sábado, 23 de julho de 2011

LUZ

por Agenor Maciel Lemos Jr

Doa-me teus olhos
Sensibiliza
Toteifico teu corpo
Reverencio tua existência
cuja essência criei.
Torno-me existencialista
Liberto o animal antropófago
que existe em ti
Alio-me a Perseu
e juntos eliminamos a Medusa
de asas de ouro.
Retiro Narciso do lago cristalino
Devolvo palavras à Eco
que hoje declara poesias de amor
no jardim de Hespérides.
Condeno Procusto à prisão perpétua
Liberto Sísifo do seu trabalho braçal
Tatuo no braço Lemniscata
o símbolo do infinito
Brindo a vida com Bacco.
Transcendo.
Ectoplasmando luz!

Agenor Maciel de Lemos Jr é psicólogo clínico, acupunturista e poeta.

domingo, 10 de julho de 2011

Cisne Negro

um olhar de
Henrique Senhorini


O filme do diretor Darren Aronofsky – o mesmo de outras películas não menos provocantes como Réquiem de Um Sonho e O Lutador vem ao encontro a uma das variantes da proposta deste blog na sua apresentação pessoal: tentar compreender o que a priori se mostra como contrário, mas, no caminhar, apresenta-se como complemento.

Este inquietante thriller psicológico, logo de início, mostra o sonho de Nina dançando o prólogo - quando há o feitiço - do Lago dos Cisnes e, em seguida, revela sua expressão de prazer ao acordar. Estaria esse diretor nos provocando mais uma vez, apontando - de imediato - um índice de desejo da protagonista?
Nina é a garotinha de 28 anos da mamãe Erica. Virgem, pura, doce, meiga, inocente, reprimida e obediente (para não dizer submissa), cuja a vida parece estar direcionada a satisfazer o desejo da mãe.
Afinal de contas, esta sacrificou seu desejo em seguir a carreira de bailarina profissional em prol da filha. Portanto, nada mais justo em recalcar, reprimir sua sexualidade, suas vontades, sonhos e desejos, para agradar a dedicada mãe. Nina nem se permite pensar em ser ela mesma. Seria uma ingratidão. E ingratidão não faz parte do repertório de uma boa moça, muito menos reivindicar algo para si que seja contrário a vontade da mãe. Que egoísta. Onde já se viu?
Acontece que isso tem um preço e Nina começa a pagar a conta através do próprio corpo. Está nas costas dela a marca da dívida por aceitar ser a suposta completude do Outro. Mas, este pagamento efetuado é somente o mínimo da fatura do cartão de crédito de Nina, que já dá sinais que está estourando o limite.
No balé, ela segue sua rotina obsessiva em chegar a perfeição - e ser reconhecida - pois há uma competição em andamento para ocupar o lugar de primeira bailarina que logo ficará vago.
Quem será escolhida para ser a número 1, a Rainha dos Cisnes ?
Todos fazem os exercício rotineiros, quando – olhando lá de cima – aparece a figura do “poderoso” diretor artístico observando a todos, o que provoca um certo desconforto, uma inquietação em Nina.
Leroy - diretor onipotente - é aquele que decide quem morrerá e quem viverá no Ballet da Cidade de Nova York, sem dúvida.

Seria ele um dos Nomes-do-Pai ???

Aqui, abro um parêntese
Em Lacan, a noção de Pai vai além. Não necessariamente coincide com o pai biológico e sim com aquele que exerce uma função, a Função Paterna. Como Nome-do-Pai (no singular) é o que dá sustentação da ordem simbólica, o representante da Lei Simbólica e o portador da interdição. É o que quebra a relação dual mãe-bebê 'situando-se' como terceiro. Também, o Nome-do-Pai se desdobra em tantos nomes quantos forem os que fazem suplência à sua função.
Fecho parêntese

É, através de seu convite – de Leroy – que entra em cena Lilly, a bailarina que vem de fora, a estranha, a “estrangeira” de São Francisco - California.
Sua presença, sua aparência, seu jeito de ser e de se mostrar causa, em Nina, uma “sensação de familiaridade e estranheza” (Freud), algo que lhe é ao mesmo tempo estranho e familiar. Trata-se do encontro de Nina com seu duplo?

