sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Ninfomaníaca: Práticas do Infinito

de Christian Ingo Lenz Dunker
Há uma longa tradição no ocidente cristão que associa inovações estéticas na forma de falar da sexualidade com transformações políticas em nossas formas de vida. E entre tais políticas há as que privilegiam a vida como finitude, com seus afetos fundamentais de medo e desamparo, e as que pensam a vida incluindo o problema do infinito, seja ele o infinito do desejo, seja ele o infinito do tempo, ou ainda o infinito indeterminado do diálogo entre vivos e os mortos. Assim é o Marques de Sade, e sua Filosofia na Alcova, e a aurora da revolução francesa de 1789; os românticos de segunda geração, como Byron e Mary Sheley e seus seres góticos adoecidos no sexo, bem como maio de 1968, a revolução sexual de Reich a Bukowsky e principalmente o feminismo. Cada um destes momentos tiveram também seus teóricos: os libertinos e suas controvérsias em torno da existência ou não de uma moral natural, no século XVIII, a sexologia de Kraft-Ebbing a Havelock Elllis, no século XIX e a psicanálise de Freud a Robert Stoller no século XX. Cada um destes momentos esta marcado por uma problemática relativa ao infinito: o divino marquês investigava o infinito no corpo-natural, os ultrarromânticos queriam saber do infinito da vida (vampiros, Frankensteins, fantasmas e zumbis), enquanto a psicanálise nasce como uma investigação sobre o infinito do desejo (sem tempo, sem negação, sem contradição).
Foucault queria que a análise crítica desta sucessão servisse para que parássemos de localizar a verdade do sujeito neste campo heteróclito, de desidentidade do sujeito, que é a sexualidade. Eventualmente sua crítica contém algo mais importante do que ele mesmo teorizou. Não só a saga da dominação do homem pelo homem, a partir de sua subserviência ao sexo rei. Não apenas a dominação por discursos impróprios, nem mesmo a neutralização a sexualidade na medida em que somos incitados a falar mais e mais dele. Foucault chamou de hipótese repressiva, certas condições históricas de emergência da psicanálise, como a naturalização da maternidade, a perversão dos adolescentes e a sexualização da infância. Uma característica forte desta “estrutura de ficção” é o horror ao infinito. A sexualidade é perigosa, principalmente para os desprevenidos, por que ela sempre pede mais, se damos a mão ela quer o braço, e se damos o braço ... não sabemos onde vamos parar. É este temor ao infinito que Lacan pensou por meio de uma crítica da gramática da necessidade (nécessaire = ne – cesse: o que “não cessa”). Ora, o que não cessa de se escrever (necessidade), presume o que cessa de não se escrever (contingência), assim como o que não cessa de não se escrever (impossível) presume o que cessa de escrever (possível). A crítica de Lacan tenta reduz o potencial de periculosidade da coisa sexual, mostrando que o infinito não está apenas na necessidade, mas desdobra-se em várias incidências do infinito, inclusive este infinito negativo e impossível que não para de não acontecer.
Ninfomaníaca, o filme de Lars Von Triers é também um exercício estético sobre as modalidades do infinito. Ele caminha entre as três narrativas fundamentais sobre a sexualidade, do naturalismo descritivo que nos lembra as enciclopédicas 120 Jornadas de Sodoma e Gomorra de Sade, à investigação científica de Joe (Charlotte Gainsbourg) em torno de seu próprio corpo, que nos lembra os anatomistas do prazer, além do tratamento espontâneo e experimental de um sintoma sexual, qual seja sua súbita perda da capacidade de sentir prazer, o que nos faz pensar na experiência psicanalítica. Ela conta suas aventuras para Seligman (Stellan Skarsgard) mistura de psicanalista, estudioso da sexualidade e religioso assexuado. Assim como em Melancolia, Von Triers aborda a experiência do fim, do fim do mundo, do fim do desejo, agora em Ninfomaníaca ele estuda o que seria uma vida em estado de infinitude. Podemos dizer que Melancolia é um estudo em torno da substituição da hipótese repressiva pela hipótese depressiva.
