quarta-feira, 1 de julho de 2015

ÁRVORES DE AMOR E FÚRIA - BRASIL, América Latina

de Arnaldo Domínguez de Oliveira
"Não sou um ateu total, todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não o encontro." — José Saramago
Quem tem medo de formiga não assanha mangangá” – Ditado Tupinambá

As redes sociais da internet ficaram coloridas neste dia 26 de junho de 2015 comemorando uma “retomada” que para alguns significa “invasão”. As pessoas decidiram homenagear toda forma de amor, esse célebre informal, porque foi aprovada nos Estados Unidos uma lei que garante a legitimidade das uniões homoafetivas. Mas isso não é uma expressão da existência de deus, pelo contrário, senão o resultado de uma longa e dolorosa luta que causou muitas perdas humanas e muito sofrimento ao longo da história da humanidade, que é uma história de horror.
Esse acontecimento representa uma longa batalha que frutificou em otimismo e eficácia, felizmente, como já havia acontecido na Argentina, no Uruguai e depois no Brasil. Milhares de homens e mulheres que enfrentaram com coragem a verdade diferente de seu modo de amar e de gozar e venceram essa etapa.
Entretanto, os extremistas religiosos dirão que essas mulheres que amam outras mulheres não são as legítimas fabricadas pelo criador e esses homens homossexuais tampouco são homens de verdade.
De maneira semelhante à incessante e infrutífera procura de Saramago, Diógenes de Sínope, o protocínico, homem-cão vagabundo, animal político da Antiguidade, também procurava homens de verdade com sua lanterna ateniensei. Á diferença do que destacam os “fundamentalistas”, o autêntico homem, para Diógenes, é aquele que continua sendo senhor de seus desejos e vive racionalmente em harmonia com a natureza e é obvio que o homem social urbanizado não é senão quem se comporta de modo irracional e desumano. Na Crítica da Razão Cínica, Peter Sloterdijk1, também afirma que “...a psicanálise é um híbrido histórico. Com sua fundamentação sexual patológica olha para o passado; com o convencimento de que o inconsciente é algo produzido, ao futuro. À maneira de um detetive cultural, deixa que a suspeita precoce-burguesa de que o homem está baseado no animal se constitua uma certeza”.2 (Página 391)
Já, Abeguar, índio Tupinambá, herói trans temporal do filme brasileiro dirigido por Luiz Bolognesi “Uma história de amor e fúria”, garante que “Viver sem conhecer o passado é como andar no escuro”. E assim, com essa lógica de cunho psicanalítico, nos convida a acompanha-lo na sangrenta aventura que, algum tempo depois, será denominada Brasil. Uma árvore! E ele, o herói sem estátua, porque está do lado dos “perdedores”, apenas mais um belo pássaro em extinção da fauna desta terra tropical que Lévi-Strauss supôs que fosse “triste”.
Um pássaro quiçá contrabandeado por aqueles transgressores da mata que burlam o IBAMA.3
Tal fantástico filme de animação foi produzido em 2013 e conta, na sua dramaturgia, com as vozes de Camila Pitanga (Janaínas), Selton Mello (os heróis Abeguar, Manoel Balaio o Professor Cau e, por fim, João Cândido nº 3, um comunicador do futuro, que já havia desistido da luta e engrossava o coral cínico dos pós modernistas que murmuram “foda-se”) e Rodrigo Santoro (O Grande Cacique Piatã), dentre outros/as.
O amor não é só o que insiste e não cessa de não se escrever, manifestado por essa mulher que se metaforiza reencarnando qual objeto do desejo, Janaína. Quase um amor louco e é claro que por um sorriso dela nosso herói será capaz de enfrentar os maiores exércitos com a mesma presteza com que realizou seu rito de passagem ao matar uma onça e tornar-se Guerreiro Tupinambá. O amor é pelo seu povo, preservação da vida! Essa é a sina que o Deus Munhã lhe conferiu ao dotá-lo da virtude do pássaro e da missão de conduzir seu povo para a terra sem mal e distante do império de Anhangá, o Anhanguera da destruição. Uma terra do além, que os hebreus disseram prometida e os crentes, confirmando sua crença, garantem que deus é fiel, porque sempre cumpre sua promessa (da casa própria ou da salvação eterna?).ii
A Sinopse do filme resume o seguinte:
Um homem (Selton Mello) com quase 600 anos de idade acompanha a história do Brasil, enquanto procura a ressurreição de sua amada Janaína (Camila Pitanga). Ele enfrenta as batalhas entre tupinambás e tupiniquins, antes dos portugueses chegarem ao país, e passa pela Balaiada e o movimento de resistência contra a ditadura militar, antes de enfrentar a guerra pela água em 2096”.
Este homem desafiou o Grande Piatã (pai da horda) ao tratar de impedir que seus guerreiros enfrentassem os portugueses em Bertioga e foi expulso da aldeia. Desde a copa das árvores, observou o festim canibalesco em que os guerreiros Tupiniquins foram comidos e alguns portugueses também.4 Esses colonizadores de além-mar já haviam fundado São Sebastião do Rio de Janeiro e em nome da Santa Cruz capturaram os índios sobreviventes do massacre para torna-los escravos nas plantações de cana de açúcar.
A nação Tupinambá foi dizimada? Nossos amigos de Olivença garantem que não! Entretanto, exclama Abeguar, “Como se fosse possível escapar!”
Isso vale para todos/as nós: “A única maneira de vencer Anhangá é não desistir nunca!”.
