domingo, 24 de março de 2013

Outro (a)roma: A história de Jean-Baptiste Grenouille

de Silvia Helena Facó Amoedo
A história de Jean-Baptiste Grenouille se passa na França do século XVIII. Nascido como dejeto, em meio à putrefação de um mercado de peixe em Paris, Jean-Baptiste é abandonado pela mãe e, para sobreviver ao desamparo, o seu faro necessitou ir além, produzindo um choro prenhe de vida para anunciar a sua chegada, entre moscas e vísceras de peixe. Despertadas pelo choro, as pessoas que estavam presentes na feira, o descobrem e o recolhem como um dejeto. Assim, ele marcou a sua entrada no mundo, sobrevivendo ao próprio nascimento. Em consequência do abandono, sua mãe é presa e condenada à morte, e Jean-Baptiste, “a coisa recém-nascida”, é entregue aos cuidados de uma ama-de-leite, sem despertar qualquer instinto materno. Em poucos dias, troca-se várias vezes de ama-de-leite: nenhuma delas suporta ficar com ele, por sua inquietante presença. Diziam que ele era faminto demais, que sugava tudo.
O caso de Jean-Baptiste foi levado, então, ao padre Terrier. O padre tentou aproximar-se da criatura sem criador, sem Outro. Por um momento, permitiu-se a fantasia de que era o pai de Jean-Baptiste, concedendo-lhe um lugar no mundo. Mas, a fantasia de “papai, filhinho e mamãe” se desmoronou tão logo o padre sentiu-se desnudado pelas narinas desavergonhadas de Jean-Baptiste.
O menino foi entregue, então, aos cuidados da Madame Gaillard, uma mulher indiferente à vida desde que perdera o olfato e toda a sensibilidade, em consequência de maus-tratos na infância. Encapsulado em si mesmo, Jean-Baptiste não se realizava entre os outros. Assim cresceu enxergando tudo com seu nariz, proferindo poucas palavras, sem estabelecer laços, criando e resguardando em si mesmo odores que não existiam. Jean-Baptiste tornou-se reduzido ao seu olfato, expirando e inspirando.

O olfato é um dos sentidos mais primitivos. Freud, na carta 75 a Fliess, de 14 de novembro de 18971, em busca de encontrar a fonte do recalcamento, retoma a hipótese levantada anteriormente, inferindo que o recalque podia ser substituído por alguma coisa essencial, alguma coisa orgânica que jazia por trás dele. Freud, nessa época, ligava o recalque às sensações do olfato que, em consequência da postura ereta do homem, foram modificadas e, por isso, esse sentido não pode mais produzir um efeito excitante, como nos animais. Nesse momento, o recalque, chamado originário, faz emergir a pulsão, diferenciando a sexualidade humana do instinto animal.
Jean-Baptiste cresceu levantando o nariz, não para “considerar-se especialmente nobre”, mas para intensificar e conhecer todos os cheiros do mundo. Como ser falante, ele já estava implicado em seu corpo por essa fala e, mesmo sem falar, não podia ser comparado à espécie animal; fazia parte do mundo simbólico. Esse corpo, que permite ao significante encarnar-se, é dado ao sujeito na experiência especular, um drama cujo impulso precipita-se da insuficiência para a antecipação; ou seja, a criança, com suas fantasias do corpo despedaçado, dada a prematuridade neurofisiológica, antecipa a apreensão do seu corpo a partir da imagem do outro. É o momento da constituição do eu, do reconhecimento de si mesmo. Esse momento faltou a Jean-Baptiste, pois sua mãe não respondeu ao seu apelo, impossibilitando a ilusão da totalidade de seu corpo no espelho e impedindo que ele buscasse no olhar do Outro a autenticação de sua própria imagem, permanecendo no tempo mítico do apelo. Como consequência, a função constituinte do olhar foi substituída pelo primitivo cheiro. Assim ele orientou o seu caminho sem precisar de luz para ver, olhando com o nariz, na busca instintiva do impossível de todos os aromas e odores.

