De acordo com o dicionário da
língua portuguesa Houaiss, sonata consiste em uma composição
musical para um ou dois instrumentos (esp. para instrumentos de
teclado), constituída de três movimentos que se relacionam quanto à
tonalidade e contrastam quanto ao andamento, ao modo e à forma de
expressão.
Três mulheres, três histórias
e três formas de expressão diferentes. A esperança de um encontro
(eu-com-Outro) idealizado que, ao longo do filme, parece nunca
acontecer como o almejado: “o que ela espera após 7 anos? E eu? A
esperança não acaba? Sempre mãe e filha!” (Eva).
No outono de Bergman, não
somente as plantas e as folhas secas, mas também as máscaras vão
caindo e nos colocando, pouco a pouco, frente a um Real que vai
adquirindo consistência. Eu, num primeiro momento, emudeço diante
desse encontro.
Um filme intenso, provocante,
Sonata de Outono retrata os encontros e desencontros da relação
entre Eva, Charlotte e Helena. Nada fácil a tarefa de comentar esse
filme, nele a falta faz questão, aliás, a falta é uma questão. E
por esse território pretendo me adentrar.
Somos conduzidos ao concerto
por Viktor que produz os primeiros acordes. Ele fala sobre a sua
dificuldade em expressar seu amor pela esposa: “eu não saberia
dizer de um jeito que a fizesse acreditar...não encontro as palavras
certas”. Mas existem palavras certas para expressar os sentimentos?
Teríamos aí indícios de uma
idealização, como se existisse um saber fazer que nos desse
garantias, que nos colocasse numa posição de controle das
situações?
Nosso encontro com Eva
acontece ao som de suas palavras endereçadas a Charlote: “mamãe
venha e encontrarás espaço, privacidade, conforto, um piano e
mimos”. Interessante observar que no convite de Eva, o que fica
para mim é venha que atenderei todos os seus desejos. Hum, tarefa
impossível até mesmo para o gênio da lâmpada que sabiamente
limitou os desejos a três.
Bergman usufrui da
possibilidade oferecida pela linguagem imagética do cinema,
enfatizando as expressões faciais e os olhares. Mas uma tomada de
câmera me chama a atenção. Enquanto o carro de Charlote se
aproxima da casa de Eva, um breve foco é dado em uma roseira que
contrasta com a paisagem árida. O que estaria ali simbolizado? O que
isso faz pensar?
O encontro entre Eva e
Charlote finalmente acontece após 7 anos, mas de que encontro
estaria eu falando? Pois logo nos primeiros momentos, o que fica em
evidencia para mim é que não seria algo tão simples assim.
Charlote chega “tomando para si todas as palavras da casa” ao
passo que Eva vai se colocando numa posição de espelho do
narcisismo materno, reconhecendo, testemunhando e admirando. Aliás,
me ocorre agora que talvez Eva já tenha corrido para esse lugar,
assim que escrevera a carta para a mãe.
A presença de Helena é
anunciada. Impactada, Charlote diz não estar disposta a vê-la, mas
alegando falta de opção, se dirige ao quarto da filha. A suposta
alegria e as promessas de companhia e passeios se intercalavam com o
silêncio e o olhar apavorado de Charlote: “eu senti a doença
contraindo os
músculos de seu
pescoço...aquele corpo mole e deformado é a minha Lena!” Um breve
encontro com o Real?
“Que
mãe extra-ordinária! Ela encarnou a atriz e fez uma atuação
impecável!” diz Eva ao compartilhar com Viktor suas impressões do
encontro entre a irmã e a mãe.
Helena parece contar sua
história através do seu corpo - a doença, as expressões faciais,
os movimentos limitados e os sons que se assemelham a grunhidos.
A noite cai, Charlote dorme em
seu quarto de princesa, preparado pela súdita Eva, mas produz um
pesadelo que interrompe seu sono. A partir daí, outro pesadelo vai
se configurando bem diante de seus olhos, dessa vez, abertos! Eva
começa a visitar o passado e derrama sobre Charlote todo seu ódio,
sua mágoa, seu abandono, seus anseios.....hum sua falta!, num
“discurso cobrança”. Eva parece não metaforizar a falta e ficar
presa na demanda: “olhe para mim, olhe para Helena, não há
perdão....só existe uma verdade” (Eva). Uma verdade?
Imediatamente me vejo pensando
na questão da demanda de amor. Amor (não no sentido romântico),
mas no sentido narcísico, de reconhecimento, de completude. Um
tremendo engano, uma vez que a completude narcísica é uma ilusão e
a demanda infinita. Bom, então algo sempre faltará?
A falta é constituinte, ela
funda o desejo e a questão do desejo é não ter um objeto
específico que o satisfaça plenamente. O objeto do desejo para
Freud é um objeto perdido, que desliza infinitamente numa cadeia
marcada pela falta e que continua presente como falta. Ele não
constitui algo da ordem do concreto que se oferece ao sujeito e sim
da ordem do simbólico. Antes de ascender aoplano
do simbólico o desejo se realiza no plano do imaginário
(GARCIA-ROZA, 2002).
A falta que suscita o desejo
persiste a conquista do objeto desejado e o sujeito segue desejando:
“eu me sinto tão deslocada, tenho saudade de casa, mas quando
chego, vejo que eu sinto saudade de alguma outra coisa” (Charlote).
Ao longo do filme, Charlote me
pareceu sob o efeito de “um anestésico” que fazia barreira ao
sofrimento, mas tudo que precisa ser visto e elaborado dava notícias
a cada vez que o efeito passava, “estou morta de medo e vejo uma
imagem terrível de mim mesma....eu adquiri lembranças e
experiências, mas com tudo isso, eu nem cheguei a nascer”
(Charlote).
E então, uma nova dose “de
anestésico” permitia que ela emergisse triunfante: “você
precisa ser calma, precisa e firme, controle total o tempo todo”
(Charlote).
A trama do filme me fez pensar
na relação mãe e filha. Que relação é essa? Nessas horas em que
me ponho a divagar, vou conversar com Freud. Lacan estava por perto e
acabou opinando também. Eles foram me contando que o bebe humano
nasce numa situação de desamparo tal, que necessita de um Outro que
intermedeie a relação com o objeto, que vá o inserindo na
linguagem, que decodifique as demandas que são expressas no corpo.
A mãe, enquanto função
materna, constitui o que Lacan denominou de o primeiro Outro do bebe.
O que eu sei de mim e do meu eu, vem do Outro, sendo um lugar no qual
me alieno para depois me separar.
Antes de a mãe engravidar, o
bebe já foi falado por ela, já tem um lugar que podemos chamar de
acolhimento simbólico e que se relaciona a um lugar no desejo do
Outro.
O bebe humano tem a ilusão de
completar a mãe, mas sendo uma mãe marcada pela castração, algo
sempre faltará.
O investimento da mãe na
criança passa por seu próprio narcisismo. O amor dos pais, escreveu
Freud em 1914, tão comovedor e no fundo tão infantil, não é outra
coisa senão seu narcisismo renascido, que, a despeito de sua
metamorfose em amor de objeto, manifesta inequivocamente sua natureza
anterior.
