sábado, 7 de julho de 2012

Desejo: O Obscuro Objeto em Woody Allen

de Nilson Perissé

O coração é um músculo muito elástico”, diz Mickey, personagem de Woody Allen em Hannah e suas Irmãs (1986). Essa emblemática frase ajuda não apenas a compreender um dos temas recorrentes do autor, como também serve de chave de leitura para a inquietação e a agitação que dão vida aos seus tantos personagens.
Elliot (Michael Caine), bem sucedido contador, é casado com Hannah (Mia Farrow), mas deseja Lee (Barbara Hershey), sua cunhada. Ao longo do filme, ele faz movimentos que só o desejo pode ensejar: segue Lee nas ruas, adianta-se algumas quadras e pára numa esquina, até que ela, “casualmente”, se depara com ele em seu caminho até um grupo de Alcoólicos Anônimos. Ao saber para onde ela se dirige, sua reação é patética: “Alcoólicos Anônimos? Deve ser interessante. Gostaria de um dia ir também”. Lee é a obsessão de Elliot, que pensa nela em cada livro que folheia, em cada poema que lê.
(Realmente não sei o que há em você que fecha/ e abre; somente algo em mim compreende/que a voz dos seus olhos é mais profunda que todas as rosas)/ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas, é a poesia de E. E. Cummings da qual ele faz uso para expor seus sentimentos. E dá certo. Lee sente-se curiosamente atraída por Elliot e viram amantes. Falam em separar-se de seus respectivos cônjuges para ficar juntos, ela o faz de imediato e ele… não. Ao longo de um ano inteiro, Elliot, antes tão obsessivamente desejante, ficará dividido entre Lee e Hannah. O desejo, que antes motivava todos os seus comportamentos, não mobiliza mais ações ou pensamentos. Lee, por sua vez, vai perdendo o encanto pelo amante hesitante e começa a sair com um professor de literatura. Um ano depois de o fogoso Elliot ter declarado a si mesmo o quanto estava apaixonado por ela, só lhe resta admitir que não compreende mais o que o deixara tão fora de si por aquela mulher comum.

Na galeria de personagens allenianos, Elliot não está só. A volatilidade do desejo encontra eco em personagens de outros filmes, que mobilizados pelo desejo, trocam de parceiro amoroso como se fossem guiados por uma compulsão, feito vítimas de uma atração, que une, e da vida real, que desune. De Winona Ryder em Celebridades (1998) a Christina Ricci em Igual a tudo na Vida (2003), todos estão permanentemente tentados à infidelidade conjugal ou sem controle diante do desinteresse amoroso em relação ao seu par. Todos parecem concordar com uma premissa psicanalítica: “estar diante da possibilidade de realização de um desejo é motivo de maior alegria do que tê-lo realizado” (Kehl).
Desejo/realização do desejo/ “ainda não era isso”, é a fórmula que perpassa a existência dos personagens do universo alleniano. Frequentador dos consultórios psicanalíticos há décadas, é de se esperar que Woody Allen conheça bem a premissa psicanalítica do desejo escorregadio, aqui explicada pelo filósofo Dany Robert-Dufour: “O sujeito, tendo buscado no objeto a satisfação de seu desejo, pode apenas descobrir, sendo dada a natureza da pulsão, que ‘ainda não era isso’, que a falta que havia suscitado o desejo persiste. (…) Se ‘não era isso’, então se é conduzido a voltar a demandar” (Dufour). Seguindo a premissa lacaniana de que ali onde se conhece não se deseja, e ali onde se deseja não se conhece, o Elliot deHannah e suas Irmãs fez o único movimento que poderia destruir seu desejo: conseguiu realizá-lo junto a Lee e, assim o fazendo, perdeu-o. Um chiste, formulado por Allen em Memórias (1980) apresenta uma variação dessa tese: “Certo médico, apaixonado por duas mulheres, resolveu juntar o corpo de uma e o cérebro da outra numa só e com isso produzir a mulher perfeita. Para sua surpresa, apaixonou-se pela outra, feita com os restos…
A ciranda do obscuro objeto de desejo é cantada e contada em vários filmes do autor, feito uma verdadeira compulsão à repetição. Vicky Cristina Barcelona (2008) é, talvez, um dos melhores exemplos. Aqui e ali, aparece ou volta à cena a insatisfação desejante de seus personagens: Cristina (Scarlett Johansson) encontra uma forma de expressar-se através da fotografia e sente-se acolhida no amor por Juan Antonio (Javier Bardem) e Maria Elena (Penelope Cruz), mas semanas depois sente-se incomodada por um vazio inexplicável e volta para os Estados Unidos tão insatisfeita quanto estava ao sair de lá; Vicky (Rebecca Hall) tem uma perspectiva de carreira e um casamento tão planejados quanto pode, mas sente-se abalada pelo desejo que sente por Juan Antonio, até descobrir que esse desejo não é compatível com a vida organizada e planejada que aspira para si. Mesmo Judy (Patricia Clarkson), a parenta que acolhe as moças em Barcelona, mulher madura e aparentemente realizada, de vida movimentada, luxuosa e fascinante, quer sair de seu casamento, embora ache tarde demais para isso. Conclusão desse filme: ninguém está onde deseja estar, e mesmo quando acha que está, sente-se atraído por algo ou alguém que não está ali. Poucos anos depois, Allen insinuará que a questão é mais complexa: em Meia noite em Paris (2011), mostrará que vivemos insatisfeitos onde estivermos, e isso inclui o tempo no qual se vive. O personagem Gil Pender (Owen Wilson) não apenas gostaria de deixar os Estados Unidos e viver na França, mas viver na Paris dos anos 1920; a mulher por quem está apaixonado, Adriana (Marion Cotillard) já vive em Paris, mas gostaria de viver na Renascença. A década de 2000 é sem atrativos para ele, os anos 1920 não a satisfazem.

