quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Le Mystère Alexina - O curioso caso de Herculine Barbin: "Sou homem ou sou mulher?" no real do corpo

de Isloany Machado

A pergunta “sou homem ou sou mulher?” nos remete à clássica questão histérica, sobre que posição o sujeito ocupa na partilha dos sexos. Ora, bastaria despirmos um sujeito para determinar qual seu verdadeiro sexo? A resposta parece óbvia, e foi exatamente a este tipo de exame que submeteram Herculine Barbin, jovem de 25 anos que escreve suas memórias por acreditar que sua vida acabará em breve. O relato se passa no século XIX e conta a história de uma pessoa que descobre ser hermafrodita, mas só o faz depois dos vinte anos de idade.

Desde o final da infância tinha um distanciamento do mundo, como se houvesse já compreendido que viveria nele como um estrangeiro. Com a morte do pai, quando Herculine ainda era criança, a mãe ficou sem condições financeiras e a filha foi admitida num asilo que tratava doentes mentais, sendo criada junto com crianças órfãs. O fato de ter uma mãe viva a colocava num lugar privilegiado para as demais crianças que ali viviam. Certa feita, uma delas censurou-a por estar compartilhando de um pão que não havia sido feito para ela. Tempos depois foi para um convento onde participaria da vida de meninas ricas e nobres. Herculine, apesar da evidente diferença social que havia entre si e as outras meninas, se destacava nos estudos, impressionando as professoras. Neste lugar apaixona-se pela primeira vez.
Quando volta a morar com a mãe na casa de seus patrões, um pároco da cidade sugere que ela se dedique ao ensino e, autorizado por ela, divide a ideia com sua mãe e seu benfeitor. A ideia a desagradava, pois tinha por essa profissão uma antipatia irracional e profunda, e acreditava merecer coisa melhor. Neste período começa a se evidenciar a enorme distância física que havia entre ela e as outras meninas. Possuía muitos pelos no rosto e nos braços, fato que era motivo de chacota. Apesar da descrição do quanto os traços físicos eram masculinos, ela coloca uma oposição ao dizer que apesar disso nascera para amar: “todas as faculdades de minha alma estavam voltadas para o amor; um coração ardente escondia-se sob minha aparência fria e quase indiferente”. Herculine faz uma oposição entre masculino e feminino, dizendo que o amor é coisa das almas femininas.
            Com a passagem do tempo e a acentuação das características físicas masculinas, a angústia de Herculine aumenta. Finaliza o curso superior com as melhores notas e consegue um emprego como professora adjunta em um internato. Foi acolhida pela família proprietária como se fosse uma filha e passaria a gerir a instituição juntamente com Sara, uma das moças.
Na relação com Sara, inicia-se um envolvimento: “do fundo da minha alma, eu te amo como nunca amei ninguém na vida. Mas não sei o que está acontecendo comigo. E sinto que essa afeição não pode mais me satisfazer. Para isso preciso de toda a tua vida!”. Sara não recusa esse amor, sofre com isso, mas se tornam amantes.
            Pouco tempo depois, Herculine começa a sentir dores físicas tão fortes que a impediam até mesmo de gritar. A situação vai ficando cada vez mais insustentável e ela sai de férias com a decisão de buscar ajuda para retificar seu registro civil. Segue o trecho de um dos relatórios médicos:
“Dos fatos acima, o que concluiremos nós? Alexina seria uma mulher? Ela tem uma vulva, grandes lábios, e uma uretra feminina que independem de uma espécie de pênis imperfurado, não seria isso um clitóris monstruosamente desenvolvido? Existe uma vagina, bem curta na verdade, e muito estreita, mas enfim, o que poderia ser além de uma vagina? Ela tem atributos totalmente femininos, é verdade, mas nunca menstruou; externamente, seu corpo é masculino, e minhas explorações não me levaram a encontrar o útero. Seus gostos, suas inclinações a levam em direção às mulheres. À noite, as sensações voluptuosas são seguidas de um escoamento espermático; seu lençol é manchado e essas manchas têm um aspecto duro. E para finalizar, podemos encontrar os corpos ovoides e o cordão dos vasos espermáticos num escroto dividido. Eis os verdadeiros testemunhos do sexo; podemos portanto concluir e dizer: Alexina é um homem, hermafrodita sem dúvida, mas com evidente predominância do sexo masculino”. 
Restava à ciência agora reparar o erro. Herculine diz: “Mais tarde eu me arrependeria amargamente daquilo que então eu considerava um imperioso dever. O mundo logo me ensinaria que eu tinha cometido um ato de fraqueza e estupidez, e me puniria cruelmente por isso”.
            O saber médico determina a retificação nos registros civis, afirmando que ela pertencia agora ao sexo masculino e teria seu nome modificado. “Tudo estava feito. A partir de agora, o estado civil me obrigaria a fazer parte daquela metade da raça humana a que chamamos de sexo forte”.
Uma mudança de nome e registro civil. Isso basta para determinar qual a posição de um sujeito? Antes de saber de sua condição hermafrodita, Herculine já se sentia como alguém sem lugar, um estrangeiro. Separados da natureza pelo significante, não somos todos nós estrangeiros nessa pátria da certeza anatômica? Se antes Herculine era um estrangeiro por pertencer ao mundo dos significantes, após a busca por retificação que culminou em uma decisão judicial de torná-lo pertencente ao sexo masculino, ele se torna um exilado. Sobretudo porque, devido ao escândalo que esta mudança significou, ele perde o amor vivido com a mulher que tanto amava.
O fato de ter, anatomicamente, um “terceiro sexo”, nem masculino e nem feminino, colocou Herculine numa posição de estrangeiro, desde pequeno. Nos anos que se seguiram à mudança de seu registro, a morte passou a ser a possibilidade de finalizar a angústia de seu isolamento. Ciente de que a medicina utilizará seu corpo para estudos científicos, pede em seus escritos que eles analisem também todas as dores que queimaram e devoraram esse coração até suas últimas fibras.  Alguns anos depois, aos 30 anos, comete suicídio.
Independentemente da anatomia, o amor fazia com que se sentisse em casa. Será que o peso da nomeação foi o que levou Herculine à morte? Foi a expatriação sofrida? Ou terá sido a perda do amor? Não há como saber esta resposta, pois não se trata de um caso clínico, mas lembremo-nos do último pedido desse sujeito: “peço que analisem todas as dores que queimaram esse coração até suas últimas fibras”. Ao final do relato de Herculine, há vários arquivos dentre relatórios médicos e jurídicos, então, mesmo que a história tenha se passado anteriormente aos escritos psicanalíticos de Freud, como teria sido um relatório feito por este autor, caso fossem contemporâneos?