Aqui, abro mais um parêntese
Otto Rank - em 1914 - foi o primeiro a desenvolver a noção do duplo no campo da psicanálise, mas, essa questão já aparece nas artes cênicas e literárias desde a Grécia antiga, passando por Shakespeare, Molière e vários outros. Provavelmente, a mais conhecida seja “O médico e o monstro”. Em 1919, Freud retoma esse tema integrado na noção de “inquietante estranheza”, essa “variedade particular do pavoroso que remonta para além que é desde há muito tempo conhecido, desde há muito tempo familiar”, mas que se tornou pavoroso porque corresponde a algo recalcado por normas sociais moralistas e puritanas que retornou. Portanto, é tudo o que deveria permanecer secreto, escondido, recalcado no inconsciente e que vem à tona se manifestar, até mesmo contra nossa vontade consciente.
Mora em nós um outro que não se esquece da nossa verdade.” Rubem Alves
Fecho parêntese

Nina é perfeita no papel do cisne branco, mas, um fiasco no e do cisne negro.
O diretor insiste para ela se soltar, se libertar da rigidez para que a emoção e o tesão apareça. Com voz imperativa diz: vá se masturbar !
Ela tem ciência que caso não consiga fazer o cisne negro do jeito esperado, Lilly – sua reserva imediata – estará pronta para tomar seu lugar. Para isso não acontecer, resolve experimentar o que diretor mandou fazer. Mal sabia Leroy que, com sua ordem, estaria abrindo a caixa de Pandora. No mínimo, ajudando.
A partir disso, assistimos o que estava represado em Nina romper de forma abrupta as leis morais impostas e internalizadas. Sua sexualidade, suas posições frente a vida, suas verdades e seus demônios, seu lado obscuro, sombrio e sinistro, seus desejos inconscientes emergem avassaladoramente.
Tudo que mamãe adoraria reprovar.
Mas, durante um ensaio, num exercício solo frente ao espelho, ela desdobra-se especularmente. Ela se enxerga duplicada, porém diferente.
Algo está acontecendo em Nina, ou melhor, já aconteceu. Alucinações, delírios persecutórios, despedaçamento do corpo, mimetismo morfológico (penas e membranas de aves surgem nela)...um verdadeiro “pout-pourri” de manifestações psicóticas.
Ah, esses espelhos....protótipos do registro do imaginário.

outro parênteses
A hipótese ligando a paranoia de autopunição e a imagem especular foi introduzido por Lacan com o caso Aimée em 1932, seguido das irmãs Papin em 1933. O paranoico pode se desdobrar especularmente e até falar com seu duplo. Não rara, nesses casos, há uma tendência do paranoico de quebrar espelhos e vidraças quando esses lhe mostram seu duplo, ou melhor, o duplo do seu eu. Esta tese de 1932 antecede o famoso “O Estádio do Espelho”.

É chegado o grande dia da estréia e nada deteria Nina de subir naquele palco.... Muito menos sua mãe Erica, que nunca saiu do lago. Com essas palavras, direcionadas a mãe, Nina mostra toda sua determinação em realizar seu desejo de ser a mais perfeita Rainha dos Cisnes. Quanto vai lhe custar isso?
Veremos a seguir.

Um aparte
Há um provérbio judaico que diz: “Cuidado com o que desejas, pois poderá ser atendido.”