Talvez a melhor metáfora que Woody Allen tenha escolhido para discutir essa ideia encontre-se na cena inicial de Memórias (1980). Sandy Bates (Allen) encontra-se num trem em meio a passageiros tristes e desinteressantes. Quando olha para o trem ao lado, vê que as pessoas no outro vagão ali estão em festa, divertindo-se, distraindo-se em conversas empolgantes. Sentindo-se sufocado, ele tenta, inutilmente, mudar de veículo, mas os trens partem e não é possível trocar de condução. Com essa simples imagem, o autor nos leva a nossas mais desconfortáveis experiências. Quem nunca viveu a sensação de ter sentado na mesa com as pessoas menos interessantes e de ter, entre os colegas de classe, as crianças mais sem graça? Quem nunca flagrou-se a contemplar com inveja um grupo do qual não consegue participar? Allen acena para essa verdade frustrante: a vida parece pulsar do lado de fora da janela, do outro lado da rua, ou nas companhias com quem não se está no momento.
Se esse problema é tão repetido em sua obra, terá o autor descoberto alguma solução? A julgar por sua produção, não parece terem sido encontradas respostas, mas talvez pistas. Ele sinaliza, por exemplo, que a natureza intrínseca do desejo é ser fugaz. No episódio Édipo Arrasado, do longa Contos de Nova York (1989), a personagem Lisa (Mia Farrow), chega à conclusão de que não quer mais manter seu relacionamento com Sheldon (Allen). Num bilhete de despedida, ela reflete com simplicidade: “É engraçado. Você de repente acorda um dia sem amor. A vida é estranha”.
Tão estranha que pode surpreender mesmo quando se pensa que o desejo acabou. Em Todos dizem eu te amo (1996), Joe (Allen), após anos separado de sua primeira esposa (Goldie Hawn), rouba-lhe um beijo e, com melancolia, deseja que seu casamento tivesse ido adiante; em Dirigindo no Escuro (2001), Val Waxman (Allen) não apenas lamenta ter perdido a esposa, Ellie (Tea Leoni), como consegue voltar para ela após muitas dificuldades. O mesmo acontece com Joe (Joe Mantegna) em Simplesmente Alice (1990), que após grandes desavenças, e contra todas as previsões, refaz seu casamento com a ex-esposa. Allen mostra que, mesmo ali, onde se achava que o desejo havia arrefecido, há uma chama que pode trazer reviravoltas inesperadas.

Em consonância com as premissas da psicanálise, ele sinaliza que desejo e felicidade não costumam ser pares perfeitos. A felicidade, tal qual se busca, implica em saciedade, conforto e estabilidade, enquanto que desejo implica em singularidade, tensão e conflito, o que teria levado Lacan a dizer, no seu seminário sobre Ética (4), que o neurótico visa a felicidade ao preço de seu desejo e, no tratamento psicanalítico, ele tem a oportunidade de encontrar o caminho de seu desejo, ao preço de sua felicidade. Um bom exemplo de quem não paga o preço do desejo encontra-se no amargo depoimento de Judy (Patricia Clarkson) emVicky Cristina Barcelona (2008): “Meu psiquiatra diz que estou apavorada demais para agir e que estou procurando alguma solução mágica, o que é pouco realista. Ter um caso não é a solução. Mark é maravilhoso. Com certeza qualquer insatisfação minha é por um problema meu. Eu só não posso deixá-lo e sei que nunca vou fazer isso. Eu simplesmente não posso. Tenho muito medo e a hora de fazer isso já passou”.
Tudo na produção de Woody Allen leva ao confronto eterno do homem com seu desejo, numa perspectiva em que, mesmo as relações que sugerem estabilidade, apresentam surpresas. Vemos isso em Hannah e suas Irmãs (1986), quando uma sorridente Holly (Diane Wiest) diz que está grávida para o marido Mickey (Allen), sem saber que ele é estéril…
Mas nem tudo é pessimismo na articulação entre Woody Allen, e a premissa lacaniana de que “a única coisa da qual se possa ser culpado é de ter cedido de seu desejo” (Lacan). Os finais de Simplesmente Alice (1990) e de Meia noite em Paris são otimistas: no primeiro, Alice (Mia Farrow) troca a vida de luxo e futilidade por uma mais modesta e com privações, porém animada pelo desejo de servir em trabalhos assistenciais; no segundo, Gil (Owen Wilson) rompe o noivado com a noiva a quem não amava e com quem convivia por acomodação, deixa Adriana (Marion Cotillard) no passado da Belle Époque e volta para a época atual, onde tem um romance para escrever (seu desejo) e onde encontra, no meio da chuva, uma mulher que parece encarnar seu ideal amoroso. Com esses incomuns finais felizes, Woody Allen parece dizer: é possível viver na própria época e sem nenhum luxo ou glamour, desde que aberto a fazer da própria história a história de seu desejo.

Nilson Perissé é Mestre em Sistemas de Gestão, psicanalista em eterna formação e bacharel em Comunicação Social. É autor das páginas Filmes para recordar, repetir e elaborar e Psicodinâmica do Trabalho no Facebook.

Um comentário:

Marina Moreira Carrilho disse...

Gostei muito do texto. Principalmente do final; sim há saída, só não é nem mágica, nem glamurosa.