RELATÓRIO DE FREUD
Prezados senhores,
Devido ao sigilo imposto por meu ofício, direi apenas algumas poucas palavras. Desde nossa teoria da sexualidade, é sabido que as opiniões populares admitem que o ser humano ou é homem ou é mulher. A ciência, porém, conhece casos em que os caracteres sexuais parecem confusos e é portanto difícil determinar o sexo, antes de mais nada no campo anatômico. A genitália dessas pessoas combina caracteres masculinos e femininos (hermafroditismo). Assim me parece ser o caso de Herculine, exatamente como afirmam os relatórios médicos.
Mas mesmo na anatomia, até aqueles que são “homens” ou “mulheres”, não excluem, em sua constituição física, elementos do sexo oposto. Certo grau de hermafroditismo anatômico constitui a norma. A concepção resultante desses fatos anatômicos conhecidos de longa data é a de uma predisposição originariamente bissexual. Minha opinião teórica é de que seja possível transpor tal concepção da anatomia para o campo psíquico, em que teríamos, então, um hermafroditismo psíquico.
Independente do hermafroditismo somático de Herculine, seria ela uma invertida, já que foi criada como mulher e seus objetos sexuais sempre foram mulheres? Em seu relato autobiográfico, é evidente a culpa que sentia por se apaixonar por Sara e trair, assim, a confiança da mãe da moça, que a havia acolhido como uma filha. Ao mesmo tempo em que tinha uma “alma voltada para o amor”, delicada e feminina, ocupava um lugar masculino na relação amorosa, pois a moça era objeto de seu encantamento, chegando a se sentir sufocada às vezes.
Em minha clínica da histeria, pude elaborar que os sintomas histéricos são a expressão, por um lado, de uma fantasia sexual inconsciente masculina e, por outro lado, de uma feminina. A natureza bissexual dos sintomas histéricos, que pode ser demonstrada em numerosos casos, constitui uma interessante confirmação da minha concepção de que, na análise dos psiconeuróticos, se evidencia de modo especialmente claro a pressuposta exigência de uma disposição bissexual inata no homem.
Neste caso, não se trata de dissecar, compreender, averiguar e devolver-lhe seu verdadeiro sexo, mas antes, saber que as questões dos sujeitos vão muito além da anatomia. Sobre o inconsciente, sabemos que não há nesse sistema lugar para negação, dúvida ou quaisquer graus de certeza. Característica que chamamos de isenção de contradição mútua. Ao mesmo tempo, os processos do inconsciente não são ordenados temporalmente e podemos substituir a realidade externa pela realidade psíquica.
Deste modo, concluo meu relatório dizendo que importa mais saber para onde aponta o desejo de Herculine. O verdadeiro sexo anatômico, não pode ter relevância maior do que o posicionamento desse sujeito diante de sua realidade psíquica e na partilha dos sexos.   
S. Freud

