domingo, 2 de dezembro de 2012

O PERFUME : História de um assassino

de Aline Elizabeth Marino de Oliveira


O filme que escolhi como tema é uma adaptação do livro best seller de Patrick Süskind. Ele me fez pensar na questão da volatilidade do eclipsado objeto do desejo, de difícil controle, domínio e tão fugaz quanto os aromas. O que há por trás do objeto desejado que tanto nos escapa? Por que é tão difícil mantermos a mesma intensidade de desejo por algo já conquistado? Ora, se a falta que suscita o desejo persiste a conquista do objeto desejado e, então, o sujeito segue desejando, desejaríamos a falta?
Na visão psicanalítica, a concepção de objeto é visto sob três aspectos: enquanto correlativo da pulsão, enquanto correlativo do amor ou do ódio, enquanto correlativo do sujeito. (LAPLANCHE e PONTALIS)
O objeto do desejo para Freud é um objeto perdido, que desliza infinitamente numa cadeia marcada pela falta e que continua presente como falta. Ele não constitui algo da ordem do concreto que se oferece ao sujeito e sim da ordem do simbólico. Antes de ascender ao plano do simbólico o desejo se realiza no plano do imaginário. (GARCIA-ROZA)

No transcorrer da história, o desejo de Jean Baptiste parecia ser controlar o desejo do outro. E no final, de posse do desejo do outro, ele se depara com a sua ausência de desejo por esse outro. Junto com o poder permanecia a falta. Falta de que? De quem?
Cabe aqui, então, um retrocesso.
Jean Baptiste quando chega ao mundo não é recepcionado pelo desejo de sua mãe. Mas de que desejo estaria eu falando? Ele é expelido como qualquer um dos dejetos fabricados pelo corpo dela e seria recolhido ao final do dia juntamente com as tripas dos peixes e lançado ao rio. No entanto, ele não quis que fosse assim. Ele escolhe viver e grita, anunciando ao mundo sua existência. Sobrevive ao parto e ao abandono, contrariando o esperado e subvertendo a ordem. “O primeiro som que sai da sua boca leva sua mãe para a forca”. Xeque-mate na rainha! Jean Baptiste segue em sua aposta solitária, carregando consigo seu primeiro crime? Uma culpa primordial e quiçá a insígnia de assassino? Teria ele então se condenado e se calado por cinco anos, vivendo enclausurado em sua prisão interna, ensimesmado, recolhendo seu cheiro, sua existência, permanecendo “incluído de fora”, como um sonâmbulo a vagar pelos espaços que lhe eram destinados? Eu me lançaria nessa hipótese como uma das muitas possíveis.

Quem como ele havia sobrevivido às condições de seu nascimento não cedia tão facilmente seu lugar no mundo. Seu corpo sobrevivia com um mínimo de comida e de roupas e a sua alma parecia de nada precisar. Ele se apresentava imune à dor e com a resistência de uma bactéria, sendo visto como um “extra” terrestre. Sua presença causava estranhamento e repugnância. Era como se pertencesse a outra realidade; ficava ausente para as pessoas e objetos que o cercavam e que, para ele, eram como que transparentes, desprovidos de sentido. Sua forma de reconhecimento e relacionamento com o mundo se dava através do olfato. Teriam os odores ocupado o lugar simbólico deixado vago pela mãe? Sua voracidade em buscar e colecionar novos aromas teria alguma relação com um registro mnêmico do cheiro de sua mãe?

O que mais poderíamos dizer do encontro de Jean Baptiste com o mundo externo? Desde a tenra idade, suas relações foram pautadas pela questão da utilidade x valor monetário, e, em dado momento, a experiência de ser descartado se repetia. O mundo que vai se descortinando além de hostil, não comporta experiências de afeto, amor, compaixão, estabilidade. A frouxidão dos laços gerava níveis de insegurança, propiciando a criação e o isolamento em um mundo interno paralelo onde ele podia se sentir seguro. Um mundo com linguagem própria (a dos odores), em que ele era o senhor absoluto, controlando e criando novas experiências e sensações: Jean Baptiste acumulava, no seu íntimo, uma quase infinidade de experiências olfativas e, a partir de suas decomposições, realizava novas combinações e criações que não existiam no mundo real.
A par de sua aparente renúncia ao desejo de descoberta do mundo e de si mesmo, poderíamos considerar seu interesse e curiosidade pelos aromas um ponto de ancoragem com a realidade dos outros seres humanos?

Jean Baptiste deseja vorazmente algo que ele não sabe o que é, e que eu penso estar deslocado e condensado para essa questão do domínio do aroma. O que ele traz em seu discurso é a necessidade de aprender a capturar e manter o aroma, sendo este, para ele, a alma do ser humano. Para que? Para nunca mais perder, para poder reprisar. Qual seria a representação de alma para ele?

