sábado, 17 de novembro de 2012

Macabéa: uma promessa de ser

de Silvia Helena Facó Amoedo
filme A Hora da Estrela - roteiro adaptado do romance homônimo de Clarice Lispector
 Macabéa: uma promessa de ser
Só no ato do amor - pela límpida abstração de estrela
do que se sente - capta-se a incógnita do instante...
Clarice Lispector

Freud afirma que “os escritores criativos são aliados muito valiosos, pois eles costumam conhecer toda uma vasta gama de coisas entre o céu e a terra com as quais a nossa vã filosofia ainda não nos deixou sonhar”. Clarice Lispector concebe a obra de arte como uma loucura diferente, um ato de loucura o qual germina como não-loucura e abre caminho.·.
A hora da estrela é um livro feito sem palavras, como diz o narrador da história. É uma fotografia muda, um silêncio; enfim, é uma pergunta, que me conduziu, a partir da história da protagonista, Macabéa, história de uma inocência pisada, de uma miséria anônima, a formular algumas observações sobre a constituição do sujeito em referência àquilo que o causa, o objeto a, objeto causa do desejo. O objeto a foi introduzido por Lacan para designar o objeto desejado pelo sujeito, não é um objeto do mundo. Não é representável como tal: ele é inarticulável na palavra,
é uma letra fora da fora da cadeia significante. No entanto pode ser identificado como falta-a-ser, ou sob a forma de fragmentos
perdidos do próprio corpo - o seio, as fezes, a voz e o olhar.
Clarice Lispector descreve o inexpressivo que sempre foi a sua busca cega e secreta, e nos conta como entrou naquilo que existe entre o número um e o número dois, como viu a linha de mistério e fogo, que é linha sub-reptícia. Diz ela: Entre duas notas de música, existe uma nota, entre dois fatos, existe um fato, entre dois grãos de areia, por mais juntos que estejam, existe um intervalo de espaço.
         O sujeito, segundo Lacan, constitui-se no campo do Outro e só é representado num intervalo de espaço, por um significante para outro significante, pois “o significante se produzindo no campo do Outro faz surgir o sujeito de sua significação. Mas, ele só funciona como significante reduzindo o sujeito em instâncias, a não ser mais que um significante, petrificando-o pelo mesmo movimento com que o chama a funcionar, a falar, como sujeito”. Assim como uma fotografia muda, o sujeito exilado de sua subjetividade “ex-siste”, ou seja, quando aparece como sentido em um lugar, em outro desaparece, e o objeto a é causa da divisão do sujeito, é o que resta de irredutível nesta operação de separação entre dois: o Outro e o sujeito. É uma perda do próprio corpo, antes mesmo de existir. Por isso o sujeito não sabe qual objeto a ele é para o Outro e se pergunta, como condição absoluta de existência: “O que quer o Outro de mim?”- pergunta para qual não há resposta, restando apenas o silêncio de ser.

Caminharei, para falar do sujeito, com a protagonista Macabéa, seus encontros e desencontros com José Olímpico de Jesus, passando por Glória - a conexão da personagem com o mundo – e, finalmente, chegando ao último encontro, com a cartomante, quando Macabéa é atropelada pela promessa de ser.
Sobre a vida pregressa dessa moça, conta-se que nascera de maus antecedentes, fruto de um cruzamento de o quê com o quê, de uma idéia vaga, e que já não sabia mais ter tido pai e mãe. Tinha esquecido os seus nomes e o gosto de tê-los. Desamparada no mundo, nada sabia do seu não saber, da sua história, do seu lugar. Quando criança perdera o apetite, conservando, como sua única paixão, a descoberta do sabor de goiabada com queijo, interditados, muitas vezes, como castigo, pela tia, encarrega de sua educação após a morte de seus pais.
Para além da satisfação da necessidade, o que o sujeito demanda é o amor. E dar amor, segundo Lacan “é não dar nada que se tenha, pois é justamente por não se ter que se trata de amor”. No mais-além da demanda - demanda incondicional de amor -, encontra-se o desejo, com sua excentricidade em relação à satisfação. Em última instância, “aquilo com que o desejo confina [...], em sua forma pura e simples, é a dor de existir”.

Sem saber o porquê, Macabéa foi morar no Rio de Janeiro, ocasião em que conheceu José Olímpico de Jesus e, sem saber que sabia, soube o que era desejo: fome - mas não de comida -, o não-sei-o-quê. “O desejo, seja ele qual for, em estado de desejo puro, é algo que, arrancado do terreno das necessidades, ganha uma forma de condição absoluta em relação ao Outro. Ele é a margem, o resultado da subtração, por assim dizer, da exigência da necessidade em relação à demanda”.