Quando falamos de sexualidades, não diferenciamos homens ou mulheres a partir da anatomia, nem tampouco partindo de suas escolhas de objeto. Segundo Lacan, não haveria nada no psiquismo “pelo que o sujeito se pudesse situar com ser de macho ou ser de fêmea” (1964/1988, p. 194). Além disso, “as vias do que se deve fazer como homem ou como mulher são inteiramente abandonadas ao drama, ao roteiro, que se coloca no campo do Outro. [...] o que se deve fazer como homem ou como mulher, o ser humano tem sempre que aprender, peça por peça, do Outro. [...] A sexualidade se instaura no campo do sujeito por uma via que é a da falta” (p. 194). Homens ou mulheres, somos sempre seres faltantes.   
Só há uma certeza: seja nas escolhas de objeto sexual, seja no real do corpo de um hermafrodita, o sexo não se define pela anatomia. O sexo não se define no inconsciente, não se é homem ou mulher. Isso é o que menos importa, se é que importa. Os seres transitam e transam entre uma posição e outra, e o que importa a nós psicanalistas é ouvir o sujeito com suas questões, com sua sexualidade que, como afirmou Lacan, é definida pela falta. 
FOUCAULT, M. Herculine Barbin: o diário de um hermafrodita. Rio de Janeiro: F. Alves, 1982.
FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1905/2006.
FREUD, S. O inconsciente. In: Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1915/2006
LACAN, J. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1964/1988. 
 Trailer

Isloany Machado é Psicanalista, Escritora e Professora.  Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano/MS. Especialista em Direitos Humanos pela UFGD e em Avessos Humanos pelo Ágora Instituto Lacaniano. Mestre em Psicologia pela UFMS. Despensadora da ciência e costuradora de palavras por opção, é autora dos livros “Costurando Palavras”  (ed. Life, 2012) e "Em Defesa dos Avessos Humanos" (ed. Life, 2014). Fundadora do blog  www.costurandopalavras.com.br


quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Que horas ela volta? …por cima*

de Christian Dunker


O cinema da Retomada (1992-2003) foi o primeiro movimento estético a captar a importância da vida em forma de condomínio como legado histórico e pendência simbólica de uma época que não soube reconhecer a diferença social como um problema de Estado.
O que é isso companheiro? (1997) Bicho de sete 
cabeças (2001), Cidades de Deus (2002) e Carandiru (2003), são reflexões sobre este polígono formado pelas favelas, prisões e condomínios.


Característico da Retomada é a tentativa de mostrar e de pensar o Brasil real, entre a maquiagem desenvolvimentista e a cosmética da violência.
Por isso me parece que O invasor (2002) de Beto Brandt, é o filme que melhor capta esta contradição entre ricos e pobres que termina em uma espécie de amizade paradoxal, excessiva e obscena. Dois amigos, empresários, contratam um pistoleiro de periferia para assassinar o terceiro sócio que estava criando problemas no interior da dinâmica da corrupção. O pé de pato faz o serviço, mas depois de receber o dinheiro, em vez de voltar para casa e desaparecer, ele começa a frequentar a mansão e a vida dos dois contratantes, envolvendo-se com a filha de um deles.