Abrem as cortinas e inicia-se o fim.
O cisne branco se apresenta para o público. Todos tinham a certeza que fazer o cisne branco não seria um problema para Nina...não seria, mas foi. Ela tropeça na fala (na dança) deixando escapar o que estaria advir em si.... o cisne negro.
No intervalo que precede o terceiro ato, Nina vai ao camarim para se transformar em cisne negro, no caso o personagem. Porém, chegando lá ela se depara com seu duplo - no imaginário – e trava uma batalha feroz...Nina vence e pensando que feriu (com a ponta do espelho despedaçado) de morte sua rival Lilly, retorna ao palco vitoriosa como Odine, o negro cisne. Seus olhos cor de sangue, penas brotando em seus braços florindo suas asas negras, dançando como se fizesse sexo selvagem mirando os olhos materno e, por fim, o gozo estampado em sua face. O público enlouquecido (?) com a “performance” bate palmas com vontade. Intervalo...
Nina se dá conta que está ferida e – pior que isso – que foi ela mesma que se feriu, feriu de morte.

Último parenteses
O que houve? Uma colisão das pulsões de Vida e Morte, de Eros e Thanatos? E ou uma auto-punição exigido por um superego cruel e tirânico? Teria sido ela enganada por seu  desejo?

Quarto e último ato: O cisne branco, Odette, com a dor que sente em perder o amado, morre. Uma trágica morte de amor.
Mas, Nina está feliz, reluzente e - mesmo experimentando a aproximação da morte - diz com voz embargada:
- Eu me sinto perfeita. Foi perfeito.
Afinal, ela realizou o seu desejo?

domingo, 12 de junho de 2011

Solução é a solidão de nós *

Obra de
Reginaldo Lima



  A simbolização da ausência é o que nos permite
suportar a angústia de solidão.  Françoise Dolto

Reginaldo Lima é artista fotográfico formado em Comunicação para Internet pela Universidade Paulista - UNIP e em fotografia pela Escola Panamericana de Arte e Desing. Site: http://www.reginaldolima.com.br
da música "Samba de Ir Embora Só" do Fernando Anitelli

CÉU - INFERNO

de Rodolfo Coelho

Os diferentes degraus do limbo  
bebendo cerveja
folheando revista
gogô dancers
strip-tease
the hell
holidei
os guardiões do marasmo
da ordem
dos bem-comidos
dos saciados
o mendigo
mastiga a
Roosevelt a
sua alface crua
isso é o paraíso
é o melhor que
poderia ser
Ainda bem que
eu aposto baixo
perco pouco.
Deus, neste lugar a
libido morreu
e o resto é literatura



Rodolfo Coelho, poeta urbano, é autor de seis livros:
RuAugusta com Creme – O Lobo Mau da Rua Augusta  -
Táxi e Outros Poemas Inéditos – Salada Paulista - ]gnição – Poesia 100 Filtro

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Léolo - de Jean Claude Lauzon

uma leitura psicanalítica sobre o filme
por Karin de Paula

Vou começar citando a última frase do filme: e eu repousei minha cabeça entre duas palavras no ‘l’avalée des avalés’ (assinado:) Léolo
Nesta frase estão condensados todos os elementos que quero trazer para nossa discussão sob    o tema “Psicose e Escrita”...
O filme começa com a narrativa de Léolo sobre o que dizem ser seu nome e sua nacionalidade, sua filiação...ou seja, ele”....diante do que declara: porque eu sonho, eu não o sou”

·   “porque eu sonho, eu não o sou”  é a frase de abertura do livro e “L’avalée des avalésonde, por fim, Léolo repousa entre duas palavras;
·   corpo e palavra: condição para a equação de psicose e escrita;
Poeticamente é possível admitir a idéia de “cabeça” repousada “entre palavras” e é isso que importa aqui...
·   Vamos aproximar:  poesia→Linguagem onírica →
delírio→teorias sexuais infantisteoria científica...
·   Não estaríamos fazendo outra coisa que incluir o pensamento freudiano...

com Freud:
1.   o sonho é uma psicose noturna    [...há os que não acordam...];
2.   o sonho realiza um texto
[de c.latentes→c.manifesto, há  uma escritura];
3.   ao se tornar texto, realiza a encenação de um desejo;

O filme traz também cada uma dessas referências: imagens e linguagens poéticas/oníricas/delirantes/ da sexualidade infantil/ e científica...