Em seguida, ainda com Freud,
pensei na questão da identificação, que constitui a forma mais
primitiva e original de laço social, que ocorre antes mesmo de
qualquer escolha sexual de objeto, havendo um esforço de moldar o
próprio eu com base naquele que foi tomado como modelo “....eu
falava o que você mandava e imitava o seu jeito...eu não me atrevia
a ser eu mesma nem quando eu estava sozinha... eu detestava tudo que
era meu” (Eva).
Pontalis afirma que não se
pode mudar de mãe, de onde vem a vontade, até mesmo a obstinação,
de mudar a mãe. Na clínica encontro algumas mulheres com um
sofrimento brutal por ficarem coladas na posição de satisfazer as
infindáveis demandas de amor do Outro: “nada que eu faça parece
estar bom para ela”, “sinto um vazio em relação a mim, não
consigo me ver, me sentir, me priorizar, vou ficando de lado”.
Mãe e filha, ampliando, eu e o
outro, que encontro! Que encontro? “Que mistura incrível de
sentimentos. Tudo é possível e tudo se faz por amor” (Eva)...
será?
Bom, interrompo aqui na
certeza de tudo o que ainda ficou por dizer, mas como bem disse, algo
sempre falta!
Sonata de Outono - trailer
Aline Elizabeth Marino Oliveira é praticante da psicanálise, psicóloga clínica, coordenadora de projetos sociais em psicoterapia na ABRAPE.
Vagas
estrelas da Ursa/ Não acreditava voltar a contemplá-las/
Cintilantes, no jardim paterno/ Nem refletir com vocês das janelas
desta morada/ Onde morei quando criança e vi findar minhas alegrias.
Versos
do poema La Ricordanze (As Lembranças) de Giácomo Leopardi, poeta
italiano, ensaísta e filósofo. ((1798-1837) inspiraram Luchino
Visconti a dar o título a este belíssimo e intenso filme.
O
filme aponta em movimento um mergulho na memória em todos os
sentidos, inclusive histórico, pois faz referência ao nazismo, á
perseguição aos judeus, daí para a tragédia grega, evocando
Electra e Oreste como, também referências ás civilizações
antigas.
Esse
duro, difícil e melancólico mergulho no passado desta família
começa em uma festa da burguesia em Genebra. Uma pequena babel.
Fala-se em francês, em inglês, alemão, italiano e etc... Um mundo
moderno e cosmopolita de um filme feito em 1965, em suntuoso preto e
branco. Sandra cuidando de tudo, como uma boa anfitriã. De repente,
seu marido Andrew, percebe, que ela ficou subitamente alheia ao que
se passava ao seu redor. Aproxima-se dela, pergunta se está tudo
bem, ela fala da música, que não gosta, ele a leva para perto do
piano. Vê-se claramente as expressões de tristeza em Sandra. Um
senhor idoso toca no piano o Preludio Coral e Fuga de Cesar Frank.
(1822-1890)
A
tragicidade da música parece conduzir a narrativa. Em vários
momentos, nos mais tensos ela é ouvida. Eu a considerei como um
personagem também.
A
festa termina, estão exaustos e preparam para a viagem do dia
seguinte.
Da
Genebra, cidade grande, para Volterra, uma pequena e milenar cidade,
parada no tempo, onde ainda há vestígios da civilização etrusca,
período pré-Império Romano, vive uma sociedade interiorana,
provinciana. O caminho é como uma mudança da cidade para o campo,
do presente para o passado.
O
casal vai de carro a Volterra,, a câmera acompanha esse trajeto do
carro por estradas, tuneis e paisagens.
Estava
sendo preparada uma homenagem ao pai de Sandra, um cientista judeu,
que morrera no campo de concentração em Auschwitz, durante a
segunda Guerra Mundial. A homenagem era uma inauguração de uma
estátua do pai, nos jardins da casa. Este pai que está sempre sendo
mencionado não aparece em nada,, até seu rosto não é mostrado,
sua estátua coberta por um pano, ele, o pai, existe apenas como
nome, função e ausência...
Andrew
e Sandra hospedam-se no palácio da família dela. Uma casa imensa,
gigantesca, onde ela nasceu e cresceu.
Sandra
entra na casa, passeia pelos cômodos, toca nos móveis, retorna ao
cenário de sua infância. Quando Fosca, a velha empregada da
família, e a única pessoa que está na casa, diz ter preparado para
ela e o marido o quarto de hóspedes. Ela prefere dormir no seu
quarto de solteira e sozinha. Trancado, o quarto da mãe permanece
intacto, como se o tempo houvesse parado, como parado está o relógio
de Eros e Psiquê que lá existe; nele, um bilhete do irmão, assim,
como quando eram crianças.
Seu
marido lê o bilhete, mostra para Sandra, ela não diz a verdade para
o marido, diz que esse bilhete estáva lá há muito tempo, mas vai
ao encontro do irmão.
No
momento em que Fosca diz que Giani, que vive em Londres, de vez em
quando, vem visitar Volterra,, Sandra nega, garante que a empregada
está enganada.
A
menção a Giani deixa Sandra assustada, quase em pânico e ao mesmo
tempo fascinada e excitada.
Sandra
faz o que Freud chamou de “A Negação”, que é um modo de tomar
conhecimento do recalcado, quando no fundo já há uma suspensão do
recalque, mas na verdade nenhuma aceitação dele” Seria então,
tomar conhecimento por suspensão, sem aceitação. (tradução de
Eduardo Vidal).”
Ela
insiste em negar seu passado, mas os desejos suprimidos, proibidos,
aparecem através do desejo incontestável de exílio de sua infância
que são capazes de ganhar a consciência. A negação como suspensão
do recalque presentifica a divisão do sujeito, neste caso Sandra
sofre, padece no campo do outro, mas sem aceitar essa sujeição. Ela
se nega como objeto, para excluir-se do campo do outro.
O
mesmo não acontece com Giani, que insiste nas lembranças e na
sedução a Sandra .demonstrando, uma estrutura talvez perversa, que
parece não residir em alguma prática incestuosa cometida na
juventude com a irmã, mas em se encapsular nesse passado e se
recusar a aceitar a nova vida de Sandra; Um passado do qual Sandra
insiste em se afastar. Giani se encontra preso neste círculo vicioso
dessas lembranças, fora das quais é incapaz de divisar um horizonte
de expectativa... Algo que não cessa de não se inscrever
Sabemos
que o que repete é o mais arcaico, e que a repetição é
característica própria da pulsão.A pulsão tende a um retorno, ao
anterior e estranho. Embora a repetição seja percebida como
estranho, é o estranho mais familiar, aquilo que de tão intimo é
tão .
Citando
Freud em ‘Além do Principio do Prazer (p52), As manifestações de
uma compulsão a repetição, que descrevemos como ocorrendo nas
primeiras atividades da vida mental infantil, bem como entre os
eventos do tratamento psicanalítico, apresentam alto grau de um
caráter pulsional e quando atuam em oposição ao princípio do
prazer, dão a aparência de alguma força “demoníaca em ação”.