Esta tematização do infinito não se restringe a trama entre os personagens e à estrutura da narrativa. Ela aparece como consequência direta da forma como Von Triers pensa os problemas da produção cinematográfica e da linguagem fílmica. Daí a relevância do filme para pensar uma sexualidade por vir. Daí a relevância de seu cinema para pensar nossa época que se vê às voltas com a produção de limitações que não podem depender apenas de restrições normativas, higienistas ou jurídicas. Basta pensar em questões análogas: que princípio nos fará parar diante da posse dos meios para destruir o planeta ou de recuar diante de uma catástrofe ecológica? Ou seja, por que parar se nada me impede? Lembremos os dez pontos que Von Triers e Thomas Vintenberg formularam, em 1996, como fundamento de seu programa estético-político conhecido como Dogma 96:
  1. As filmagens devem ser feitas no local.
  2. O som não deve jamais ser produzido separadamente da imagem ou vice-versa.
  3. A câmera deve ser usada na mão.
  4. O filme deve ser em cores. Não se aceita nenhuma iluminação especial.
  5. São proibidos os truques fotográficos e filtros.
  6. O filme não deve conter nenhuma ação "superficial".
  7. São vetados os deslocamentos temporais ou geográficos.
  8. São inaceitáveis os filmes de gênero.
  9. O filme final deve ser transferido para cópia em 35 mm.
  10. O nome do diretor não deve figurar nos créditos.
Os dez pontos do manifesto são restrições, limitações auto-impostas, suspensões do uso de recursos tecnológicos, de produção e de filmagem que estão disponíveis, mas que não serão usados. É uma forma de criar liberdade escolhendo seus limites. Muitos leram neste manifesto uma espécie de recuo regressivo a um naturalismo moral. Uma tentativa de associar novamente produção e linguagem fílmica. Uma crítica à excessiva divisão de tarefas, com autonomização das funções (fotografia, som, direção, direção de atores, etc). Uma indisposição antipática contra a ingerência genérica da força dos meios de produção (recursos tecnológicos, mobilidade de set, etc) no resultado produzido para o público. A ideia de que um filme deva colocar o montante do valor de sua produção como um “índice” de sua qualidade ou como parte de seu apelo ao consumo soava de forma brutalmente estranha aos partidários do Dogma-96. Por outro lado eles não queriam se contentar com uma espécie de retorno ao cinema de autor, que colocava o nome do diretor como ponto de convergência e unidade, que produziria, com o tempo, um traço de “vendabilidade” do filme.
O ponto de amarração da verdade não está nem no excesso da produção, duplamente representado dentro do filme e em seus meios de produção, nem na garantia oferecida pelo nome do diretor e sua suposta confiabilidade induzida pelo efeito obra. O problema que surge daí é muito mais interessante do que sua solução empírica. A ideia enfrenta o desfio que é o desafio ao capitalismo de nossa época: como não usar tudo de que dispomos? Como recuar diante de uma enunciação que não é bem um imperativo, do tipo “isto sim” ou “isto não”, mas uma espécie de falso silogismo irresistível: “se não há nada que proíba ... então se torna obrigatório”. Ou “se eu posso” então “eu devo”?
O filme de Von Triers segue de perto o esquema narrativo proposto pelo Marquês de Sade. Variação repetitiva de modalidades de prazer, com especial ênfase no sadismo e no masoquismo. Cena confessional com a figura do professor benevolente, mas assexuado, que lentamente vai sendo convencido e convertido libidinalmente. Evolução naturalística das formas de prazer, descritas como um processo de descobertas sucessivas, em torno de uma experiência enigmática ou a-sexuada, no caso, o gosto paterno por folhas e árvores. Indiferença, frieza e contratualismo institucional na abordagem discursiva da sexualidade, tratada com distanciamento memorialístico, científico ou moral. Pares de opostos são hierarquizados na construção de uma moral experimental: o natural e o artificial, o universal e particular, o necessário e o possível. É assim que chegamos, no segundo volume, ao discurso de que a Igreja Católica do Ocidente está para o sofrimento assim como a Igreja Ortodoxa do Oriente está para a felicidade. Lembremos que no concílio de Constantinopla, em 1054, decretou-se esta divisão, estabelecendo-se a partir de então dogmas. Lembremos ainda que o chamado cisma do oriente baseava-se na interpretação diferencial da origem a trindade. A querela “filoque” opunha os que achavam que o espírito santo provinha do pai (o um vem do um) e os que pensavam que o espírito santo vinha do pai e do filho (o um vem do dois). Estamos de novo diante de duas concepções sobre o infinito: o infinito entre dois, ou o infinito dado de uma vez.
De fato este é também o silogismo que se dissemina em nossa moral sexual pós-civilizada. Tudo o que não é proibido é permitido. E tudo o que é permitido pode ser levado ao obrigatório, até o abuso. O que nos leva a proliferação de interdições regulativas, de ordem médica, higienista ou educativa. Esta ideia de que a lei é nosso único limite é uma ideia muito limitada para nosso tempo. Basta lembrar o trabalho de Picketti, sobre a inanidade da ampliação da distribuição de renda, dentro da lei, nos últimos séculos, na maioria dos países do ocidente. Basta lembrar que a crise ecológica simplesmente não será enfrentada apenas com novas leis punitivas e restrições diretas ao uso dos meios. Basta lembrar a pobreza em que se expressa nosso debate sobre a liberdade de expressão. A liberdade de tudo dizer, sem consideração pelos meios de ampliação, de transmissão, de dominação do espaço público, é contraposta de forma brutal e massiva contra as restrições de censura, controle e manipulação de consciências. Tudo se passa como se deduzíssemos nossa liberdade apenas a partir do que não é proibido e como se localizássemos o proibido no Outro. Resultado, uma forma de vida que só consegue sofrer, e portanto, pensar sua liberdade encarcerada entre o possível e o não-possível (hipótese depressiva) ou acossada pela lei do necessário (hipótese repressiva). Nenhum lugar resta para a contingência. Como se a única liberdade fosse aquela deduzida da lei, mesmo que em escala invertida da lei do desejo, como argumentava Lacan até 1960. E aqui estaria a novidade da reflexão contida em Ninfomaníaca.