O desejo para Jean-Baptiste se constituiu e se perdeu de forma absoluta, restando o gozo, um “real que não cessa de não se escrever”. “O lugar do real, que vai do trauma à fantasia – na medida em que a fantasia nunca é mais do que a tela que dissimula algo de absolutamente primeiro, de determinante na função da repetição – aí está o que precisamos demarcar.”2
Certa vez, ele perseguiu com o seu faro um cheiro que jamais sentira antes, porque precisava tê-lo para o sossego do seu coração. Pela primeira vez, sentiu-se aprisionado pelo aroma - palavra contém “amor” - e, irresistivelmente, foi conduzido lentamente até uma jovem, deparando-se com um aroma indescritivelmente precioso. Ele começou a aspirar todo o odor que a jovem exalava e, como resultado de seu sistema de realidade pouco desenvolvido, terminou por enforcá-la. Depois de a moça estar morta, ele sugou todo o cheiro dela. Experimentou a essência do cheiro da mulher num estado de êxtase para além do princípio do prazer, como se o gozo absoluto existisse. Ao procurar o perfume, ele encontrou a essência e experimentou, pela primeira vez, a felicidade, como se tivesse nascido pela primeira vez. Do nada, ele se deparou com o tudo e, sem a alternância da presença-ausência, própria do mundo simbólico, ele permaneceu preso às redes do imaginário, nas quais prevalece a alienação.
Nas suas caminhadas, Jean-Baptiste conheceu Giuseppe Baldini, perfumista experiente, com quem aprendeu, com muita proeza, que há um saber sobre o olfato e que é preciso encontrá-lo, aprendeu então a linguagem dos aromas e tudo mais sobre a arte do perfume. Giuseppe Baldini constatou que o aprendiz, com a velocidade ilimitada do seu olfato, era capaz de criar qualquer perfume, possibilitando ao mestre ascender à posição de maior perfumista da Europa. O mestre ensinou-lhe tudo, com a condição de que Jean-Baptiste partisse de Paris. E assim aconteceu.
Jean-Baptiste precisou ultrapassar as condições humanas para atingir os seus objetivos. Nessas passagens, as pessoas que se relacionaram com ele, funcionavam como suplência do que lhe faltava, e morriam logo após cumprirem essa função, de modo que, quando ele partia, não deixava e não levava nenhum vínculo. Seguia com o apagamento de sua história, que se dissipava como uma névoa.
Com o conhecimento adquirido, Jean-Baptiste partiu para Grasse, a cidade dos perfumes, e no caminho sentia o ar cada vez mais puro à medida que se distanciava dos seres humanos. Agora, o plano de chegar mais rápido ao destino foi relegado; ele queria apenas ir embora para longe das pessoas, em direção à maior solidão possível. Chegou ao ponto mais distante das pessoas e mais próximo de si mesmo, uma gruta na montanha onde nenhum ser vivo jamais estivera antes, um lugar sem cheiro. Sobrevivia em circunstâncias limites para obter a satisfação plena. Ficava imóvel no silêncio da escuridão invocando todos os cheiros conhecidos, entre eles “o cheiro de assassina de sua mãe”. Ele não sabia o que era assassina, mas sabia o que era o cheiro de assassina. 

Jean-Baptiste criou o seu reino encantado com fantasias construídas apenas de odores das coisas; “Ele, o Grande, o Único, o Maravilhoso”, o Pleno. Lacan3 diz que a fantasia é como um quadro que vem colocar-se no enquadramento de uma janela através da qual nós vemos e, como uma tela, nos protege da visão do mundo pela janela.