O dicionário da língua portuguesa Houaiss, define alma como o “princípio vital; a sede dos sentimentos, da vida afetiva, a natureza moral e emocional de uma pessoa”.
De acordo com Jean Baptiste quem controla os aromas, controla o coração dos homens. Se pensarmos o coração simbolicamente como a sede das emoções, estaríamos falando de um desejo de controlar o amor e o ódio? De um modo de defesa relacionada à perda de pessoas significativas, que de alguma forma haviam deixado uma inscrição, uma marca em seu psiquismo?
O que estaria por trás dessa necessidade de controle? Caberia pensarmos em uma pulsão de dominação?
Quando o cheiro da vendedora de ameixas invade suas narinas, ele se sente fortemente atraído, completamente absorvido, sendo tocado de uma forma tão avassaladora e doce como, aparentemente, nunca fora, pela crueza de sua realidade. Algo de uma beleza tão sutil e ao mesmo tempo com um poder tão grandioso que desperta o gigante adormecido, que só existira de forma animalesca, voltando-lhe o olhar para o externo. Ele, então, o persegue até encontrar a fonte, mas inadvertidamente, “sem querer, querendo”, comete seu segundo assassinato. O que teria nesse cheiro que o deixou tão desorientado? Por que ele não conseguia retê-lo, sendo que tinha a capacidade de recordar e sentir, a qualquer momento, o cheiro dos milhares de odores específicos arquivados em sua memória?

A experiência na caverna propicia a Jean Baptiste um maior contato consigo a partir do qual ele se percebe como alguém sem odor e insignificante para os outros, temendo o próprio esquecimento. A partir desse momento, os crimes cometidos, que até então me pareceram involuntários, passaram a ser premeditados. “Eu simplesmente precisava dela” responde ao pai inconsolado com a morte de sua filha. Nesse momento eu me questionei: Quem fala e de quem se fala? Seria o Isso falando?
Cabe aqui uma observação: o sujeito está dividido e não centrado no eu. Temos, portanto, “o sujeito do enunciado, (...) portador do discurso manifesto, porém desconhecedor do sujeito da enunciação e do conteúdo da mensagem; (...) e o sujeito da enunciação (...) que não é expresso ou significado no enunciado, mas recalcado e inconsciente.” (GARCIA-ROZA)
Nosso protagonista viveu a angústia de não ser conhecido por quem o gerou, de não ser visto, de não existir. Ele, então, cria uma alma Frankenstein, composta de treze essências femininas, que lhe possibilitaria existir e saciar sua fome ininterrupta de ser alguém no mundo. Por instantes, a sensação parecia ser de triunfo. “Ele consegue criar para si a aura mais radiosa e eficaz da face da terra sem dever a ninguém: a um pai, a uma mãe e, menos ainda, a uma divindade benfeitora. Ele era, na realidade, o seu próprio deus” (SÜSKIND). Aos seus pés estavam o bispo e toda a população. No entanto, por detrás da máscara do melhor perfume do mundo, persistia sua total ausência de odor, de desejo por si e pelo outro. Então, qual era o sentido?
Ele remonta a cena em que encontra a vendedora de ameixas, mas dessa vez, ela o vê, o abraça, o deseja. A cena é bruscamente interrompida pela imagem do corpo morto e, pela segunda vez na vida, ele chora. Teria ele se dado conta que o objeto de seu desejo estava para sempre perdido?
Então ele se retira, sendo levado por suas memórias olfativas ao local do seu nascimento. Ele derruba o perfume sobre a sua cabeça e se deixa devorar pelos ali presentes, que se sentiram “tomados por uma felicidade infantil, pois, pela primeira vez na vida, acreditavam ter feito algo puramente por amor”.
Vieram a mim as seguintes questões:
    - Jean Baptiste quando chega ao mundo não é recepcionado pelo desejo do Outro, mas, de alguma forma, teria ele com o perfume reproduzido no outro a voracidade do seu desejo de ser desejado e conseguido, pelo menos, se retirar do mundo por essa via?
    - O ato de se deixar devorar pela multidão presente no local de seu nascimento seria uma tentativa de retorno para o ventre de sua mãe, de se sentir completo, pertencente, parte de, na simbiose, na alienação?
    - O que estaria por trás, ou na frente, da 13ª essência?

Aline Elizabeth Marino de Oliveira é Psicóloga Clínica em processo de contaminação pela psicanálise.

2 comentários:

Anônimo disse...

Isso é que é viagem! Esse filme aguça a curiosidade! Eu li o texto, obrigado!

Anônimo disse...

Segundo o narrado ele não definia cheiro bom de ruim, assim como nós fora do seu mundo conhecemos o bom e o mal e assim o cheiro era pra Jean Baptiste, e ao encontrar a vendedora de ameixa ele conhece um cheiro novo, bom, diferente que lhe dava vida e significado parecendo o primeiro odor que cheira que é de sua mãe. Então o desejo que era conhecer odores novos se torna uma busca ao odor perdido da vendedora de ameixa, cujo foi se esvaindo assim como um pedaço dele foi removido.
E quando ele esteve na gruta a primeira imagem que vem em sua cabeça é da vendedora de ameixa que esta em sua frente, mas não o enxerga dando-lhe a sensação de que ele não existisse, mas nas palavras de Jean Baptiste ele diz-As almas das pessoas é cheiro delas, ele sendo igual a todos de carne e osso tem uma alma, mas não consegue enxerga por que foi perdida com a vendedora de ameixas e isso o motiva a correr a trás da 13ª essência. E quando ele vê a sexta de ameixa caindo vem a vendedora novamente em sua cabeça lhe aceitando, tocando e o amando ele chora como se perdesse algo de muito valor que é sua alma, vida, e o motivo dele querer viver. E não tendo mais ela, não a motivo de amar, ser amado e reconhecido, ele achou que tendo a 13ª essência ele poderia trazer de volta aquilo que ele perdeu mais se decepciona com a visão de que todos encontraram oque queriam, menos ele.
E em um retrocesso ele volta para o lugar de onde veio como se fosse voltar para útero da sua mãe o caminho de volta de onde ele nunca achou que podia ter saído, mesmo com tanto poder em sua mão não teria sentido viver.