sábado, 8 de março de 2014

A Professora de Piano (La Pianiste)

de Graça Nunes

Sejam sublimes quando se voltam para a arte, a criação ou a mística, sejam abjetos quando se entregam às suas pulsões assassinas, os perversos são uma parte de nós mesmos, uma parte de nossa humanidade, pois exibem o que não cessamos de dissimular: nossa própria negatividade, a parte obscura de nós mesmos.  (Roudinesco, 2008, p. 13)

''A Professora de Piano'' de Michael Haneke-2001 é um filme que não passa despercebido. Desperta no público as mais antagônicas reações, numa curva que vai de fascinante para alguns, até degradante e perturbador para outros. Uma das fortes marcas desse filme, penso ser o tom clínico e propositalmente cheio de reticências e que insiste em nos fazer ocupar a posição de analistas. 
Adaptação do  livro autobiográfico de Elfride Jelineke, o filme de Michael Haneke, ''A Professora de Piano'' está, sem dúvida, a altura do livro Prêmio Nobel de Literatura 2004.

 O desempenho de Isabelle Huppert como a professora de piano é estelar, merecedora do prêmio de melhor atriz em 2001 em Cannes.  Annie Girardot brilha como a mãe da professora. O trabalho magnífico de Benoit Magimel (Walter Klemmer), na minha opinião o melhor do elenco  ganhador também do Prêmio melhor Ator em Cannes merece ser comentado. Além de ter fascinado o júri em Cannes, ''A Professora de Piano'' (La Pianiste) ainda recebeu o Oscar 2002 de melhor filme língua estrangeira.

O diálogo do início do filme nos dá um claro mapa do relacionamento entre a protagonista Eryka e sua mãe, as duas personagens centrais da trama.  
[first lines]
Mãe: Boa Noite, criança
Eryka: boa noite mamãe...
Mãe: [com sarcasmo] Já em casa?  Fico tão feliz...
Eryka:  Já estou indo...
Mae: Não tão cedo, querida
Eryka:  Por favor, me deixe, estou cansada..
Mãe:   Acredito ...seu último aluno  saiu 3 horas atrás.. Quero saber... onde vc esteve todo este tempo?
Eryka: [tentando se desvencilhar e ir para o quarto]  me deixe dormir...fui dar uma volta...
Mãe: Não, não vai. Não até que me conte tudo...


E en-levados pela música de Shubbert e Schumman encontramos Eryka e seu mundo.  

 Eryka Kohut, solteira, em torno dos 35 anos vive com a mãe que não faz outra coisa, além de controlar cada detalhe de sua vida, em um pequeno e escuro apartamento. Palavras ressentidas e as vezes tapas  são trocados entre elas, para já em seguida dormirem juntas em camas de solteiro colocadas lado a lado. No decorrer do filme fica claro que Eryka tem seu próprio quarto, mas sem chave.
 Professora de piano num conservatório em Viena, em nome de treino rigoroso, humilha e destrói a confiança dos alunos. Sua aparência sóbria e cinza não tem vestígios femininos de sedução ou sexualidade. Há uma ausência de expressão no olhar que na maior parte do tempo nos impele a projetar ali, no vazio de seus olhos nossas próprias inquietações.  Seu tempo, quando não está dando aulas, é usado em  visitas noturnas a porno-shops onde assiste a vídeos hardcore, enquanto pega da lixeira e os cheira demoradamente lenços de papel com esperma deixados pelos frequentadores.  Ou num cinema drive-in  enquanto espia um casal fazendo sexo e urina ao lado do carro deles é vista pelo rapaz e foge apavorada.

 Incesto e a auto-mutilação genital também são parte de sua tentativa de se apossar do próprio corpo. Há uma cena em que Eryka está sentada à beira da banheira se auto-mutilando na região genital, a mãe a chama para jantar e interrompe-a em meio a um orgasmo. Isso dá a ideia precisa da falta de privacidade de Eryka.
Segundo Roudinesco, esse comportamento transgressivo revela: 

'' (...) entre o enraizamento na conspurcação e a elevação a o que os alquimistas chamavam outrora de “volátil”, em suma, entre as substâncias inferiores – do baixo-ventre e do monturo – e as superiores – exaltação, glória, superação de si –,existe portanto uma estranha proximidade, feita de renegação, clivagem,repulsa, atração.'' (ROUDINESCO, 2008, p.18) 