Nada mais eficaz do que colocar no personagem paratópico do pistoleiro um não-ator, Paulo Miklos, vocalista da banda de rock Titãs. Desta forma seus gestos insólitos tornam-se obviamente exagerados. Um exagero naturalista que funciona perfeitamente na lógica do filme para mostrar como a insanidade da vingança praticada entre “amigos” (empresários) se instrumentaliza pela aliança entre “inimigos” (ricos e pobres). Nesta versão nacional de Macbeth, o crime não se apaga. Os territórios da mansão no Morumbi e a favela de Paraisópolis, uma vez fundidos, pingam sangue e culpa para sempre.

segundo momento fundamental da lógica do condomínio acontece, naturalmente, com O som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho (2013). 
Agora, trata-se de entender a gênese do condomínio como uma herança arcaica dos antigos latifúndios. Francisco (W. S. Solha), literalmente senhor de engenho, é também e simplesmente dono de uma rua inteira em Recife. Nela, a vida apática e modorrenta, cheia de pequenas contravenções e rebaixamento de sonhos começa a se movimentar quando uma equipe de seguranças, liderada por Clodoaldo (Irandhir Santos) se estabelece no local. Nela tudo funciona bem, a não ser o som que parece denunciar o mal-estar e o esvaziamento das relações sociais, das perspectivas de futuro e da densidade da vida amorosa. Novamente temos uma trama de vingança inesperada, na qual um crime antigo apagado agora retorna com cores vivas e surpreendentes no interior da zona de segurança formada pelo condomínio. Novamente aqueles que deveriam ser aliados “interclasses”, (os condôminos e os seguranças) mostram que tal aliança erige-se em um pacto hamletiano anterior, mal resolvido, e mal honrado.

O ponto arqui-mediano da lógica do condomínio está sem
dúvida em Que horas ela volta? (2015), de Anna Muylaert. Aqui temos a mesma apatia e falta de sentido que domina a representação da vida protegida e abrigada entre muros, síndicos e regulamentos de ocasião. O conflito é novamente caracterizado por uma espécie de dilatação da presença do serviçal. Assim como Val deve aparecer para o que for necessário, antecipando demandas e dificuldades de seus patrões, ela deve logo em seguida tornar-se invisível quando se trata de existência não funcional. Ela deve inexistir, sobretudo, quando o assunto é a personalidade sensível de seus patrões: assuntos que envolvem gosto, narrativas pessoais ou habitação de certos lugares da casa, como a piscina. Era assim também a promessa dos primeiros condomínios. Uma civilização artificial na qual os problemas práticos com empregados domésticos estariam resolvidos: entradas pelos fundos, uniformes, administração impessoal e mínimo de convivência não controlada. Saneava-se assim a antiga e machadiana figura do agregado, este misto de empregado e membro da família, que perpassa a memória afetiva de todos nós, e que descende tanto do aproveitamento sexual da senzala pela casa grande (Gilberto Freire) quanto da mistura ibérica cordial entre o público e o privado (Sérgio Buarque de Holanda).

Portanto, a pergunta que não quer calar, não é por que Val (Regina Casé) aparece como personagem caricata em seu exotismo linguístico nordestino, que exagera no amor ao filho da patroa, na devoção superlativa ao marido depressivo ou na tolerância para com a ignara e displicente dondoca. Este 
exagero não é um erro de casting ou de construção de personagem, mas uma necessidade estrutural. Este excesso representa o personagem ausente no filme, mas que é facilmente dedutível da série na qual ele se inclui: a vingança e a violência. A complacência e dedicação de Val tem por objetivo induzir o mal-estar no espectador. Fazer com que ele se reconheça no idiota apressado que não consegue escutar uma história de sofrimento, de inverter uma perspectiva sequer sobre sua própria vida, em relação a quem, por outro lado ama e experimenta gratidão, ainda que narcísica.
Jéssica, a filha abandonada, que reaparece “fora de lugar” faz a função híbrida de Paulo Miklos e Irandhir Santos. Ela gruda, se insinua, aceita ser tratada como hóspede, comporta-se como um objeto intrusivo, age como se não soubesse que existe uma ordem e uma lei, um semblante que mantém sob si a verdade de um discurso, que é o discurso da segregação. Contudo, ela não volta para se vingar dos patrões, mas da covardia moral da mãe. 

Aqui tudo o que o personagem de Val tem de determinação unidimensional Jéssica carrega de indeterminação produtiva. Estaria Carlos, o herdeiro filho de papai, reencarnando seu papel de senhor, assediando a senzala, ou estaria ele tomado pelo redespertar verdadeiro do desejo, diante de um ato real de reconhecimento, quando se encontra com alguém, como Jéssica, dotada de um genuíno apreço pelas artes e pela arquitetura modernista? Estaria Fabinho enciumando por ter que dividir o afeto de sua ama de leite ou interessado em uma mulher real que já não é mais virgem? Seria a alegoria do rato nadando na piscina uma crítica invejosa da madame contra a irreverência da jovem, um gesto para afastar o filho da intimidade demasiada com a intrusa ou é apenas signo de sua derrota e impotência diante da autenticidade da filha ou da intimidade da mãe.