E vai dar fundamento para a explicação da pulsão de morte.
Esse
movimento de repetição, de retorno quando sai do presente para o
passado se instaura, também já no início do poema, na
requisição das estrelas como interlocutoras:
O
sentimento de Giani é similar ao expresso em um verso do poema: A
Nerina! No meu peito o amor antigo reina.
A
cumplicidade entre Sandra e Giani se faz presente em uma intimidade
física, em uma dependência emocional, em um passado impronunciável
que insiste em se fazer ouvir à superfície. Os encontros entre eles
acontecem todo o tempo, sempre velados e cheios de ambiguidades.
Visconti,
talvez viu uma possibilidade de relação incestuosa entre os dois,
mas tomou o cuidado de preservar sua ambiguidade.
Quando
nos jardins da casa, aos pés da estátua do pai, Giani, encontra com
sua irmã como se encontrasse com a namorada proibida, a cena é
muito bonita. Aquele jardim mostrado em um nebuloso preto e branco,
com luzes realçando o chale branco de Sandra e o vento parecendo
querer abraçara o encontro dos dois. Esse encontro é apenas o
primeiro entre tantos, sempre escondidos mas que aos poucos vão
desvelando o mistério que envolve a família.
Uma
semelhança ao mito grego fica clara nesta cena, em que Electra ao
visitar a tumba de Agamêmnon, encontra Orestes. Sandra quer vingar a
morte do pai –da qual julga culpada a mãe e seu amante.
Uma
relação do filme com a tragédia grega, na qual Sandra seria a
Eletra, a mãe Climenestra, Giani Orestes e Gilardini, Egisto.
São aproximação e não uma transcrição da peça de Sófocles.
”Uma comodidade narrativa”, como disse o próprio Viconti.
Com
a ajuda de seu namorado na adolescência, Sandra visita a mãe,
enlouquecida, vítima de transtornos mentais. Sandra não a perdoô,
nem ao seu amante, nem as pessoas da cidade, pois acha que todos são
suspeitos de serem os delatores de seu Pai.
Andrew,
o marido de Sandra, é quem carrega os principais signos de abertura
ao futuro: por ser estrangeiro, manipula novas tecnologias –filma
Sandra em sua casa, o carro esporte–etc
Andrew
busca uma explicação lógica para tudo que é vivenciado em
Volterra, mas fica chocado com um mundo dominado pelas contradições
e paixões inexplicáveis.
Ele
procura tirar Sandra de uma ordem familiar para localizá-la em outra
posição: sair da posição de filha e irmã, para mulher e mãe.
Ela fica dividida, pede ao marido para morar em Volterra, mas ao
mesmo tempo não quer dar continuidade a certos hábitos do passado.
Quando
Giani ,revela a Sandra que deseja publicar o livro,
que conta a história da família, Sandra não aceita que o
publique, pois já há rumores a cerca da suposta relação
incestuosa que os dois mantinham quando jovens, a qual serve de tema
ao livro que ele escreveu .e que seria mais um escândalo.
Neste
momento, Giani, desesperado, dá nome ao seu livro “Vagas Estrelas
da Ursa” queima-o e em seguida, faz uma passagem ao ato. Ele sai de
cena, como atesta a própria maneira de morrer. Ele se suicida,
tomando altas doses de remédio, um salto no vazio.
Então
vemos que a destruição do livro, é também uma destruição de si
mesmo, que culmina com o fim do filme.
Um
filme sobre amor e morte, cheio de mistérios e busca da verdade, de
destruição e mitos, de encontros e separações, onde ninguém saiu
ileso.
trailer do filme
Leila de Oliveira é psicanalista, membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano- BH /MG
É com o ódio, como elemento escolhido entre várias opções, que
tentarei desenvolver a minha leitura do filme “Precisamos falar
sobre Kevin”, apoiado em Mauro Mendes Dias, Diana e Mario Corso,
Helene Deutsch, além de Freud e Lacan.
Bem... o filme começa, após a enigmática cena da cortina esvoaçando,
mostrando um espetáculo de gozo coletivo no qual se percebe a sua
potência na expressão deleitosa de Eva, carregada triunfalmente
pela multidão em plena La Tomatina. Uma bela cena da festa dos
tomates na Espanha que, mostrada de cima, pode ser confundida, por
algum instante, com o inferno de Dante. Esta cena também marca a
felicidade que Eva sente da vida livre e prazerosa que leva. Porém,
logo percebemos que se trata de uma lembrança e o tempo correto do
verbo sentir e levar é o passado... a felicidade que Eva sentia da
vida livre e prazerosa que levava. O seu presente fica explicitado
sobre a mesa na cena seguinte.
De
volta ao passado, via flashback como recurso da direção para
mostrar as recordações de
Eva, esta
vai se ver na noite que seu primogênito foi gerado e da promessa
feita de não ir mais embora. E suas recordações avançam e recuam
na linha do tempo como se procurasse algo, algum ponto específico na
história de sua vida. Em outra recordação, é mostrada a cena do
trabalho de parto e nela escutamos alguém dizer, entre gritos de
dor: “pare de resistir, Eva”. Um corte e a cena seguinte mostra o
bebê embalado no colo do pai e Eva sentada na cama, passando a
impressão pela sua expressão, na minha fantasia, que estava a
pensar: o que eu fui fazer? ou como dizem no popular: que merda eu
fiz !!!
um
parênteses aqui
Interessante
esta pergunta que muitas vezes nos fazemos principalmente quando nos
deparamos em alguma situação que, por escolha, não escolhemos.
Deixa a vida me levar é uma das opções possíveis. Teria sido o
caso de Eva?
Uma
outra hipótese que suscita é se a da força do nome bíblico Eva
(por que a autora escolheu este nome?), na Gênesis, é de alguma
maneira determinista. Está lá na Gênesis (3:16) que, após comerem
o fruto proibido, Deus determina o futuro de Eva, a mãe primeva da
Terra, com a seguinte frase: “Multiplicarei
grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz
filhos”.
Voltando
ao filme, o ato de dar à luz é, para a maioria das mulheres da
contemporaneidade (diferente das nossas avós e bisavós que tinham
9, 15, 18 filhos), um ato significante. Trata-se daquele ato que
divide a vida de uma pessoa em um antes e um depois. E no caso de
Eva, foi realmente um divisor de águas entre a mulher profissional
bem sucedida que era e a mulher mãe que vive para o filho “full
time”. Se ela já pressentia que teria que abrir mão de um desejo
caro por outro desejo não tão caro, demonstrado nas cenas durante a
gestação e na resistência presente no momento do parto, não
sabemos, apenas dá para supor.
um
aparte
Através
dos psicanalistas Diana e Mario Corso conheci Helene Deutsch, grande
psicanalista da época de Freud e autora do livro “Psicologia das
Mulheres” de 1944, que afirma haver tipos diferentes de maternidade
que basicamente se encontram em dois grupos por ela assim dividido:
um
tipo é a mulher que desperta para uma nova vida através de seu
filho, sem ter o sentimento de uma perda. Tais mulheres desenvolvem
seus encantos e sua beleza somente depois do nascimento de seu
primeiro filho; o outro tipo é a mulher que desde o princípio sente
uma espécie de despersonalização na relação com seu filho; tais
mulheres dedicam seus afetos a outros valores (erotismo, arte ou
aspirações masculinas) ou esse afeto é demasiado pobre ou
ambivalente em sua origem e não pode tolerar uma nova carga emotiva;
o primeiro tipo estende seu eu através da criança, o segundo
sente-se limitado e empobrecido.