...então, ainda com Freud:
1.   os sonhos são fruto de um trabalho, não são plenamente um fato biológico;
2.   os sonhos são compostos por imagens (representações coisa) e por imagens acústicas (representações palavras)→ requerem as palavras;
3.   o motor dos sonhos, assim como de toda manifestação do inconsciente, é a mobilização do corpo (corpo despedaçado → sexualidade infantil→ funcionamento primário → várias ocorrências no filme  (cocô/pedaços de carne/rabo que cresce entre suas pernas/o gato), que se faz representar, que busca se inscrever, se escrever e, portanto, dependem da condição de linguagem;
4.   a palavra dá possibilidade de contorno/delimitação/representação ao corpo, à experiência de corpo.

·   Léolo tem um sonho/delírio sobre sua origem:
·   um esperma, estrangeiro sem face, fecunda sua mãe por via de um tomate “contaminado”.(teoria sexual infantil/ sonho/delírio)
·   diz ele: “DEPOIS DESTE SONHO, LÉOLO LOZONE”
·   a tentativa de inscrição de um nome próprio, que lhe renda um lugar / contorno/ delimitação;
·   Lauzon, Leo Lozon, Léolo Lozon, Léolo Lozone;
·   homofonicamente o que sobra é o “ne”;
·   estamos no/em francês: ne é nascido (corpo), ne é a partíula para a negação (nada);
·   palavra e corpo, mais uma vez.
·   onde Léolo buscou as palavras para dar-lhe contorno, possibilidade de representação de sua condição sexuada e mortal: o livro
·   onde Léolo tentou viver: nas palavras
·   onde Léolo capitulou: já sabemos. entre duas palavras de “l’avalée des avalés”...
·   o catador de versos: personagem emblemático, que catava-dor-de-versos mais emblemático se pensarmos em Ducharme, autor do livro, da frase “porque eu sonho, eu não o sou (parce que je suis, mois, je ne le suis pas...);
·   Decharme foi um personagem importante em Montreal, Quebec - Canadá - durante a “revolução tranquila”(1960-66); a figura do dompteur des vers: símile do pseudônimo de Ducharme, roch plante, artista da bricolagem,  do “assemblage”.
·   roch plante (semeador de pedras?), é aquele que procura inscrever um ethos outsider ; bricoleur, colhe materiais descartados nas cidades para realizar sua obra de assemblage, cata-dor;
·   Léolo é um autor da assemblage, Lauzon um artista dompteur de vers...
·   o termo assemblage é incorporado às artes em 1953, para fazer referência a trabalhos que  "vão além das colagens". O princípio que orienta a feitura de assemblages é a "estética da acumulação": todo e qualquer tipo de material pode ser incorporado à obra de arte. O trabalho artístico visa romper definitivamente as fronteiras entre arte e vida cotidiana; ruptura já ensaiada pelo dadaísmo. A idéia forte que ancora a assemblages diz respeito à concepção de que os objetos díspares reunidos na obra, ainda que produzam um novo conjunto, não perdem o sentido original. menos que síntese, trata-se de justaposição de elementos, em que é possível identificar cada peça no interior do conjunto mais amplo. nas artes visuais, a prática de articulação de materiais diversos numa só obra leva a esse procedimento técnico específico, que se incorpora à arte do século XX com o cubismo de Pablo Picasso (1881 - 1973). ao abrigar no espaço do quadro elementos retirados da realidade - pedaços de jornal, papéis de todo tipo, tecidos, madeiras, objetos etc. -, a colagem liberta o artista de certas limitações da superfície.
·   da mesma forma, o cata-dor de versos/vermes do filme de lauzon, passa recolhendo a dor de todos que tentam a descartar...
·   interlocutor ou duplo de Léolo/Lauzon?
·   Léolo descartava sua escrita. nunca tinha visto alguém ler ou escrever em sua casa;
·   o livro de Ducharme é o único livro;
·   o texto de Ducharme se mistura ao da narrativa de diário de Léolo/Lauzon no melhor estilo de assemblage;
·  o livro de DUCHARME, artista plástico e escritor conterrâneo de Jean Claude Lauzon, “L’avalée des avalés”/ “Os devorados pelos devoradores”, levado pelo DOMA-DOR DE VERSOS à casa de Léolo, imiscuído lá como calço de mesa da cozinha DA MÃE de Léolo, era lido e relido por Léolo, citado repetidamente no filme, com muita insistência,.
·   Vou indicar quatro passagens do filme onde podemos reconhecer o texto de DUCHARME e que me parecem bem significativas:
·  O primeiro já mencionado, é quase elemento central na construção do ritmo do filme, é a frase: Porque eu sonho, eu não o sou/estou”.
Já disse, esta frase se encontra na ABERTURA do livro de Ducharme.
·  O segundo trecho citado no filme que vou sublinhar é aquele colocado como declaração de Léolo sobre sua relação com os livros. Diz: “Não tento lembrar as coisas que ocorrem nos livros. O único que peço a um livro é que me inspire energia e valor. Que me diga que há mais vida da que posso abarcar. Que me recorde a urgência de atuar”. 
No livro de Ducharme, esta é uma fala de Berenice Einberg, personagem do L’ avalée des avalés... É interessante notar que a proposição citada indica a expectativa de que o livro o lembre –LHE FALE- de algo e não ele do livro. QUEM SERIA O SUJEITO DESTA PROPOSIÇÃO?