Quando Freud escreve, no Futuro de uma Ilusão: "A humanização da natureza deriva da necessidade de pôr fim à perplexidade e ao desamparo do homem frente a suas forças temíveis, de entrar em relação com elas e, finalmente, de influenciá-las. (…) O homem primitivo não tem escolha, não dispõe de outra maneira de pensar. É-lhe natural, algo inato, por assim dizer, projetar exteriormente sua existência para o mundo e encarar todo acontecimento que observa como manifestação de seres que, no fundo, são semelhantes a ele próprio”, eu lhe questiono: teremos nos afastado tanto dessa pré-história subjetiva? E ele responde: Mas não há dúvidas que o infantilismo está destinado a ser superado. “Os homens não podem permanecer crianças para sempre; têm de, por fim, sair para a vida “hostil.”
Freud afirma acerca dos homens que eles não são criaturas gentis, que desejam ser amadas, que se defendem apenas quando atacadas, mas são criaturas dotadas de uma poderosa agressividade. Para eles, o próximo não é naturalmente um objeto de seu amor, mas sim alguém que os tenta a satisfazer sobre ele sua agressividade, por exemplo, ao explorar sua capacidade de trabalho sem compensação, ao utilizar dele sexualmente sem consentimento, ao apoderar-se de suas posses, ao causar-lhe sofrimento e matá-lo. Daí a frase: “homo homini lúpus””.5
Segundo Thomas Hobbes, movido pelo instinto de autopreservação, o indivíduo busca dominar os outros, conduta esta que dá ensejo à “guerra de todos contra todos”.
Do lado dos “ganhadores”, neste filme, se destacam os Bandeirantes, também o Patrono do exército brasileiro, coronel Luiz Alves de Lima e Silva, que depois do genocídio do cangaço seria transformado em barão e a posteriori do genocídio do Paraguai, em Duque, se não me equivoco. E virou estátua! E a batalha do Cerro Corá, na qual as crianças paraguaias se fantasiaram com bigodes para intimidar aos inimigos brasileiros e morreram degoladas,6 tornou-se nome de uma Rua intransitável de São Paulo, pela qual circulamos – se é que isso pode ser dito assim – sem lembrar de que se trata. Porque estamos correndo, buscando pegar um lugar no futuro, quem sabe? Chico Buarque?7
Os rebeldes sempre são considerados “escória”, lamentavelmente uma escoria que tende a se acomodar, sobre tudo depois das últimas sangrentas ditaduras da América Latina (que sempre precisará de ridículos tiranos, Caetano?8).9 Em 2012 a nossa Associação Etcétera e Tal, psicanálise e sociedade, conjuntamente com os remanescentes da cultura Tupinambá de Olivença, organizou o Seminário sobre “O Medo” que aconteceu durante o “Seminário Caboclo Marcelino” naquela localidade do sul do Estado da Bahia. Foi uma riquíssima e inesquecível experiência para nós, os urbanos.iii
Desse encontro surgiu um manifesto que também aspira transformar-se em LEI que proteja a vida.
A lei desde suas formas mais primitivas evidenciadas no totem e nos tabus, até as mais complexas, como o moderno código penal, tem a função de controlar o pulsional em cada sujeito. Em Êxodo 20:3-17, podemos ter acesso aos mandamentos revelados a Moisés. A violência, por exemplo, é coibida com a lei “não MATARÁS”.
A proibição de três desejos pulsionais em especial parece estar na base constitucional do processo civilizatório: O canibalismo; O incesto; A ânsia de matar.
Então, fica comprovado que “Enquanto os homens não saibam amar temos que obrigá-los”, como disse o Jurista italiano Francesco Carnelutti.10
Por outro lado, salve-se que puder. Já teremos chegado nesse ponto?
Alguns alarmistas afirmam que sim e para confirmação, por exemplo, a crise aquática já começou!
Cabe a nós todos/as apelarmos para a lei e a força sugeridas por Maquiavel, quando for preciso, e lutar é preciso, numa revolução pela “retomada” da pulsão de vida articulada à pulsão de morte, em função da vida! E que o slogan da batalha desta Pátria Educadora, além de incluir questões como Gênero e Identidade no Plano Educacional brasileiro seja “água e comida para todos”. E que essa enunciação circule pelas veias abertas da América Latina.iv
1 Biblioteca de Ensayo Siruela.
2 Homens da sociedade burguesa iniciaram no século XVIII a domesticação definitiva do animal inferior através da razão e da moral. Ordem e Progresso, disseram!
3  Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis.
4 Pedrinho o matador, no Brasil (2012), matou o próprio pai, além de mais 100 vítimas, e comeu o coração.
5 Celia Regina N. de Souza - A lei e o desejo – Interlocução entre direito e psicanálise. Jus Brasil.
6 Osvaldo Lamborghini, escritor argentino, escreveu sobre os degoladores do exército argentino que atuaram na guerra do Paraguai: uma tropa de elite. Na atualidade essa atrocidade é cometida publicamente pelo Estado Islâmico para nossa impotência e perplexidade.
7 Sinal Fechado.
8 Podres Poderes.
9 Las grandes huelgas
Autor: Felipe Pigna - Una de las primeras huelgas concretadas en el territorio argentino se produjo en 1868. En plena Guerra del Paraguay un grupo de trabajadores de distintos astilleros de la provincia de Corrientes se negó a construir embarcaciones destinadas a las fuerzas de la Triple Alianza argumentando que no contribuirían a la matanza de sus hermanos.
10 Celia Regina N. de Souza - A lei e o desejo – Interlocução entre direito e psicanálise. Jus Brasil