É aí que eu localizo Eryka, dividida entre a música de Schubert e Schumann que a vivificam e o mundo obscuro em que ela vive algumas horas a noite.  Ou seria entre a busca do próprio desejo afinado e delicado e o imperativo categórico do gozo mortífero.
  A seleção das músicas do filme é de peças em que há o alto e o baixo, o major and minor, tranquilo e agitado, pálido e exuberante.  Interessante notar que Eryka e a música que ela toca, estruturada em  regras estritas de prazer e dor, trazem essa dualidade de contrapontos emocionais.    
  Tanto que a música parece ser um jogo de poder (só ida) para o compositor com o objetivo de manipular sentimentos - controlar o quão rápido, quanto prazer, quanta dor. Erika descreve para um aluno que o melhor desempenho é uma questão sutil de controle, insistindo que a música não deve cair em jogo mecânico nem sentimentalismo. Em meio a tudo isso, a música tem que ser "a certa" para bater a marcação precisa, como 'certo' deve ser o contexto de vítima e algoz que ela vive. Aí se revela uma das razões de sua afinidade com Shubert e Schumann. 
 Schubert, o favorito de Eryka, é este em si mesmo um contraste, como diz  Eryka, ''Schubert não vai entre falar alto e depois baixo, ele vai do o grito ao murmúrio'' assim como ela.  Tanto Schubert como Schumann tiveram história de excessos, uso de álcool, drogas, sífilis,  promiscuidade, insanidade e finalmente uma morte precoce.
 
Logo no início, Eryka encontra Walter num recital em casa de amigos comuns, jovem, bonito, esportivo, intelectual, artista, estudante universitário, rico e talentoso que logo se apaixona por ela. Ele é tudo que Eryka não é.
 Em sua primeira  conversa com Walter Klemmer, no recital onde se conheceram ela  refere-se  ao livro que Adorno escreveu  onde descreve a sanidade de Schumman  por um fio.  E emenda que esta possibilidade para ela é real já que seu pai está num asilo de ''loucos''.   Esta e a notícia de morte do pai são as duas únicas menções feitas sobre o pai de Eryka durante o filme
  "A Professora de Piano'' não oferece respostas e explicações fáceis, mostra apenas  uma janela da vida da protagonista. Tal como quando se recebe um paciente em uma  sessão, somos então colocados no papel de analistas e desafiados a pensar Eryka sem saber sobre sua vida passada. 
 Treinos rígidos provavelmente desenvolveram uma técnica perfeita para Eryka. Mas, sem um vasto repertório de emoções circulantes não se pode tocar Schubbert, Schumman e Chopin a ponto de se destacar.  Sentimentos para ela são ''obtidos através de ações extremas como se cortar e através da dor sentir o corpo, para capturar a realidade a qual está agarrada apenas por um linha muito tênue.''
(ZIZEK)  Em um momento ela diz para Walter, ''eu não tenho sentimentos, e se os tiver, jamais vão suplantar minha inteligência".  As poucas vezes em que se percebe emoção em Eryka é quando Walter toca Shubert ao piano.

 A exagerada proximidade com a mãe bloqueia a entrada de Eryka no plano simbólico, Eryka não sabe quem ela é, o que é, o que quer, o que deseja. Para descobrir fantasia, executa a fantasia. 

Eric Laurent no livro "O Uso Perverso da Fantasia",(1995, pp 193-212), descreve que um dos 3 eixos de pesquisa no ensino de Lacan sobre a perversão, é que para haver uma perversão é necessário  que antes haja a fantasia.  A fantasia que na histérica é oculta, privada, recalcada parcialmente, no perverso é pública, diz Laurent, e necessita ser assim porque o perverso precisa da confirmação do Outro para sua própria existência. O perverso nos mostra a verdade a-moral do desejo sexual.  


Ela, Eryka, atua de um jeito desesperado, como desesperada é sua tentativa de se apossar de seu corpo, suas possibilidades, seu prazer e de seu próprio desejo, joguete que é ainda do desejo materno. Ela busca se saber. Mas como?, se ainda está dormindo com a mãe e sob sua tutela emocional. Mesmo ao colocar vidro moído nos bolsos do casaco de uma estudante brilhante, Eryka está cumprindo o desejo da mãe que uma noite antes a adverte: "ninguém pode ser melhor que você.''  Isso sem falar que  na noite da briga do início do filme, a mãe diz à ela: ''eu deveria cortar suas mãos.'' Mas sua atividade erótica ela pode controlar.
Reconhecendo  o desejo do corpo poderia ascender a lei se tornando um Sujeito de desejo?
 