É na angústia da dor de existir que Macabéa atenua com aspirina a sua história feita pelo quase-nada que ultrapassa as palavras, por um sopro de vida quase ilimitado. Macabéa depara-se com a questão do ser: Quem sou eu? Interroga -se. E, hesitante a respeito do seu ser, diz: já que sou, o jeito é ser. Não sei bem o que sou, me acho um pouco... De quê? Quer dizer... não sei bem quem sou. Sou datilógrafa e virgem, e gosto de coca - cola. Enquanto sujeito, Macabéa é diferente de como se enuncia. É um efeito do significante, sem substância, só podendo ser representado assim, como eclipse de uma estrela binária, no apagamento instantâneo de uma estrela por outra.
Macabéa não sabe o que está dentro do seu nome; sabe apenas que o recebeu devido a uma promessa feita por sua mãe a Nossa Senhora da Boa Morte, para que ela alcançasse o seu fim, a vida. Conheceu, desde o nascimento, a morte, ainda que sob a forma de desconhecimento, o que a fez acreditar que ela seria diferente, que nunca morreria. Seu próprio nome aponta para um contraste, pois ela não se aproxima em nada da índole heróica dos lutadores macabeus. O nome da personagem, ao ser, algumas vezes, referido pelas sílabas iniciais – Maca –, mantém uma analogia com o fato de que Macabéa seria - quer no plano metafórico (pela doença, pobre, sem conhecimento) quer no plano efetivo, conforme se concretiza no final do texto - portadora da morte.
Com a promessa de morte inscrita em seu nome pelo desejo materno, a única coisa que lhe restava era garantir a sua vida inspirando e, ao mesmo tempo expirando a vida, sem se indagar o porquê, como se o mundo fosse fora dela e ela fora do mundo. Saber o porquê afastava Macabéa da vida, aproximando-a da morte.
Desse modo, dentro ou fora da vida, ela falava, sim, mas era extremamente muda: muitas vezes não perguntava com palavras, apenas com os olhos, porque sabia que não havia respostas, senão: é assim porque é assim, e assim vivia defendendo-se da morte com um viver de menos.
Gostava de ruídos, de anúncios comerciais, do tic-tac-tic-tac, dos sons das coisas, sons que a protegiam do determinismo que lhe imprimiam as palavras vindas do Outro, que interpelam o sujeito, fazendo-o dizer mais do que pretende.
A realidade inacessível de Macabéa era demais para ser (a)creditada, embora a moça acreditasse em tudo - o que existia e o que não existia. Macabéa não tinha: era simplesmente desprovida. E sua falta apontava para a falta de José Olímpico de Jesus, que, representando-se como vence(dor) tentava preencher a falta de Macabéa. Ele falava coisas grandes, mas ela só prestava atenção em coisas insignificantes como ela. Insignificâncias que constituíam o seu esplendor de estrela cadente.
Macabéa insistia com suas perguntas sem respostas, ou seja, demandava amor – “demanda daquilo que não é nada, nenhuma satisfação particular, demanda do que o sujeito introduz por pura e simples resposta à demanda". Ao endereçar a sua demanda a José Olímpico, a moça tornava-se alguém e, com suas questões sem respostas, punha-o no lugar de causa de seu desejo, equivocando-o em seu saber suposto. O que queria saber Macabéa com suas perguntas? O acesso ao desejo não é pela referência ao objeto, porque não há intersubjetividade. Ela buscava em José Olímpico o lugar de seu desejo na medida do que lhe faltava e ele não sabia. Ele, ao responder as perguntas de Macabéa com a falta, pois não sabia, apontava para ela o lugar do desejo e o seu enigma. José Olímpico de Jesus compara Macabéa com um cabelo na sopa, o qual tira a vontade de comer. Assim, sai da vida da moça sem desvelar o seu enigma, o seu sexo, a sua marca, a sua sensualidade lasciva, atrofiada - como os seus ovários -, nascida como um girassol num túmulo, enfim, a sua feminilidade.

Macabéa era feliz porque achava que a pessoa era obrigada a ser feliz. Vivia imaginariamente de si mesma. Na separação, deparou-se com a dor de existir, com a falta no/do Outro, reconhecendo que o Outro é barrado e que nunca vai poder preenchê-la. O Outro não é completo.
Glória, a mulher desejada por José Olímpico, despertava, com sua gordura, o ideal secreto de Macabéa: a formosura. Com a separação de José Olímpico de Jesus, Glória tornou-se a sua ligação com o mundo, e por intermédio dela, Macabéa foi buscar o seu destino nas cartas. Era a primeira vez em que vislumbraria um futuro.
Macabéa supõe que a cartomante tenha o saber sobre o seu desejo e a põe na posição de sujeito suposto saber, para responder a sua questão: quem sou eu? A cartomante ocupa o lugar do Outro e responde com promessas de completude à demanda de amor endereçada por Macabéa. O objeto causa do desejo do sujeito não pode ser articulado na palavra, mas, para além da cartomante, Macabéa capta a incógnita do instante e é atropelada pela promessa de ser.
Em resposta ao tudo, já não mais existe como sujeito do desejo, sujeito dividido por estrutura, porque tudo é um oco nada. Assim, desvela-se a sua falta-a-ser, e dessa forma, a verdade que existe anteriormente ao sujeito extingue-se no saber. No âmago do seu ser, Macabéa verbaliza a(s) última(s) palavra(s): eu sou, eu sou, eu sou.
Silvia Helena Facó Amoedo é Psicanalista. Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Brasil / Fórum Natal. Mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará.

Um comentário:

cynthia zaz disse...

Fantástico filme pra análise.