i
Una vez exclamó a grandes voces: ¡Venid aquí, hombres! Y cuando éstos se acercaron, les golpeó con su bastón al tiempo que profería las siguientes palabras: “Hombres he dicho y no inmundicia”.
ii
"… [a religião é] um sistema de doutrinas e promessas que, por um lado, lhe explicam os enigmas deste mundo com perfeição invejável e que, por outro lado, lhe garantem que uma Providência cuidadosa velará por sua vida e o compensará, numa existência futura, de quaisquer frustrações que tenha experimentado aqui. O homem comum só pode imaginar essa Providência sob a figura de um pai ilimitadamente engrandecido. Apenas um ser desse tipo pode compreender as necessidades dos filhos dos homens, enternecer-se com suas preces e aplacar-se com os sinais de seu remorso. Tudo é tão patentemente infantil, tão estranho à realidade, que, para qualquer pessoa que manifeste uma atitude amistosa em relação à humanidade, é penoso pensar que a grande maioria dos mortais nunca será capaz de superar essa visão da vida. Mais humilhante ainda é descobrir como é vasto o número de pessoas de hoje que não podem deixar de perceber que essa religião é insustentável e, não obstante isso, tentam defendê-la, item por item, numa série de lamentáveis atos retrógrados." — Sigmund Freud – O Futuro de uma Ilusão.
iii
Seminário lança manifesto em apoio à causa indígena: Evento será finalizado hoje com caminhada que lembra os Mártires do Massacre do Rio Cururupe e o Índio Marcelino