Para Freud, o perverso vive a castração com horror porque para ele é real, então como defesa, nega que a mãe tenha sido castrada e é claro que com isso  não tem acesso a lei que interdita.  Ao negar a castração, não existe a falta que faz com que o sujeito se constitua como sujeito do desejo, pois só ao reconhecer que há uma lei ele garante para si  o estatuto de se constituir como sujeito do desejo. 
 Sua violência dirigida ao próprio corpo parece ser outra ação levada ao extremo para separar-se da mãe e se conectar com a realidade. Porém suas transgressões eróticas ao invés de a levarem a uma outra posição subjetiva, a devolvem sempre ao mesmo lugar de gozo que vive com a mãe.
Segundo Freud, tudo que o neurótico recalca, o perverso acentua na expressão de uma sexualidade infantil de caráter bárbaro e pulsional que não respeita nem a interdição do incesto, nem o recalque, nem a sublimação.  Uma cena que deixa claro a falta da lei internalizada é quando na noite em que tem  seus pedidos rejeitados por Walter ela pula sobre a mãe que já se encontra na cama, beijando-a, dizendo ''eu te amo'', como se fosse fazer sexo. Para logo após  informar: ''eu vi seus pelos púbicos.'' A mãe então fala que ela precisa estar bem para a performance do dia seguinte, que precisa dormir bem e outras banalidades, mas não fala sobre o acontecido.
E quando Eryka e Walter estão no banheiro do conservatório, ela vitimiza Walter ordena que se exponha, olhe apenas para ela e  realizando a fantasia sádica, ao mesmo tempo que o excita, o proíbe de ter um orgasmo sob pena de nunca mais vê-la ou toca-la. Ela quer fazer-se instrumento do gozo do outro, pois o perverso pensa saber qual é o gozo do outro. 

 O fetichismo é o exemplo claro que que um objeto ''entra'' em cena e cobre a falta (do Outro).  O perverso quer positivar a falta, assim precisa do instrumento para fazer um pacto, mesmo falso, que é o que Eryka tenta com Walter.  Ele seria seu brinquedo, mas não pode perceber isso, precisa pensar que está ali só porque quer.
 Ao  abrir para Walter  sua caixa de acessórios S&M e escrever a sua lista de desejos masoquistas e  instruí-lo com detalhes sobre tudo o que deve acontecer, ela está no controle da cena, quer dirigir sua própria dor, planejar seu flagelo, comandar sua tortura.   Ela é quem  estaria autorizando o outro a comandar sua vida, portanto é ela que está investindo o outro da potência fálica.   Para o masoquista, o castigo, a punição servem para que se sinta ''autorizado'' a provar então do fruto proibido.  Incesto.



Eis a carta que ela escreve para Walter: " (...)  Se eu implorar, aperte ainda mais os nós, por favor.  Aperte o cinto ao menos 2 ou 3 buracos mais. Quanto mais apertado, melhor.  Então me engasgue com algumas meias....  Empurre-as tão forte na minha garganta que eu não consiga emitir qualquer som.  Depois, retire a venda e sente na minha face e me soque o estômago para me forçar a a enfiar minha língua no seu traseiro. "
 Ao que o atônito Walter responde: Isso é sério, você está brincando , não está?  Você quer um tapa ?  O desejo dele não importa para Eryka, só importa se ele será ou não capaz de desempenhar o papel que ela lhe atribuiu para  satisfazer o imperativo do gozo mortífero.  Se ele não conseguir tomar parte ou ''desempenhar'' o papel que a fantasia de Eryka requer, a cena colapsa.  O que é vital para a satisfação do gozo errático de Eryka é que ele pense que espancá-la, humilhá-la e degradá-la é desejo dele.

Ela diz em uma das cenas '' eu quero que você queira querer''.  Mais uma razão para que Eryka busque lugares onde a cena que ela busca está por assim dizer ''montada'' sem que haja nada que intervenha entre a fantasia dela e a satisfação da mesma. A busca por profissionais do sexo também tem em parte o fator de que a fantasia contará com o complemento exato. A autenticidade do desejo não importa para ela como importa para o neurótico. 
O objetivo máximo para Eryka é fazer com que o outro não pense que está sendo apenas  um acessório ou uma ''boneca''... Walter DEVE pensar  que está no comando fazendo porque quer, por isso o sádico e masoquista não funcionam juntos como parceria,  pois a palavra chave dos dois é controle e o que move ambos é ''saber'' sobre o desejo do outro. 
   Ser pega em flagrante no drive-in a apavora porque o olhar do outro a referência a ela mesma, a transforma em objeto e a ser o que o Outro vê nela, ''uma criatura horrorosa pega em flagrante espiando''. Eryka não quer seduzir Walter, (Outro). O que existe é apenas um fascínio com ela mesmo como objeto para o desejo dele, pois o perverso está convicto de saber sobre o desejo do não-perverso.. A experiência de alteridade, no caso do perverso, é radicalmente excluída. É um gozo solitário, imposto, repetitivo, mortífero, excessivo. E aqui é importante diferenciar entre a fantasia apenas erótica com uso de fetiches da imposição angustiante desta forma de gozo.