O sonho é uma psicose noturna/ao acordar, o sonhador se serve das palavras (recalque) para organizar, tomar distância, daquela experiência de corpo...

O NEURÓTICO ENCONTRA MEIOS PARA HABITAR NA LINGUAGEM;
O PSICÓTICO É HABITADO PELA LINGUAGEM, ELA LHE FALA! 

· Léolo declara ter decidido “tomar o caminho mais curto”,
      “que voltar dos sonhos ao cotidiano era brutal” para ele;
· Léolo tentava fazer valer a dica do CATA-DOR DE VERSOS de que que havia um segredo nas palavras colocadas juntas... mas colocou seu próprio corpo neste espaço, “repousou a cabeça entre duas palavras do L´avalée des avalés...;

Outro exemplo da pena de Ducharme no filme de Lauzon, é o trecho grifado no exemplar do livro em poder de Léolo, que é mostrado em close no filme. Este trecho é indicado por Léolo/Lauzon como o caminho do início de sua leitura, por  onde ele começará a ler este livro. É a partir da narrativa deste trecho de Ducharme que, declarando sua decisão de ler repetidamente o que fora sublinhado por outro,  mesmo não  entendendo o que quer dizer, que Léolo começa a escrever sobre sua vida/história.

Posteriormente, o mesmo trecho é incluído como narrativa do próprio Léolo, como parte de seu diário: “Só encontro momentos felizes na solidão. Minha solidão é meu palácio. Aí tenho minha cadeira, minha cama, meu vento e meu sol. Quando estou sentado fora de minha solidão, sentado no exílio, estou sentado num país enganoso”.

Se a relação de Léolo com o livro se deu, segundo ele próprio, apesar de não haver figuras, mas apenas letras sobre letras... havia um outro objeto colocado em cena de assemblage, retirado do lixo,um outro tipo de registro de sons, quebrado e guardado embora não pudesse se escutado, e justamente pela imagem que exibia: o disco/LP de Jacques Briel;
·   momento antes de léolo capitular/se render ao “ porque eu não sonho, eu sou” , a “descansar sua cabeça entre duas palavras de ‘ l´avalée des avalés’ ” , juntar-se a linhagem da loucura familiar, segundo ele fundada por seu avô, cai do livro  o pedaço de vinil que completaria a circunferência do LP. Léolo o cola, o completa.
·   não tendo como fazer frente à convocação para apresentar-se potente, corajosamente ao seu amor por uma mulher, repousa a cabeça entre duas palavras no “l´avalée des avalés”...
·   as três palavras colocadas juntas (bianca, mon amour/curiosamente as mesmas colocadas na boca do personagem da mãe quando o apertou “contra suas banhas com cheiro de suor de cheiro reconfortante”) que trazia sua amada em condição de dessideração/desejo frente à luz, se tornou sideração/ silêncio.
·   a primeira vez que viu a luz→o tesouro→ “talvez soubesse que já estava morto”.