Segundo
o casal Corso - e eu concordo com eles - “hoje, os dois tipos que
ela [Deutsch] teoriza convivem em cada mulher, junto com todas as
nuances intermediárias entre eles.”
Ao
filme... no desenrolar da película, o recurso do flashback nos ajuda
na tentativa de montagem de um quebra cabeça, cuja peça principal
parece que procuramos juntos com Eva. Qual a peça? Procuramos aquela
que, agindo como investigadores policiais, nos explique e justifique
o que foi que fez Kevin se tornar um “garoto columbine”. Temos
a sensação que Eva procura o exato ponto onde supostamente
fracassou... Por que penso isto? Porque ela aceita a culpa que a
sociedade normalmente joga nos ombros das mães, dos pais, acatando o
velho proverbio popular “bons frutos, boa árvore” no seu
inverso, concomitante à outras exigências sociais/culturais que
invadem superegoicamente de forma imperativa: uma mãe “tem” que
amar incondicionalmente seu filho. Caso não aconteça, caça as
bruxas. E olha que Eva, em momentos hercúleos, tenta ser essa mãe
com todas suas crenças, até aquela que diz que se trata de
habituação, de se acostumar.
Eva
percorre em suas lembranças a história de Kevin, através da sua,
desde o período de gestação, passando pelo nascimento e chegando até
o fatídico dia D... Ou
melhor, dia R do Real, do seu encontro com o Real ? Também recorda a
alegria não sentida como a que via nas outras gestantes no período
pré natal; o difícil e doloroso parto; os momentos de choro sem
fim, um choro desesperado para uma mãe também desesperada que só
se calava na presença de Franklin. Este me parece mais preocupado em
dar conforto não somente via bela casa e outros bens, mas também
sempre confortando a ambos, Eva e Kevin, como se fosse essa a sua
função
paterna. Franklin me dá impressão de querer viver o ideal da
propaganda da margarina todos os dias, esquecendo-se que o ideal se
encontra no patamar do inacessível, portanto do impossível. Para
quem leu o livro, Franklin se ajusta bem na denominação dada pelo
casal Diana e Mario Corso: “um pai cenário”.
Kevin
- seguindo uma linha cronológica de desenvolvimento infantil adotada
como normativa - demonstra, ou tenta demonstrar, que tem uma certa
dificuldade em operar por essa via. Assistimos, somente porque Kevin
quis mostrar, que ele só não falava porque não queria.
Simplesmente assim, ou posso apostar que se tratava de uma tentativa
em frustrar as expectativas do Outro, da mãe (que é o primeiro
Outro). Lembram da cena na qual Eva pede para ele dizer mamãe e
obtém como resposta um bem-dito ou mal-dito não? Do mesmo modo ele
reproduz no aparente descontrole dosesfíncteres
o seu total controle em decepcionar, frustrar e irritar a mãe. E a
cena que corrobora com minha aposta é da troca de fraldas... após
ser limpo por Eva ele se esforça para mostrar, novamente, seus
dejetos e a fita com um olhar meio
sarcástico.
Seria seu mundo o i-mundo como dejeto, dejeto da mãe?
E
qual a consequência, no meu entendimento, de seu acting-out, ato
endereçado ao Outro, à mãe? A passagem ao ato de Eva que o
arremessa para longe dela.
um
outro aparte
Sabemos
com Freud que um ato - desde os atos-falhos - é interpretável, pois
revela algo do desejo inconsciente. Lacan contribui fazendo a
distinção teórica do conceito de “acting-out” do conceito de
“passagem ao ato” que podemos notar, basicamente, na relação
com Outro: o “acting-out” temum
apelo ao Outro e “apassagem
ao ato” visa romper com o Outro.
Lembram,
também,
quando
a mãe tenta retornar ao seu campo de gozo, montando e decorando um
pequeno quarto com mapas de viagem nas paredes? Percebe-se o ar da
graça reaparecendo em sua face, via fantasia, fazendo o contraponto
necessário para todos nós aguentarmos a crueza da vida. (Lembro,
aqui, a famosa frase do filme Cheiro do Ralo: “a vida é dura!”).
E
o que Kevin faz? Destrói esse que se apresenta como único reduto de
prazer da mãe, que poderia ser-lhe útil como um cilindro de ar é
para o mergulhador.
Bem...
Hipóteses
brotam em abundância: é um gozo o que Kevin sente que o faz deixar
a mãe sempre insatisfeita? Mas deixar o outro insatisfeito não é
da estrutura histérica? Uma demanda de amor do tipo olhe para mim
por bem ou por mal? Há falhas gritantes na lei simbólica do pai
imaginário (aquela que barra, que interdita) fazendo com que Kevin
conheça a lei para transgredir?
Bom,
mas este “eu sei, mas mesmo assim...” (expressão cunhada por O.
Mannoni) não é uma característica da perversão como estrutura
clínica? Ou seu pai cenário é realmente só um cenário do Pai da
Lei, portanto lei esta, foracluída como nas psicoses? Bem que eu poderia optar em qualquer uma das três clássicas estruturas
clínicas para desenvolver uma leitura possível deste filme e tentar
dar uma sustentação teórica, mesmo que por alguns instantes. Mas, seria
mais ou menos como querer encaixar Kevin na famosa cama de Procusto,
principalmente se ela fosse de uma psicopatia, de um sociopata. Isto
nos daria um distanciamento reconfortante
e poderíamos dormir em paz e protegidos de nós mesmos. Afinal,
entre Kevin e nós há uma diferença abismal. Porém, nem tanto como
gostaríamos que fosse,
pois o ódio nos aproxima de Kevin (ou de Eva?) muito mais do que gostaríamos.
Como assim?
Pois
é... oódio
é muito interessante, pois
até consegue fazer com que nos odiemos por senti-lo,
como já li em algumas pichações pela cidade: “eu me odeio por
sentir ódio” e “odeio odiar”. E,
até por isto que também escolhi o ódio como via preferencial para
abordar o filme, pois deste ninguém está imune. Entretanto,
para não ficar conceitualmente preso no ódio como uma das três
paixões fundamentais do ser – amor, ódio e ignorância – de
Lacan, nem como sinônimo de “transferência negativa” na questão
sobre a dinâmica da transferência em Freud e nem na sua
metapsicologia sobre a constituição do sujeito, vou adotar os ódios
(no plural), do Mauro Mendes, como estratégia de liberdade. No meu
caso, como uma estratégia na qual me autorize errar sem culpa e
sem correr o risco odiar por isso.