Nada mais distante desta lógica do que pensar que Regina Casé é uma personagem-tipo do lulismo, uma batalhadora que deu certo, ostentando seus signos de consumo, na parede de seu quarto dos fundos, para uma casa que ela ainda não ousou sonhar. Casé vem da comédia nacional semi-escrachada, do fulcro da indústria cultural, mas assim como Paulo Miklos, ela é percebida como uma atriz diferente, uma espécie de antropóloga interessada no Brasil. Aqueles que viram no filme apenas uma reprise de uma comédia de ocasião, realista se não governista, parecem aqueles antigos psicanalistas que só conseguem olhar para um filme a partir de seu enredo. E com um martelo na mão, tudo o que conseguem enxergar são… pregos.

O trabalho de câmera é decisivo para entender como o problema central do filme não é a conflitiva doméstica e seus sonhos de ascensão, mas são os muros que atravessam as relações, induzindo um ressentimento expresso pela perda de intimidade, pela solidão compartilhada, pela inexplicável distância que faz Val, deixar de visitar sua filha por 10 anos. É o abrir e fechar das portas da cozinha, das portas do atelier de Carlos, das janelas do Copan, este sonho contra-condominial de Niemeyer de criar um complexo urbanístico onde ricos e pobres poderiam viver juntos entre apartamentos gigantes e pequenas quitinetes.
São os takes de Campo Limpo, de onde se pode ver a cidade, ao contrário do intra-muros residencial da casa no Morumbi e sua retórica da asfixia.
Nos acostumamos a ver no cinema brasileiro contemporâneo o excesso de emprego da câmera subjetiva. Postada rente ao rosto do personagem ela produz interioridade psicológica e densidade moral apropriada para a tematização do herói dividido (como o Capitão Nascimento, apesar de tudo). Mas não é neste plano subjetivo que Jéssica nos é apresentada, mas numa espécie de plano subjetivo com uma semi-torção, no qual a câmera está perto do rosto da personagem, mas seu rosto vira-se para o lado, como que a recusar a sua psicologização, sem por outro lado, recorrer ao distanciamento. Daí que sejamos surpresos pela complexidade de motivos que trouxeram-na para São Paulo. Daí também que sejamos surpreendidos pela reconciliação diante de um dos sintomas mais temido pelos clínicos, graças a sua força de repetição transgeracional: a gravidez precoce.

O último exagero imputado ao filme, procurando corroer sua verossimilhança e com isso sua potência crítica, trata de insistir que seria pouco plausível que uma moça vinda do nordeste, sem cursinho, entrasse na USP. A objeção não procede, pois mostra, antes de tudo, soberba ignorância quanto ao fato de que há muitos alunos que não são ricos e indolentes como Fabinho, nas universidades públicas. E é aqui que o filme vai melhor ao nos apontar nosso próximo muro condominial a ser derrubado: a inequidade na distribuição de bens simbólicos de qualidade, como educação, cultura, justiça e saúde. É o ponto de inversão real no qual os jovens protegidos e indolentes das classes altas estão sendo sobrepujados nas universidades e nos empregos por jovens inquietos atrás de uma única oportunidade. Mais do que atrás de um prato de comida, atrás de um prato de saber. É a ridícula miséria cultural daqueles que deveriam zelar pela sua distribuição que é posta em questão de ponta a ponta no filme: as telas desperdiçadas de Carlos, as declarações vazias de sua
esposa (“o estilo é a pessoa, sabe?”), a inconsequência de Fabinho.

A síntese desta questão está na cena na qual guiado pelo pai, Fabinho confessa sua ignorância de jamais ter entrado e sequer saber como é a universidade onde queria estudar, ali tão próxima de sua casa no Morumbi. Em contraste com Jéssica que sem jamais ter pisado em São Paulo, pressentia o encontro indelével com o horizonte futuro de seu desejo, e a hora da verdade quando ela e sua turma poderão dar a volta por cima.

*Fonte: Blog Da Boitempo - http://blogdaboitempo.com.br/category/colunas/christian-dunker-colunas/

Trailer do Filme

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano e fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Autor de vários livros, entre eles Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica (AnnaBlume, 2011) vencedor do prêmio Jabuti de melhor livro em Psicologia e Psicanálise em 2012. Seu livro mais recente é Mal-estar, sofrimento e sintoma: a psicopatologia do Brasil entre muros  (Boitempo, 2015).