão do erotismo, mas de um erotismo que suporta mal as oscilações da fantasia que o sustenta. Um erotismo desguarnecido contra a aparição de um objeto intrusivo e em permanente precariedade do pacto amoroso.
Abril Despedaçado
Muito se tem criticado Carandiru por colocar em primeiro plano a imagem midiática de Rodrigo Santoro no papel do travesti “Lady Di”, em franco contraste com os outros personagens do filme, que são figurados como pessoas comuns. Nisso se esquece que tal personagem só adquire realmente consistência a partir de seu envolvimento com “Sem Chance”, um mirrado representante gabiru, de quem se esperaria um erotismo convencional. Trata-se de mais um encontro inesperado. O contraste entre a bela exuberância do primeiro com a minguada estética do segundo testemunha uma espécie de miscigenação estética que alimenta uma nova forma de erotismo, estritamente distante e corrosiva diante do ideal hegemônico.
A narrativa da anomia, da perda da unidade sistêmica, e da desarticulação entre meios e fins, entre agente e outro, aparece em Durval Discos, de Anna Muylaert (2002) e Edifício Master de Eduardo Coutinho (2002). A dificuldade de articulação histórica de sua própria forma de vida (desregulação sistêmica) aparece pela via da depressão, da espetacularização da vida cotidiana e do declínio do erotismo. Não falta a redução da extensão da narrativa amorosa. É o que vemos na personagem depressiva de Edifício Master que não consegue de fato desenvolver uma narrativa amorosa quando é instada a tal. Em vez disso emerge um palavreado inautêntico, uma alienação espantosa quanto ao que seria uma experiência com o outro, sem que ao final se consiga dirimir uma relação exata que se encadeia nas experiências amorosas, mesmo em suas decepções e infortúnios.
Finalmente, Cidade de Deus de Fernando Meirelles (2002) e A Dona da História (2004) de Daniel Filho, inscrevem-se sob a narrativa da perda da alma. Temos aqui o corte etário bem definido na construção do sofrimento de época: a reificação da adolescência, a erotização da infância, a reinvenção da mulher de meia idade e a banalização do homem incapaz de fazer frente à sua própria posição. São narrativas cuja enunciação permanente, e fronteiriçamente depressiva, é: “em nome de que?”. Tanto no caso do envolvimento de jovens de classe média com o crime, ou do adolescente que mora no morro com a arte do jornalismo e da fotografia, ou da senhora que questiona o tipo de realização que ela teria levado a cabo em seu casamento “feliz”, o ponto do vista do filme é retrospectivo, quase memorialístico, apesar da alta densidade de ação. Tanto no drama dos morros quanto no seu homólogo Zona Sul, os personagens padecem de um sofrimento de determinação, invertendo aqui a expressão original de Axel Honneth (sofrimento de indeterminação). Não que ambos vivam em um mundo demasiadamente organizado, pelo contrário os cenários são anômicos, violentos e corrosivos, mas em meio ao caos e a vida em estrutura de guerra e condomínio, vigora perda do sentimento de liberdade, de rarefação da densidade da vida, de irrelevância da experiência de si. Esta ligação entre alienação da alma e desreguração sistêmica pareciam preparar o sucesso vindouro de Tropa de Elite 1 (2007) e 2 (2010) de José Padilha.
Ora, o que esta aparição transversal da violência mostra é no fundo sua capacidade de articular a fantasia social por meio da variação de incidências do que Lacan chamou de objeto a. Ora, o objeto a pode ser tanto o elemento indiscernível que é causa do desejo e de sua alienação, para um sujeito, como este elemento excessivo que surge intrusivamente, misturando fronteiras e limites. O objeto a, pode ser tanto o elemento desagregador na relação entre as partes e o todo, quanto o traço que por sua repetição dá consistência à lei, unidade a uma série, causa instituinte e transgressiva de uma forma de vida. Temos então que as narrativas convergentes sobre a perda da alma, sobre o objeto intrusivo, sobre a desregulação do sistema ou sobre a violação do pacto, presentes no cinema da retomada, são articulações estruturais da nomeação do mal-estar como “a-violência”. Isso nos ajudaria a entender porque o esforço de teorização dos chamados novos sintomas, ou novas patologias, amplamente enfrentado pela psicanálise brasileira dos anos 2000, rendeu pouco em termos da articulação entre as diferentes modalidades de sintoma. Entre o mal-estar, genérico derivado das transformações sociais inspiradas pelo capitalismo tardio, e os sintomas específicos como a drogadição, a depressão, o pânico e a anorexia, é preciso pensar o plano intermediário das narrativas sociais do sofrimento. Sem elas as conexões e correlações entre sintomas aparecerão de modo isolado, como contingências individuais.
É fácil perceber que a ascensão do discurso sobre as drogas, assim como todas as outras patologias do consumo, como a anorexia, a bulimia e vigorexia, são variantes da narrativa do objeto intrusivo, percebido como vorazmente perigoso justamente em um universo social que se abre como nunca às perspectivas de definição de si por meio de atos de consumo. Inversamente o espectro de sintomas em torno da depressão mostra-se dependente da narrativa da perda da alma e da alienação do desejo. Os sintomas em torno a ansiedade e do pânico, tais como o medo de lugares abertos, a vertigem diante de multidões ou de lugares estranhos exprimem a perda da experiência de unidade corporal em homologia com narrativas sobre a perda ou sobre o excesso de organização sistêmica do mundo. Finalmente, os sintomas em torno de formas disruptivas do narcisismo, que vão do espectro bipolar aos desajustes de hiperatividade até o sentimento de inadequação, dependem estruturalmente de narrativas em torno da patologia do pacto, ou do laço de discurso, com o outro.
1- Souza, J. (2004), “A gramática social da desigualdade brasileira”. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 19 (54): 79-96.
2- CEVASCO, M.E. (23/05/2003). Estudos culturais à brasileira. Folha de SãPaulo – Mais.

Christian Dunker é Psicanalista, Professor Livre Docente do Depto de Psicologia Clínica-IPUSP, Analista Membro de Escola da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental, Doutorado (IPUSP) e Pós-Doutorado pela Manchester Metropolitan University (UK). Autor de vários livros, entre eles o vencedor do Prêmio Jabuti 2012: “Estrutura e constituição da clínica psicanalítica: uma arqueologia das práticas de cura, psicoterapia e tratamento” (ed. Annablume, 2011)