 Janine Chasseguet-Smirgel pontua:  “(...) neles constatei uma clara feição compulsiva, com intenso sofrimento psíquico,submissão à lei implacável e desumana do gozar, de um estar preso a cena primaria."

Retomando a terminologia lacaniana, para o perverso o desejo do Outro é negado.  Assim sendo, masoquismo, sadismo e perversão excluem a possibilidade do amor devido sua negação da falta no Outro.
Para Eryka, o outro não se transforma em Outro nunca e é apenas objeto de manipulação e conhecimento, pois para o perverso o que conta é SABER o gozo do outro. Conforme Miller, ..."embora o perverso, sofra sobre sua capacidade de fazê-lo, o perverso se apresenta como capaz de revelar a verdade do gozo ao não-perverso." (Miller, 1996, 306)

 Ao ler a carta que Eryka escreveu com os detalhes de seus desejos  e ver a caixa de acessórios, Walter recusa-se ser seu brinquedo sexual. Ela, ao ver seu mais importante acessório fora de seu escorregar de suas mãos, Eryka vai em busca de recuperá-lo para seu uso.  Ao procurá-lo no treino de hockey, ela chega a declarar que o ama, e passam a ter um contato sexual desinvestido de todo o teatro que Eryka requer, quando ela interrompe o contato para  vomitar.  Walter reage :  ''Você fede, sua boca fede, você deveria deixar a cidade até que deixasse de feder um pouco, e deveria enxaguar sua boca mais vezes e não só quando meu pênis a enoja. Até hoje nenhuma mulher vomitou ao tê-lo dentro da boca.'' 
 O desempenho de Klemmer não obedece ao seu manuscrito sexual,  não convence e é quase totalmente mecânico. Este, sem dúvida, deixa de satisfazer seus padrões exigentes, quebrando a ilusão de que o sexo é algo que ela pode orquestrar racionalmente como um condutor isolado, em vez de um participante ativo.
 E, assim, uma noite, Walter aparece na casa de Eryka, e com raiva diz que estava quase se masturbando lá fora em frente a janela da casa dela.
Walter: 'É isso, não ? É isso que você quer? Sua pervertida, sua bruxa, quer passar a todos sua doença!'

   O que acontece em seguida, corre de acordo com as instruções iniciais de Eryka em sua carta onde consta trancar a mãe no quarto  'não se preocupe com a minha mãe' ela havia dito na carta. Apanhar em frente a sua mãe também era parte de sua fantasia pois mostraria para a mãe que já não é mais  seu objeto. Eryka diz para Walter:  ... 'há muito tempo eu ansiava por ser espancada'. E nas cenas que se seguem é marcante  o excelente desempenho do ator  Benoit Magimel atuando como alguém que representa um papel de maneira não convincente (Walter Klemmer como sádico), ele age como se falsificasse o estupro que ela havia pedido. 
   Isso não fica claro para muitos que não percebem e pensam Walter como um canalha estuprador. Neste momento, para Eryka, é como que ao ter Walter como parceiro, ele pudesse ocupar o lugar da mãe dela. Isso se constata muito antes, desde quando ela deu a carta para que ele lesse e em seguida abre o armário de roupas e diz, 'escolha agora o que devo vestir'.
   Então neste momento não é a perversão, mas o uso da estrutura perversa em direção a cura. Essa ideia também encontra respaldo quando Walter ao retornar da cozinha do apartamento onde foi pegar água, se depara com Eryka tentando destrancar a porta do quarto onde está a mãe dela e então Walter diz a ela, 'saio um minuto e você já está me traindo.'  Ele capta a tentativa dela de colocá-lo no lugar de sua mãe.  Essa estratégia masoquista posicionando Walter o lugar de sua mãe  serve para que ela se afaste da posição de objeto de gozo de sua mãe e ocupe o papel feminino de objeto de desejo de Walter. 