Karin de Paula é Psicanalista, Mestre e Doutora pela PUC-SP,  Pós-doutoranda na Paris 7, professora na universidade e em curso de formação de psicanalistas. Membro fundadora do umLugar – Psicanálise e Transmissão. Autora dos livros $em – sobre a inclusão e o manejo do dinheiro numa psicanálise”, Ed. Casa do Psicólogo e Do espírito da coisa - um cálculo de graça”, Ed. Escuta.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

SÁBADO, POR QUE MESMO ???

por Rodolfo Coelho

Vi um velho
chapéu verde
sentado no muro
do sábado
olhava o sábado
de soslaio
Vi um jovem
chapéu panamá
bebendo o sábado
no ônibus
um velho de boné
será será
sincronicidade
A bailarina
escada abaixo
frango assado
na mão
E o velho verde
me olhar na janela
As rolinhas
vôo rasante
sobre o chão
sobre o sábado.

Rodolfo Coelho, poeta urbano, é autor de seis livros:
RuAugusta com Creme – O Lobo Mau da Rua Augusta – Táxi e Outros Poemas Inéditos – Salada Paulista - ]gnição – Poesia 100 Filtro

sábado, 26 de março de 2011

Sempre ao Seu Lado

por Mauro Celso Lima


O filme começa colocando Hachi como herói. Porque herói?! Verifico no dicionário: Herói: […] 5. Personagem proeminente ou central que, por sua parte admirável em uma ação ou evento notável, é considerada um modelo de nobreza. [...] 10. O que por qualquer motivo, se distingue ou sobressai. Essas duas definições dão uma ideia mais ou menos clara das intenções do diretor quando coloca Hachi como herói. Sim, acreditamos que a intensidade com que aparece o sentimento de amor, lealdade e dedicação de um lado e o de persistência e não aceitação da realidade de outro, é o diferencial que faz do filme uma mistura única de sentimentos antagônicos no seus efeitos, onde leva a quem assiste a admirar e porque não sonhar com alguém que possa nutrir aqueles mesmos sentimentos com a mesma intensidade que o cão nutre pelo seu dono, por eles próprios. Esse é o segredo do filme! Levar a quem assiste a uma pureza de sentimento que chega a negação da realidade que se apresenta, mas o espectador não está consciente disso. Talvez por isso da emoção que brota do coração/ olhos de quem assiste. Pois esse mesmo espectador se depara com o improvável pois, o provável acarretaria dificuldades existenciais ou pra si próprio ou para aquele que nutre tal sentimento.
Mas essa também é a realidade de Hachi. A realidade que quis viver para si. Muitos dirão: “Mas é um cachorro! Como é que pode distinguir entre o que é ou o que não é real?” Pois é!! Isso é uma pergunta que não fazemos só para o animal. Podemos também perguntá-la a um ser humano.
Mas há outros aspectos também que gostaríamos de ressaltar na história que nos parece relevante. Um dos quais é o encontro de Hachi e o Professor Parker Wilson, como se o destino já tivesse determinado um cachorro especial para uma pessoa especial. Esse filme é o segundo que conta a mesma história desses dois personagens que viveram no Japão. O filme nos conta sobre alguém nos EUA que recebe um “presente” do Japão. A nossa sensibilidade não pode deixar de notar um provável convite para a sociedade Americana, e porque não Ocidental, aprender o jeito diferente de ver o mundo tal como o Oriente o enxerga. Quem sabe também não seria para que o ser humano pudesse integrar mais efetivamente no seu dia a dia o amor, a dedicação e a lealdade como sentimentos comuns uns para com os outros.
O apego também é tratado nesse filme de uma maneira muito particular. A cena da bola que Parker joga para Hachi poder pegá-la. Um cachorro comum a pegaria e levaria de volta para o seu dono, no caso de Hachi, como todo cachorro de raça Akita, não agradam seu dono e só fazem algo que tem sentido para eles, assim revela uma personagem do filme. Tal fato humaniza ainda mais o cachorro que está sendo humanizado desde o início do filme (projeções de sentimentos).
É notável também a negação de Parker na aceitação de Hachi em sua vida. Lutar contra algo é sinal de que esse algo já está lá. Não se luta sozinho! Essa negação atribuímos ao bom relacionamento dele com sua esposa que no começo não queria que Hachi ficasse mas rendeu-se a perceber o relacionamento entre os dois. Mais uma vez não dá para negar o que já está acontecendo, apenas ser honestos conosco mesmos e enfrentar a realidade. Mais uma lição bonita que o filme traz para quem assiste.
O cotidiano é tratado com extrema delicadeza no filme. As personagens, cada uma tem uma função específica no dia da outra. O vendedor de bilhetes, o vendedor de cachorro quente, a mulher da mercearia, etc. O E todo dia a mesma coisa e quase os mesmos fatos. Nada melhor de simbolizar esse fato do que um TREM (tem horário para chegar, para permanecer na plataforma e para sair – tudo cronometrado, como se a vida fosse um relógio. O cotidiano, a mesmice só irá ser superada pelo amor, tal como Parker falou para o futuro genro: “Você ama a minha filha? Porque o amor é a única coisa que lhe dará sustento nas adversidades.” Entendemos o cotidiano como sendo uma das adversidades para qualquer relacionamento.
A finitude encontra espaço na repetição do cotidiano. A vida continua na sua aspereza e crueldade mesmo na falta de alguém especial.
A aceitação da realidade como fato também é discutida nas entrelinhas. Deduzida a partir do comportamento do cão. O quanto estamos e ficamos presos a situações, a pessoas a estilos de vida e não percebemos que estamos parados num único e só lugar? O que o comportamento de Hachi também nos revela? Se não sou de um também não sou de mais ninguém... o quanto fazemos isso em nossas vidas? Será que temos algo a aprender com tal filme? Talvez, tentando humanizar o cão novamente, Hachi tenha encontrado um sentido em sua vida: esperar pelo dono!