      Porém o mundo está lá e, assim, sete anos após, o real retorna ao mesmo lugar: “nenhuma luz, nem cheiro, nada de nada”; só a névoa, o seu próprio cheiro inapreensível, que se dissipa por toda parte, impossibilitando Jean-Baptiste, o homem capaz de cheirar qualquer ser humano, de cheirar a si mesmo. Para o trauma, não há significante; há uma direção - a repetição -, que insiste em retornar. O trauma é inassimilável para o sujeito, no entanto ele “não cessa de não se inscrever na repetição”, apontando para onde se acha o significante que o discurso oculta. Assim, Jean-Baptiste busca uma saída para o seu desamparo: abandona a sua mais completa solidão em busca de um saber sobre si mesmo.
        Para suprir a sua falta de cheiro, Jean-Baptista criou para si mesmo um perfume imitando o odor humano e passou a conviver com uma enorme “satisfação fria”, como um ser humano entre os outros seres humanos. Sabia que estava em seu poder criar um odor sobre-humano, de modo que quem o cheirasse o amaria até a loucura. Para isso, ele se dirigiu até Grasse com o propósito de obter os melhores aromas. Chegando lá, foi surpreendido pelo cheiro extraordinário de uma jovem, um odor que o remeteu a Paris, o mesmo da jovem que ele havia matado. E ele queria essa fragrância, não para sorver e perder, como da outra vez, mas para fazer dela o seu próprio odor. Ao ver a jovem, Jean-Baptista amou pela primeira vez, não como um ser humano, mas a sua fragrância. Precisava esperar um pouco mais para extrair da jovem a essência do seu cheiro; enquanto isso, aperfeiçoava-se e ampliava as suas habilidades, até que ela chegasse à flor da idade, tornando-se pronta para ser colhida.
Jean-Baptista perseguiu seu objetivo com obstinação, aperfeiçoando sua técnica com todas as regras da arte. Matou vinte e quatro jovens, as mais belas virgens, para extrair o aroma de suas almas. E para compor o perfume final, matou, após dois anos, a jovem que florescia, pois acabara de completar dezesseis anos. Era a filha única do vice-cônsul. Jean-Baptiste foi invadido por uma paz em seu coração, embora, para ele, a jovem só existisse como odor incorpóreo.

Jean-Baptiste foi acusado e condenado à morte pelas barbáries cometidas. De posse do perfume perfeito, passou algumas gotas da essência no seu corpo e seguiu para o encontro com a morte. A morte foi, mais uma vez, adiada, criando um novo significante. Dessa vez, além de sobreviver, ele foi reconhecido como filho pelo seu maior acusador, o pai da vigésima quinta mulher, a que lhe proporcionou escrever o “impossível”, a perfeição. As pessoas se entregaram ao seu extasiante perfume e, arrebatadas por ele, entraram numa comunhão de amor com o universal. Impregnado pelo perfume, nascido inodoro, no lugar mais fedorento do mundo, criado sem amor, ele tornou-se amado por todos. Esse foi o maior triunfo da sua vida e, ao mesmo tempo, o maior fracasso, pois ele mesmo não conseguia amar ninguém, por isso jamais encontraria satisfação no amor, não saberia jamais quem ele era, porque nunca fora olhado pela mãe.
Libertado, Jean-Baptiste retornou ao lugar onde nascera, e nada mudou: o mesmo lugar, as mesmas condições, e ele continuava só, como sempre esteve, e, mesmo sob o melhor perfume, sabia que só existia a sua total ausência de cheiro, que o impossibilitava de viver. Não restava mais nada, senão retornar às origens, para morrer. Assim, ele realizou seu último gesto, em silêncio, sem palavras que o nomeassem: despejou o frasco de perfume perfeito em seu corpo e se entregou à morte. Foi dessa forma que morreu, despertando nos presentes o verdadeiro sentido do olfato. As pessoas em volta perceberam a sua ausente presença, e instintivamente o consumiram: retiraram dele a sua energia vital, o perfume perfeito e sua insignificante vida. “O real é aqui o que retorna sempre ao mesmo lugar – a esse lugar onde o sujeito, na medida em que ele cogita [...] não o encontra.” .
E assim ele morreu como nasceu, excluído da cadeia significante, como uma coisa que nem cheira nem fede - sem perfume e sem ser.
Silvia Helena Facó Amoedo é Psicanalista. Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Brasil / Fórum Natal. Mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará.

3 comentários:

Alessandra Cavagna disse...

mt bom! Ótimo texto!

Igor Ananias disse...

Texto maravilhoso vi o filme hoje e isso relata tudo que esta nele.

veronica dantas disse...

Penso na força do olhar materno, aquele que nos atravessa através da sua linguagem amorosa, que inaugura os cinco sentidos. Só essa falta primeira nos torna capazes de suportar todas as outras, porque nos funda seres desejantes. Que nos falte o mundo desde que a primeira posse tenha sido o amor de um seio materno, de uma mãe desejante de nosso ser e estar no mundo. Só assim podemos ser alquimistas do nosso desamparo...esse filme é lindooo!