 Quando Walter diz à ela que ''você está doente e precisa tratamento'' ele não sabia que o papel sádico que estava  prestes a desempenhar seria o tratamento para que se abrisse outra cena possibilitando mudança de posição subjetiva em Eryka onde o sintoma poderia se transformar em Sinthome. Posicionando Walter para agredi-la e cortá-la, Eryka está se distanciando de sua mãe em direção a uma invenção, que será talvez um novo laço.
  Durante o ''estupro'' entre aspas mesmo porque a situação é ambígua, não se sabe se é estupro ou cura para ela. enquanto vai fazendo os atos de violência ele vai repetindo as ordens contidas na carta. E ao bater nela, ele fala que ela é em parte responsável pelo que está acontecendo e ela em resposta fala a palavra ''sim'' duas vezes.  Klemmer dá as ordens como ela havia  pedido, e não parece ser uma cena de violência masculina contra uma mulher que não consentiu.  Na saída pergunta se ela está bem e ela faz que sim com a cabeça.  Eryka passa a ocupar a posição feminina de objeto de desejo de Klemmer.   Ao final abre-se a possibilidade de outra cena para Eryka, a de encontrar uma nova posição subjetiva, pois através de Klemmer ela ataca a si mesma cortando sua ligação com seu objeto de amor e ódio, sua mãe, mas desta vez, não da forma impotente repetitiva como fazia antes.

O "estupro" é de fato "privado de seu suporte fantasmático" (palavras de Zizek), uma vez que sua finalidade é desobjetificar Erika, depositando-a no insuportável do Real. 
Para Roudinesco: “Em outras palavras a imersão na degradação comanda o acesso a um além da  consciência – o sublimar –, bem como à sublimação no sentido freudiano. E a travessia do sofrimento e da decadência leva assim à imortalidade, suprema sabedoria da alma.” (2008, p. 18).

 Ao som de Schubert o filme foi desvelando  sua face trágica que  assim como a vida, não tem um desfecho magnífico.
Na noite da performance no conservatório, Eryka, já num ato de distanciamento dos limites de sujeição á sua mãe, não a acompanha ao interior do teatro e do hall dirige-se para a rua.

Na cena final, Eryka, que levou para o recital uma faca dentro da bolsa, corta-se na altura do coração.   Agora ela corta o órgão metafórico do amor. Da possibilidade de amor que viu em Walter, amor que teria um importante papel , seria a única maneira de fazer acordo entre o desejo e o gozo, ''(…) pois com Lacan, percebemos que para que haja vínculos de qualquer instituição, ou de ensino, ou de funcionamento burocrático é necessário que o outro não se reduza a um objeto para seu gozo próprio.'' (Antonio Quinet, Os Outros em Lacan)  
Com sangue escorrendo pelo casaco e ignorando o olhar das pessoas que cruzam com ela, ela segue andando num ritmo lento, descompassado.  Não se sabe onde vai, podemos pelo menos supor que subjetivamente não mais voltará para o mesmo lugar de objeto.
 
A perversão é só uma das inúmeras soluções entre outras mil para o impossível da relação sexual e do amor e é um esforço para negar ser assombrado por essa impossibilidade.  Na perspectiva lacaniana o perverso quer positivar a falta do Outro, pois ele (o perverso) nega a castração e assim precisa colocar um falo, que seria o fetiche.

 "O real da não proporção sexual dá sentido ao real do sintoma que não tem sentido e se fixa contingentemente , geralmente traumaticamente, porém é um fora de sentido.(...) diz Lacan que o sintoma é uma suplência que supre a impossibilidade da relação sexual." Conferencia: "El Reverso de la Crisis", Colette Soler
(...) o sintoma naquilo que conjuga do real e do sentido – "a relação com o Outro não existe e por isso no lugar deste Outro colocamos o sintoma. Sobretudo, colocamos o sintoma no lugar do outro sexo: o homem para a mulher é um sintoma e às vezes também esta o é para o homem." Miller (p. 124) 

A lista composta das perversões que ela cultivou por anos parece ser um meio de escapar do vácuo dentro da concha em que reside. Ela quer controlar, ela que ser espancada, humilhada, cortada, controlada, quer ser degradada, machucada, ferida.  Sim, quer tudo isso, mas através de seu encontro inesperado com Walter Klemmer, talvez agora ela esteja vivendo a possibilidade de poder sentir, desejar e ser amada. Ser finalmente um Sujeito de Desejo.

trailer do filme

Graça Nunes é psicanalista, poeta e fundadora do blog Cellar Door Porta do Porão Porte de la Cave

Um comentário:

Anônimo disse...

Acabei de ver esse filme e PRECISAVA de alguma explicação para tudo o que vi.
Estranho por que ao mesmo tempo que me chocou, tb me tocou demais.
Obrigada pelo texto, me ajudou a entender melhor .