Bom...
parece que o ódio é odioso e odiado nas sociedades ocidentais
como a nossa. E, com Mauro Mendes lembrando o alerta de Freud, é
importante ressaltar isto para nós, psicanalistas, de não cairmos
na armadilha de querer eliminar ou converter o ódio em amor via
intervenções forçadas, numa conduta de pasteurização do humano,
como se ódio fosse um vírus. É... O ódio também é uma
manifestação autêntica da singularidade do sujeito. E dependendo
do nosso manejo, pode se tornar uma “forma de abertura do sujeito
ao Outro”. Por isto, decidi eleger o ódio como a via “escolhida”
por Kevin para se fazer presente e reconhecido como sujeito.
Então,
sempre como hipótese, Kevin utiliza o ódio, como força motriz que
o impulsiona para o seu desejo, mas diferente de Antígona, não pela
via da destruição do Outro, no seu caso seria o Outro primordial, e
sim pela destruição de tudo que se aproxima como índices de desejo
deste Outro, da mãe. Para quê? Para viver numa espécie
de “simbiose
às avessas” (expressão emprestada de Mário Corso) com a mãe?
Para ser desejado numa plenitude, ser único como objeto de desejo da
mãe interrompendo a metonímica deste? Uma maneira de Kevin se
manter, incondicionalmente, ligado a mãe e a mãe a ele?
E
não penso o ódio aqui como uma paixão do Ser, de acordo com as
três paixões fundamentais de Lacan, pois não reconheço em Kevin
um cego apaixonado na versão “cego pelo ódio”. De acordo com
Mauro Mendes, essa paixão do Ser de Lacan é caracterizada pela
suspensão provisória da barra que separa o significante do
significado, porque, uma vez suspensa, “o sujeito não tem mais
referência
de impossibilidade; ao contrário, os significantes da paixão
determinam uma relação de superposição com o significado.” E,
ainda com o autor, é justamente essa “provisoriedade” na
suspensão que diferencia a paixão – visto que é chama - da
psicose.
A
minha aposta no filme vai aqui no ódio como fator na constituição
do sujeito, ou melhor, desde a constituição do psiquismo –
de acordo com Mauro Mendes - pois este, o ódio, se confunde com a
“dimensão do desprazer”.
Segundo
o autor, “o ódio está antes do sujeito porque ele se inscreve
nessa condição do Outro ser castrado”. E é daí que vem a
impossibilidade do Outro primordial, a mãe, em atender todas
demandas e necessidades de seu bebê. E aqui minha aposta ganha
apoio, visto que, se o ódio confunde-se com a frustração na
obtenção do prazer, na dimensão do desprazer, e esta tem “íntima
relação com o tipo de presença do não no desejo da mãe”, nas
palavras de M.Mendes, há um grande indício, através do mal-estar
demonstrado por Eva desde a gestação, de quão pouco o seu desejo
está tomado pelo filho, do quantum que Kevin ocupa de não no seu
desejo, na minha leitura.
E tem a questão do exterior no comparecimento do ódio no
sujeito, na sua constituição, via o que Freud chamou de desprazer,
pois esse vem de fora do sujeito, vem pelo Outro primordial (que
barra nossas demandas). Então, aí, exterior e desprazer se
confundem.
Ainda com Mauro Mendes, essa condição de primeira exterioridade é simultânea
ao surgimento do ódio. E, ao mesmo tempo, este exterior me é
íntimo, visto que há um Outro que se confunde comigo e que,
concomitante, determina a minha existência. Portanto, “esse Outro
está, ao mesmo tempo, no exterior, estabelecendo o funcionamento do
que me é íntimo”. De acordo com o autor de Os
Ódios: clínica e política do psicanalista,
esta relação na qual o “exterior é íntimo” é o que Lacan
chama de “extimidade”.
De
volta ao filme... Eva ao remessar seu primogênito percebe, após a
queda, que Kevin sofre uma fratura acho que exposta, não importa. O
que importa é como ele se utiliza disso para capturar a mãe sob o
pretexto de protegê-la, além de marcar o início de uma
cumplicidade via ódio. Ou sua intenção era realmente protegê-la?
E
foi com esta grande encenação, lá no hospital, que Kevin
percebe-se como grande ator do seu pequeno teatro. Interessante,
também, que “odéon”, que vem da etimologia da palavra ódio -
odeum
no
grego (odium
no latim) - significa exatamente isso: pequeno teatro grego cuja
presença do ódio nas peças encenadas era frequente.
Kevin,
retornando ao filme, após alguns momentos inéditos de harmonia com
sua mãe na leitura das aventuras de Robin Hood – aquele que tira
dos que possuem algo valoroso para dar para os que não possuem –
adota o arco e flechacomo
fiel companheiro.
E este será o escolhido, anos mais tarde, como seu instrumento no
grand
finale
do seu teatro trágico. Kevin, o filho de Eva Katchadourian,
carrega o nome armênio da mãe - 'ian' sufixo de identidade das
famílias armênias, significa pertencente à família - e não o
nome do pai. E antes do seu grande momento chegar, ele treina
continuamente com seu arco para atingir seus alvos, de preferência
os que são, ou poderiam ser, objetos parciais de satisfação,
também
parcial,
da mãe.
Então,
no dia do seu 16º aniversário, Kevin se apresenta para aquele que
seria o grande espetáculo de sua vida, finalizando-o numa grande
apoteose. Massacre e destruição dos que ocuparam, um dia, o lugar
de objeto de desejo de outras mães. Ao mesmo tempo destrói,
supostamente, os últimos vestígios de desejo da sua mãe,
atingindo-a até na sua identidade como sobrevivente do Holocausto
Armênio, pois o herdeiro de seu nome agora se tornara o algoz no
genocídio do colégio. Porém, antes disso tudo, dispara suas
flechas mortais destruindo a irmã e o pai.
O
primogênito de Eva é preso e ela condenada a ser somente, daquele
dia em diante, a mãe do Kevin, a mãe do assassino. Por fim, parece
que Kevin se dá conta que conseguiu capturar a mãe só para ele. Mas não o que "perdura de uma perda pura"?
Comentário apresentado no "Filmes da Psicanálise" do CEP em 09 de agosto de 2013, São Paulo.
A Retomada do Cinema Brasileiro : 3º capítulo da mini-série
deChristian Ingo Lenz Dunker
Podemos dizer que o Brasil pós-inflacionário gestou um
novo tipo social, que o cinema soube captar antes de sua consagração
sociológica, a saber, o batalhador, ou a nova classe trabalhadora.