Aléxis Góis, colaborador da Agência Jovem em Ilhéus (BA)
A última roda de conversa do IV Seminário Internacional de História e Cultura Indígena: Índio Caboclo Marcelino teve como tema as “Perspectivas, Ações e Lutas dos Povos na Latino américa”. Durante o evento, foi lançado um Manifesto em Apoio à Causa Indígena, para reforçar a importância da luta dos povos originários, em especial dos Tupinambá de Olivença, que vivem um processo recente de retomada de seu território no sul da Bahia. A cobertura do Seminário está sendo realizado por indígenas que participaram de laboratório de apropriação de Artes e Tecnologias, promovido pela Oca Digital, projeto da ONG Thydêwá e Cardim Projetos e Soluções Integradas, com o Patrocínio da Telefônica/Vivo e do Fundo de Cultura da Secretaria de Cultura da Bahia.

Manuel Rozental, indígena do povo Nasa, da Colômbia, ressaltou que não adianta ter um discurso em favor da causa indígena se as mentes estiverem colonizadas pelo pensamento capitalista. “Também temos de retomar o nosso território do imaginário”, afirma Rozental, que é médico e Professor nas Universidades Novo Fiat Viaggio da Colômbia e do Canadá. Também participaram da roda de conversa anciões, caciques, e representantes de diversas instituições e organizações, como a professora francesa Dra. Esther Fernandes Rose Katz, do Instituto de Recherche pour le Developpeçent-IRD e os argentinos Ana Zabala, psicanalista integrante da Instituição Abuelas de Plaza de Mayo, Arnaldo Dominguez de Oliveira, psicanalista coordenador do Curso de Formação em Psicanálise do Centro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo e fundador da Associação Etcétera e Tal, Psicanálise e Sociedade.
O evento será finalizado amanhã com a 12ª Caminhada Tupinambá em Memória aos Mártires do Massacre do Rio Cururupe e ao Índio Marcelino, com concentração a partir das 8h, em frente á Igreja de Nossa Senhora da Escada, em Olivença.
Segue texto da minuta do Manifesto, que será finalizado de forma colaborativa por meio do blog do Seminário.
“Manifesto em apoio à causa indígena:

Entre os dias 27 a 29 de setembro de 2012 estiveram reunidos na Terra Indígena Tupinambá de Olivença, por ocasião do IV Seminário Internacional de História e Cultura Indígena: Índio Caboclo Marcelino – Histórias, Culturas e Lutas dos Povos Indígenas do Brasil e da América Latina, membros dos povos Tupinambás, Pataxó, Pataxó Hã-hã-hãe, Pankararu, Kariri Xocó, Xocó e representantes de distintas instituições e organizações que ora assinam este manifesto em apoio à causa indígena, em especial à luta do povo Tupinambá:
- Pela demarcação imediata da Terra Indígena do povo Tupinambá de Olivença;
- Pela de intrusão imediata de seu território;
- Pelo direito de viverem de acordo com a sua cultura;
- Pelo direito à educação diferenciada;
- Pelo direito à saúde diferenciada;
- Pelo fim da criminalização e da perseguição ao povo Tupinambá, em especial de suas lideranças;
- Pela autogestão do território indígena, proteção e respeito aos recursos naturais.

Afirmamos que a Terra é Mãe e assim ela deve ser compreendida e reconhecida como um direito originário dos povos indígenas. Consequentemente, exigimos do Estado brasileiro que faça valer a legislação das quais é signatário, especialmente a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Constituição Federal de 1988.
Aqueles que estão de acordo chacoalhem o maracá ou batam palmas.
Aldeia Gwarani Taba Atã, Território do povo Tupinambá de Olivença, 29 de setembro de 2012.”

iv Aproveito este final para homenagear o “necessário” recentemente falecido Eduardo Galeano.

Filme Completo: https://www.youtube.com/watch?v=wdkqo_M1gw8

Trailer do Filme

Arnaldo Domínguez de Oliveira é Psicanalista e Professor do CEP - Centro de Estudos Psicanalíticos, fundador do PROJETO ETCÉTERA E TAL... Psicanálise e Sociedade, conselheiro da Biblioteca Popular de Itaquaciara D.Nélida e médico de formação.

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