domingo, 16 de novembro de 2014

Relatos Selvagens (ou simplesmente atuais?)

de Priscilla Cheli
Dividido em seis histórias, com começo, meio e fim, Relatos Selvagens, traz uma reflexão a cerca de questões mais que atuais, com as quais nos deparamos todos os dias, seja por meio de uma notícia de jornal, seja por algum personagem da vida real.


As histórias se dão em contextos diferentes, porém, em seu âmago, trazem a vingança e a violência como protagonista, nos convidando a refletir sobre a ética de cada um e nos colocando diante da pergunta: “o que você faria se...?”
Num estilo tragicômico, o filme, dirigido pelo argentino Damian Szifron e produzido pelo espanhol, Pedro Almodóvar, tem uma configuração diferente da que estamos habituados a assistir. Seis histórias que não se cruzam, não se excluem, e nem se contradizem, mas que em sua efemeridade, tocam a singularidade da ética de cada um que as assiste.
Tal como o formato que o filme se apresenta, tentarei fazer um breve relato das histórias, ressaltando seus pontos cruciais, separadamente.
1 - Fazendo uma alusão aos casos de meninos que abriram fogo em escolas americanas, Gabriel, comissário de bordo, reúne em um vôo, todos aqueles que ele julga serem seus malfeitores e leva a aeronave à queda.
2 - Uma garçonete se depara com um cliente que arruinou sua família e está pleiteando um cargo político. Sua colega de trabalho sugere que o envenenem. Eis o dilema!
3 - Um homem, dirigindo seu carro de luxo, tenta ultrapassar outro homem, num carro caindo aos pedaços. No momento em que consegue, abre o vidro e o xinga. Minutos após a ultrapassagem, seu pneu fura. Ele se surpreende com a chegada daquele que ele outrora agrediu, pronto para lhe dar o troco. A clássica cena de briga de trânsito, que traz com ela, nesse relato, a arrogância versus a fragilidade do homem rico, tal como a fúria e a ira que aparece no homem pobre, quando os dois se encontram numa situação de igual para igual.
4 – Um engenheiro especialista em implosões se vê vítima do sistema de trânsito, e após tentativas de ser ouvido sem sucesso, resolve criar uma explosão no pátio de estacionamento para veículos guinchados, lugar para aonde seu carro havia sido levado. Ele acaba se tornando uma celebridade nos noticiários pelo ato que talvez muitos tenham vontade de cometer.
5 – Filho de um milionário sai com o carro do pai, atropela uma mulher grávida e foge. Os pais, para pouparem seu filho da responsabilidade, têm a ideia de sugerir que o caseiro, em troca de dinheiro, assuma o crime. Essa trama aponta a corrupção da polícia, a “esperteza” de alguns advogados, e o dinheiro como uma forma de escapar da lei.
6 – Noiva descobre traição do marido durante sua festa de casamento, entregando-se ao deleite de ameaçá-lo e vinga-se de um modo que seu sofrimento seria muito maior que o dela.
Esse filme ressalta, pelo menos para mim, dois possíveis caminhos para percorrermos. Um nos leva a reflexão sobre o inusitado e a resposta que dele advém quando a palavra não é convocada. O outro, nos coloca em direção de olharmos para a responsabilização de cada um diante de sua própria singularidade.
Podemos observar que o inusitado se une à urgência de uma escolha, onde os envolvidos não têm espaço para ponderar, argumentar, problematizar ou relativizar. Com a subtração da palavra, o ato se impõe. A certeza entra onde a palavra é subtraída. A palavra traz consigo a possibilidade da dúvida, e no filme, o que suscita é que na ausência dela, da palavra, aparece o que o autor nomeou de selvagem.
A lei do mais forte é o que rege a lei da selva, pelo menos é isso que sempre ouvimos falar. Neste caso, podemos pensar que a palavra é a possibilidade que temos de mediar o selvagem, o selvagem do próprio gozo.
Outro ponto a ser destacado diz respeito àquilo que psicanalistas, filósofos, educadores, entre tantos outros, se dedicam, ou seja, sobre o tempo em que vivemos. Sabemos que com a queda de uma sociedade paternalmente orientada, onde as leis eram mais claras, definidas e delimitadas, e portanto, os sujeitos tinham modelos socialmente admirados a serem seguidos, hoje nos deparamos com perguntas mais singulares, ou seja, como cada um se coloca frente às contingências.
Surge assim, a formação de uma nova ordem simbólica. Se antes éramos orientados pelo falo, e hoje não mais, quais seriam os efeitos desta nova ordem simbólica?
Um deles, sem dúvida, é a gama de opções e possibilidades que se apresentam a cada um de nós. Hoje podemos questionar mais livremente e escolher um caminho, bem como elegê-lo como uma direção a ser seguida. Mas não podemos nos esquecer que as angústias, frente a tantas possibilidades, podem ser proporcionais às opções. A falta da orientação falocêntrica implica necessariamente na responsabilização frente às angústias, prazeres e conseqüências advindas das escolhas e posicionamentos de cada um.
O filme nos coloca frente a essa questão de maneira direta e nos tira o riso justamente quando cada espectador se encontra com o seu próprio gozo. O que você faria em cada situação apresentada? O que justificaria, para você, tirar a vida de alguém? Para ser ouvido por um mundo surdo, vale uma transgressão? Ou ainda: por um filho, vale incriminar alguém?

Seriam horas e horas de discussão que provavelmente não nos levaria a Um lugar, afinal, Lacan bem nos disse: a Verdade não existe. Portanto, só nos cabe interrogar a nós mesmos, um a um, a respeito daquilo que suportamos de nossos próprios atos, se podemos nos responsabilizar por eles e, por fim, o quanto podemos suportar de nossa própria singularidade. Aliás, papel esse ofertado pela escuta psicanalítica.
Trailer Oficial do Filme

Priscilla Cheli é psicanalista com pós-graduação em psicologia clínica pela PUC-SP.

2 comentários:

Viviane Nogueira disse...

Penso que, no quinto episódio do filme, o pai não decide incriminar o caseiro para proteger seu filho, mas sim para proteger sua própria reputação. Tanto que a única coisa que o faz voltar atrás em sua decisão é a percepção de que vai perder muito dinheiro com essa "maquiagem" dos fatos. Nesse momento, não hesita em chamar o menino para se entregar à polícia.
É significativo que, logo no primeiro episódio e antes mesmo dos créditos iniciais, congela-se a imagem no momento em que os pais do personagem Gabriel Pasternak são tirados à força (e para a morte) do estado de apatia e alienação em que se encontram. É como se o filme avisasse: a violência pode ser uma explosão, pode ser uma colisão, pode ser um assassinato, pode ser a corrupção e, até mesmo, pode ser muito violenta a apatia. As pessoas na fila para pagar a multa do guincho, no quarto episódio, tão entregues àquela situação que não concebem mais sequer a indignação. O indignado é um louco, mas seu ato explosivo é catártico.

Andrea Pérez Ulloa disse...

Eu pensei que era uma análise do filme muito cheio, assistir a este filme cientificamente o torna uma excelente contribuição. Eu gostei da ação Leonardo Sbaraglia , eu acho que é um grande artista argentino com uma grande carreira e também contribui muito para o filme.