Segundo Jessé Souza1,
este novo tipo social se caracterizaria pela inclinação
para a auto-superação. Retenhamos o nome
escolhido para designar este movimento maciço de ascensão
social: batalhador, o
que nos remete à retórica da guerra e do confronto diário e
continuado, cujo resultado é obtido por meio de ação planejada. O
batalhador possui elevado senso de sacrifício para projeção dos
filhos e para a ascensão, condição necessária para a disciplina
de poupança e economia integrada a uma visão negocial da vida capaz
de gerar um senso permanente de orientação para o futuro. Esta
disposição ascética requer uma orientação para bens de consumo
superiores, uma qualificação dos atos de consumo que implica em
adiamento da satisfação como virtude. A importância atribuída à
aprendizagem pela experiência e sua transmissão as descendentes e
aos membros da comunidade estendida reforça o senso de solidariedade
e lealdade com o passado assim como consolida a família como unidade
de produção compartilhada. Inversamente a família organiza-se me
torno da construção de uma imagem positiva, da disposição para
fazer-se de exemplo e para reconhecer a importância do exemplo. Mas
não se trata de uma família hierarquizada ou centralizada em torno
da figura ou das expectativas que recairiam sobre o pai. Como lugar
de convergência entre o poder econômico e a força moral. A família
é antes uma unidade de produção e um laço regido por trocas e
divisões de esforços e favores, ou seja, é o que Lacan chamaria de
discurso do mestre o que faz a função de distribuir posições e
dívidas.
Entre a posição dos novos batalhadores temos de um
lado a antiga classe média que vive momentos de insegurança
crescente, não apenas do fantasma da proletarização, mas também
da crise que demanda novos esforços de identificação. Do outro
lado encontramos o significativo contingente de miseráveis que
passam a integrar a posição do que Jessé de Souza chamou de
“ralé”, ou seja, que consegue se incluir em padrões mínimos de
consumo e cidadania. O batalhador exprime assim uma nova modalidade
subjetivação na qual o trabalho adquire uma centralidade inovadora.
Sua própria existência questiona a posição daqueles que obtém e
exibem signos de status social, sem que possam apresentar as
credenciais de sua obtenção por meios dotados de valor. No espaço
de 20 anos o Brasil aprendeu que é preciso justificar a riqueza e
que a ascensão social destituída de uma história que a legitime
pode ser tão suspeita ou condenável quanto a exclusão e a
invisibilidade.
Disso infere-se, em escala invertida, novas narrativas
de sofrimento e novos tipos de sintomas, inicialmente caracterizada
pelo exagero ou pela suspensão das disposições psíquicas
associadas a tal forma de vida. De fato é o que ocorre quando
encontramos a desarticulação da gramática do sacrifício, ou seja,
da violação do pacto subjetivo, expressa nas atitudes de cinismo,
de excesso de instrumentalização das relações, de corrupção,
trapaça, suspeição da fidelidade com relação às origens. Aqui a
violência cumprirá um papel restitutivo, assumindo uma função
trágica de lembrança e de retorno. O temor de que aquilo que se
adquiriu com muita disciplina, mas não sem o concurso da fortuna,
pode igualmente ser perdido, mostra-se em uma permanente crítica de
si e de prevenção diante das ilações desejantes que podem
arrastar o sujeito para uma “vida de dissipações”. A dívida
simbólica torna-se assim uma dívida impagável, sendo seu
incremento e reposição, parte da filiação que se espera do
batalhador. Gratidão sem fim, privações auto-impostas, masoquismo
moral, são efeitos clínicos desta espécie de gramática do
sacrifício que se torna a mímese perfeita das estratégias de
reconhecimento e de demanda.
Durval Discos
O segundo tipo de temor que colide com as aspirações
do batalhador ou da nova classe média brasileira são as patologias
do consumo e sua inevitável associação com a aparição de um
objeto intrusivo, seja ele a droga, as más companhias, ou tudo
aquilo que desvia e retira o sujeito de seus valores de origem, de
seu compromisso com o futuro, de sua comunidade de destino. Adições
e acumulações, recusa ou excesso de consumo, exibicionismo, nos
colocariam na trilha de uma violência cuja função é segregativa,
ou seja, ela não reequilibra narrativamente um desvio das virtudes
mas exclui ou inclui comunidades e modos de satisfação.
A terceira forma típica de sofrimento inferida da
narrativa ascendente do batalhador brasileiro baseia-se no trabalho
de articulação simbólica entre suas origens e sua atual posição
social. Uma ascensão baseada no esforço coletivo, na ajuda mútua,
nos laços de produção familiares ou comunitários, muitas vezes
reforçado por comunhão religiosa e moral, requer uma ampla
articulação histórica de sua própria forma de vida. Neste
contexto a desregulação sistêmica, pode colocar em risco a
unidade, coerência e congruência entre valores de origem e valores
que triunfam ao final do percurso ascensional. É a insegurança
sistêmica de que assim como o “triunfo” se colocou por vias e
regras que não se sabe esclarecer, um grande fracasso e um retorno
podem ocorrer a qualquer momento. Há um tipo de depressão ansiosa
que se desenvolve facilmente neste contexto. O esforço para sonhar,
desejar e imaginar novos futuros possíveis depende da consolidação
simbólica das realizações passadas. A ausência desta articulação
pode se apresentar como o sentimento permanente de uma “vida
postiça” ou de um empuxo à performática social. Aqui a violência
assume o aspecto de fantasia de punição ou de imagens masoquistas,
A quarta narrativa do sofrimento, característica do
Brasil pós-inflacionário, refere-se às patologias da imagem de si.
Isso pode se apresentar sob forma de reificação de uma forma de
vida cujo protótipo são as figuras da adolescência: indeterminação
de destinos, crise permanente da identidade de si, sentimento de
inadequação do corpo próprio, orientação sexual-amorosa baseada
na experimentação. Aqui é a narrativa da perda da alma, e das
estratégias de recuperação que ganha relevo. A violência assume a
figura da demanda de reconhecimento. Os tempos articulatórios da
demanda: o pedido, a recusa, o objeto oferecido e a negação,
encontram-se dispersos e por vezes desarticulados. Isso explicaria os
fenômenos secundários da erotização da infância e das práticas
de controle e descontrole alimentar (anorexia, bulimia, vigorexia).
A ideia de uma nova forma de violação do pacto social
aparece em Boca do Lixo de Eduardo Coutinho (1992). Aqui vemos
a violência silenciosa, baseada na ruptura da conexão ideológica
entre pobreza-violência ser deslocada para a narrativa da violação
do pacto entre ricos e pobres, lido agora na chave das patologias do
consumo. A rarefação de ideais, torna-se um problema maior do que a
oposição entre estética ou cosmética da fome. O estudo sobre a
população que vive e se reproduz em torno do lixo encontra sua
apoteose na cena final na qual a massa se percebe no pequeno monitor
de televisão posicionado em cima de uma Kombi da produção, ao som
de uma romântica balada que reproduz um sucesso musical
americanizado. Vidas em situação de precariedade, na qual pequenos
sonhos e a capacidade de imaginar um futuro melhor aparecem como
despropósitos desmentidos pelo documentário. Vidas que retratam a
ordem e o caráter sistemático em uma situação à qual supõe-se
anomia e efeitos radicais da exclusão. Percebe-se então diferenças
até então irrelevantes, entre aquele que pertence à ralé e o que
pode emergir como batalhador. Diferença tão sutil como perder ou
manter os dentes da frente, possuir ou não uma carroça para catar
papelão, ter um endereço para receber entregas ou um telefone para
se definir a partir de um “lugar”.