Mauro Celso Lima é psicólogo e membro da ABRAPE

terça-feira, 1 de março de 2011

Verão 2011


de
Rodolfo Coelho


Choveu hoje à tarde
A chuva pegou-nos quando saímos
do táxi na Rua Sabará
Tudo estava lento e quieto.

Para onde andará Mubarak
À sombra das pirâmides
ou amealhando seu rico dinheiro
colhido durante 30 anos

Hoje eu vi uma foto da musa
Gisele Bündchen na farmácia
Tá comigo quando não houver mais jeito

Eu estou redescobrindo Fernando Pessoa
O prazer de ler Fernando Pessoa
Seu belo texto
Seu infindável “Eu”

Estive escutando Gil Unplugged
Gil e sua música caudalosa
Faz bem ao espírito e almas inquietas

Ela tem uma tatuagem no braço esquerdo
um sorriso colegial
e um rabo de cavalo
na cabeça é a minha musa itinerante
aqui no Scada Café

Eu estou atirando
prá todos os lados o que
cair é peixe

Biblioteca Mario de Andrade
Já que a preguiça não me deixa
nesta 2ª Feira de Fevereiro
resolvi fazer dela o meu ócio criativo
fazendo dela meu ócio criativo

A imaginação é mais importante
que o conhecimento - Albert Einstein

A geometria das coxas
a volumetria do desejo
eu quero ver
sentir
estar dentro
provar – Ferreira Gullar

Chove São Paulo
Estava na Praça da República
Uma esfiha e uma coca
Rumei para Galeria Metrópole
A chuva inclemente aporrinhava

Rodolfo Coelho, poeta urbano, é autor de seis livros:
RuAugusta com Creme – O Lobo Mau da Rua Augusta – Salada Paulista - Poesia 100 Filtro - Táxi e Outros Poemas Inéditos – Ignição