É a dificuldade de sonhar, desejar e imaginar futuros
possíveis que se encontra também em Carlota Joaquina - Princesa
do Brasil de Carla Camurati (1995) que aponta como a
desarticulação da gramática do sacrifício leva ao cinismo, ao
excesso de instrumentalização das relações e á lógica da
indiferença. Encontramos aqui a matriz reversa da inveja como
capacidade articular atos de indiferença social ao outro, que se
mostrará fortemente presente na reação das classes médias ao
forte movimento de ascensão da ralé à pobreza e da pobreza à
condição de batalhadores bem sucedidos. A “retomada” do sentido
da aristocracia mostra-se assim um movimento defensivo ao grupo que
terá seu padrão de subjetivação baseado no consumo ameaçado pela
generalização do consumo para as classes sociais ascendentes.
Outro filme que aborda a desarticulação da gramática
do pacto-sacrifício é Guerra de Canudos de Sérgio Rezende
(1997). Novamente encontramos aqui o tema da violência em nome da
supressão da violência, o cinismo das lideranças como origem do
ressentimento social. A hipótese de Euclides da Cunha de que o
Brasil se tornaria um país viável na medida em que formas de vida,
presentes no homem litorâneo, conseguissem se articular com o
sertanejo do interior, reaparece agora tematizando a guerra como
paradigma na “resposta exagerada”. Contra a hipótese de Antonio
Conselheiro, de que um novo mundo seria possível, insurge-se uma
espécie de aniquilação engendrada pelas forças da união. Temos
aqui um exemplo da alternância entre a narrativa do objeto
intrusivo, a comunidade de Canudos, e a violação do pacto, entre
Estado e sociedade civil. Ocorre que neste lugar sem Estado a
auto-organização é sentida como violação de um pacto, de outra
forma quase inexistente.
Cronicamente Inviável
Também se encontrará esta ligação em Cronicamente
Inviável de Sérgio Bianchi (2000). A fixação masoquista ao
sacrifício, a interiorização como defesa ao sentimento de
isolamento são novamente endereçados à gênese do ressentimento
social. É, por exemplo, o caso da cena no qual o trabalhador volta
para casa em seu ônibus lotado, mas em recuo introspectivo, medita
sobre as condições da troca social a que está exposto pelas regras
do trabalho em uma cidade como São Paulo. Sua meditação é
interrompida pelo carro de uma mulher que enguiça a frente do
ônibus. O motorista buzina e pede passagem, o que é saudado pelos
que estão no ônibus. Contudo, em plena avenida Paulista o que se vê
é uma jovem senhora de classe média sair aos brados de seu carro e
proferir impropérios ao motorista, exacerbando sua “força de
classe”, representante pelo carro contra o ônibus que ela está a
atravancar. O motorista se cala, a população bate palmas, a
violência do condutor fora enfim contida e sobrepujada pela reação
excessiva, exagerada e simbólica levada a cabo pela madame. Temos
aqui os traços característicos da narrativa da alienação como
perda da alma: interiorização, humilhação, exercício conspícuo
do poder, intimidação.
Abril Despedaçado, de Walter Salles Jr. (2001) é
outro caso de desarticulação da gramática do sacrifício e do
pacto. Aqui a violência do agreste, dá suporte à narrativa da
vingança como forma atrasada e equívoca de solução para a tensão
social. Mesmo que o tema seja as relações históricas de vingança
entre famílias rivais no agreste brasileiro, o mal-estar está
presente e transpira como uma alegoria. É o relógio que marca a
hora da vingança, do inexorável ajuste de contas, mas que já é
sentido como anacrônico, e fora de hora. Ou seja, a mais tradicional
e instituída das formas de violência no interior do Brasil profundo
mostra-se anacrônica, excessiva, fora de hora. Mais do que uma
típica aventura de inversão e reequilibração o filme aborda o
cansaço e a impotência da vingança promovida fora de um universo
onde a honra é um valor de fato, fundamental. A vingança não está
a cargo de um ajuste de contas ascensional com o futuro ou com um ato
de liberação simbólica para com o passado, mas é uma vingança
que trabalha fora do tempo.
A narrativa do objeto intrusivo aparece em Ação
entre Amigos de Beto Brandt (1998) e Que é isso Companheiro,
de Bruno Barreto (1997) corrupção, trapaça, e suspenção de
relações de fidelidade determinam ressentimento social como
incapacidade de luto. Já em O Invasor, de Beto Brant (2001)
vemos o problema do objeto intrusivo induzindo uma situação de
anomia decorrente do excesso de instrumentalização das relações.
Paulo Miklos, ex Titãs, é contratado para eliminar um dos sócios
de uma construtora. Feito o ”serviço” ele reaparece na empresa,
se faz introduzir na casa dos outros sócios, aproxima-se da filha de
um deles, enfim, mostra uma situação na qual os muros e cercas,
invisíveis, são ultrapassados produzindo um sentimento de
insegurança que não decorre da potencial violência do “invasor”,
mas de que seu agente aparece de forma visível e fora de controle.
Outro exemplo desta forma de sofrimento cuja gramática
baseia-se na aparição de um objeto intrusivo é Carandiru,
de Hector Babenco (2003), no qual o universo fechado da prisão
coloca-se como um comentário ao massacre de 1992. Aqui
a crise de sentido no interior da ordem sistêmica prisional,
associada com a sempre disponível hipótese do declínio da imago
paterna, com sua retórica da impunidade e do medo, dão margem à
reconstrução, violenta e insensata, do universo da lei. Esta
abordagem do massacre dos 111 presos do Carandiru é ótimo exemplo
de como vidas comuns, com seus desencontros comuns, são compactadas
e destruídas pela uniformidade da hipótese de a-violência.
Hipótese pseudo-democrática de que diante de a-violência seríamos
todos iguais. O filme é a primeira tentativa de interpretar a
violência nascente segundo sua própria lógica.
Observe-se
como em todos os casos subsequentes temos a intrusão de um olhar
deslocado: o menino de classe média que se envolve com o tráfico
emCidade
de Deus,
o médico de presídio em Carandiru,
e o matador que passa a participar, como um intruso, na vida de seus
contratantes emO
invasor.
Nos três casos há uma espécie de prazer ou de flerte hesitante em
conhecer as raízes do excluído social. A fascinação exercida pela
alteridade interna, mas distante, dá lugar ao horror e angústia
quando reconhecemos sua proximidade. Não creio que nesta gramática
se trate apenas de humanização do excluído, mas, como afirmou a
crítica literária Maria Elisa Cevasco (2003), de filmes que “usam
a linguagem da mercadoria, da propaganda, para falar da realidade de
quem está excluído do consumo”2.
Temos assim
um erotismo produzido no olhar do espectador a partir de uma posição
deslocada. Erotismo que não se reconhece como tal, e encontra como
substitutivo a violência. Situação simétrica verifica-se no caso
da jovem esposa, algo entediada com seu marido, que recebe da vizinha
uma receita para “aditivar” suas relações: a introdução de
uma banana no seio da vida erótica do casal. A resposta do marido
vem em ato: ele mata sua própria esposa, intuindo que a invenção
de tal prática só poderia advir de um relacionamento
extra-conjugal. Vê-se bem aqui como a violência emerge no lugar do
erotismo suprimido. Demonstração do equívoco de Reich. A sociedade
de indivíduos dóceis, apáticos... “bananas” (para voltar ao
assunto) não é apenas efeito da repressão do erotismo, mas de um
erotismo que suporta mal as oscilações da fantasia que o sustenta.
Um erotismo desguarnecido contra a aparição de um objeto intrusivo
e em permanente precariedade do pacto amoroso.
Abril Despedaçado
Muito se tem criticadoCarandirupor
colocar em primeiro plano a imagem midiática de Rodrigo Santoro no
papel do travesti “Lady Di”,
em franco contraste com os outros personagens do filme, que são
figurados como pessoas comuns. Nisso se esquece que tal personagem só
adquire realmente consistência a partir de seu envolvimento com “Sem
Chance”, um mirrado representante gabiru,
de quem se esperaria um erotismo convencional. Trata-se de mais um
encontro inesperado. O contraste entre a bela exuberância do
primeiro com a minguada estética do segundo testemunha uma espécie
de miscigenação estética que alimenta uma nova forma de erotismo,
estritamente distante e corrosiva diante do ideal hegemônico.
A narrativa da anomia, da perda da unidade sistêmica, e
da desarticulação entre meios e fins, entre agente e outro, aparece
em Durval Discos, de Anna Muylaert (2002) e Edifício
Master de Eduardo Coutinho (2002). A dificuldade de articulação
histórica de sua própria forma de vida (desregulação sistêmica)
aparece pela via da depressão, da espetacularização da vida
cotidiana e do declínio do erotismo. Não falta a redução da
extensão da narrativa amorosa. É o que vemos na personagem
depressiva de Edifício Master que não consegue de fato desenvolver
uma narrativa amorosa quando é instada a tal. Em vez disso emerge um
palavreado inautêntico, uma alienação espantosa quanto ao que
seria uma experiência com o outro, sem que ao final se consiga
dirimir uma relação exata que se encadeia nas experiências
amorosas, mesmo em suas decepções e infortúnios.
Finalmente, Cidade de Deus de Fernando Meirelles
(2002) e A Dona da História (2004) de Daniel Filho, inscrevem-se
sob a narrativa da perda da alma. Temos aqui o corte etário bem
definido na construção do sofrimento de época: a reificação da
adolescência, a erotização da infância, a reinvenção da mulher
de meia idade e a banalização do homem incapaz de fazer frente à
sua própria posição. São narrativas cuja enunciação permanente,
e fronteiriçamente depressiva, é: “em nome de que?”.
Tanto no caso do envolvimento de jovens de classe média com o crime,
ou do adolescente que mora no morro com a arte do jornalismo e da
fotografia, ou da senhora que questiona o tipo de realização que
ela teria levado a cabo em seu casamento “feliz”, o ponto do
vista do filme é retrospectivo, quase memorialístico, apesar da
alta densidade de ação. Tanto no drama dos morros quanto no seu
homólogo Zona Sul, os personagens padecem de um sofrimento de
determinação, invertendo aqui a expressão original de Axel
Honneth (sofrimento de indeterminação). Não que ambos vivam em um
mundo demasiadamente organizado, pelo contrário os cenários são
anômicos, violentos e corrosivos, mas em meio ao caos e a vida em
estrutura de guerra e condomínio, vigora perda do sentimento de
liberdade, de rarefação da densidade da vida, de irrelevância da
experiência de si. Esta ligação entre alienação da alma e
desreguração sistêmica pareciam preparar o sucesso vindouro de
Tropa de Elite 1 (2007) e 2 (2010) de José Padilha.
Ora, o que esta aparição transversal da violência
mostra é no fundo sua capacidade de articular a fantasia social por
meio da variação de incidências do que Lacan chamou de objeto a.
Ora, o objeto a pode ser tanto o elemento indiscernível que é
causa do desejo e de sua alienação, para um sujeito, como este
elemento excessivo que surge intrusivamente, misturando fronteiras e
limites. O objeto a, pode ser tanto o elemento desagregador na
relação entre as partes e o todo, quanto o traço que por sua
repetição dá consistência à lei, unidade a uma série, causa
instituinte e transgressiva de uma forma de vida. Temos então que as
narrativas convergentes sobre a perda da alma, sobre o objeto
intrusivo, sobre a desregulação do sistema ou sobre a violação do
pacto, presentes no cinema da retomada, são articulações
estruturais da nomeação do mal-estar como “a-violência”. Isso
nos ajudaria a entender porque o esforço de teorização dos
chamados novos sintomas, ou novas patologias, amplamente enfrentado
pela psicanálise brasileira dos anos 2000, rendeu pouco em termos da
articulação entre as diferentes modalidades de sintoma. Entre o
mal-estar, genérico derivado das transformações sociais inspiradas
pelo capitalismo tardio, e os sintomas específicos como a
drogadição, a depressão, o pânico e a anorexia, é preciso pensar
o plano intermediário das narrativas sociais do sofrimento. Sem elas
as conexões e correlações entre sintomas aparecerão de modo
isolado, como contingências individuais.
É fácil perceber que a ascensão do discurso sobre as
drogas, assim como todas as outras patologias do consumo, como a
anorexia, a bulimia e vigorexia, são variantes da narrativa do
objeto intrusivo, percebido como vorazmente perigoso justamente em um
universo social que se abre como nunca às perspectivas de definição
de si por meio de atos de consumo. Inversamente o espectro de
sintomas em torno da depressão mostra-se dependente da narrativa da
perda da alma e da alienação do desejo. Os sintomas em torno a
ansiedade e do pânico, tais como o medo de lugares abertos, a
vertigem diante de multidões ou de lugares estranhos exprimem a
perda da experiência de unidade corporal em homologia com narrativas
sobre a perda ou sobre o excesso de organização sistêmica do
mundo. Finalmente, os sintomas em torno de formas disruptivas do
narcisismo, que vão do espectro bipolar aos desajustes de
hiperatividade até o sentimento de inadequação, dependem
estruturalmente de narrativas em torno da patologia do pacto, ou do
laço de discurso, com o outro.
1-
Souza,
J. (2004), “A gramática social da desigualdade brasileira”.
Revista Brasileira de Ciências Sociais, 19 (54): 79-96.
2-
CEVASCO,
M.E. (23/05/2003). Estudos culturais à brasileira. Folha
de São Paulo –
Mais.
Christian Dunker é Psicanalista, Professor Livre Docente do Depto de Psicologia Clínica-IPUSP, Analista Membro de Escola da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental, Doutorado (IPUSP) e Pós-Doutorado pela Manchester Metropolitan University (UK). Autor de vários livros, entre eles o vencedor do Prêmio Jabuti 2012: “Estrutura e constituição da clínica psicanalítica: uma arqueologia das práticas de cura, psicoterapia e tratamento” (ed. Annablume, 2011)