Quando Freud fala da sexualidade perverso polimorfa da criança ele não está se referindo apenas a sua dialética com a lei, nem à alternância entre possível e impossível, mas ao fato de que a relação primária com o prazer é contingente. Esta é a regra de formação da sexualidade. A perversão é o negativo da neurose porque a neurose é experiência determinada do prazer. Na perversão infantil é o prazer contingente, e sua experiência produtiva de indeterminação, que possui valor formativo.
Quem já atendeu pacientes em mania talvez concordará que existem três sinais inconfundíveis: a aceleração da velocidade da fala (ou da escrita), a impulsividade para o sexo e a propensão para o consumo. São casos muito difíceis, senão quase inabordáveis, porque justamente o tempo do para ouvir o outro é suprimido. O que se diz ao paciente é quase indiferente diante de sua marcha solitária e heroica rumo à exaustão. Mas o perigo nestes casos não está apenas nas situações embaraçosas ou na “conta” que pode aparecer depois, mas no ponto de inversão, no ponto em que o fósforo queima tão completamente que se apaga. O ponto em que passamos da Ninfomanía para a Ninfo-melancolia. Desta última poucos se queixam, tal a maneira como se dissemina em nossa cultura fabril e febril, o excesso de trabalho e de entretenimento. Esta vida sem sexo resolveu o problema foucaultiano da exegese infinita de si mesmo, da narrativa da carne e da culpa. Estaríamos assim curados de nossa compulsão a encontrar nossa verdade nos excessos e faltas da sexualidade. Desconfio que muitas das curas atribuídas a anti-depressivos devem ser realmente creditadas a certos efeitos ninfo-melancolizantes, induzidos de forma “colateral” pelos anti-depressivos. Não seria a primeira vez na história da medicina em que o colateral é o essencial. Pode ser estranho pensar assim, mas uma vida sem sexo pode ser uma vida muito mais eficaz, com muito menos conflito, maior desempenho narcísico e com muito maior adaptação social.
Mas o ponto crucial, e realmente novo no experimento de Von Triers não é obviamente a narrativa da recuperação da potência de prazer, por meio de giros masoquistas, nem mesmo a dependência crucial entre sexo e discurso, mas este enigmático ponto de inversão entre a Ninfomanía e a Ninfo-melancolia. Ponto a partir do qual se poderia entender o fim da história, como um ato inesperado que é e que intrigou mitos espectadores. Sem spoiler, posso dizer que se trata da aparição inesperada da contingência, e da superação da lógica, antes consagrada pelo experimento ninfomaníaco, que oscila do possível ao necessário.
Lacan abordou este problema da disparidade entre infinitos, no interior da sexualidade, recorrendo a duas teorias diferentes. O gozo fálico, comum a homens e mulheres, estaria organizado ao modo de uma série, no interior da qual procura-se um elemento comum. Uma série quer dizer que conhecemos sua regra de formação, e pensamos o infinito pela indeterminação de seu último termo, por exemplo, a série dos números naturais N= {1,2,3 ... n}. O gozo feminino, ou gozo Outro, não se organiza desta maneira, mas ao modo de uma “lista” com elementos que podem ser escolhidos aqui e ali, mas cuja regra de formação deverá ser estabelecida depois, se é que ele pode ser descrita. Isso pode ser ilustrado pelo conjunto dos números Reais, que englobam não só os números inteiros e os fracionários, positivos e negativos, mas também todos os números irracionais, por exemplo, R {0, 0.333.., 0.7, 1, Pi... n}. Os números Reais não possuem uma regra de formação, mas intercalam elementos cujas propriedades não se reduzem às de outros conjuntos. Tipicamente o problema do gozo fálico é que ele é formado por uma intersecção, por exemplo, entre conjuntos abertos, produzindo o que se chama de infinito contável ou infinito enumerável, desde que se introduza no próprio conjunto os seus pontos limites (teorema de Bolzano-Weierstrass).O gozo feminino não se faz por interseção, mas pela reunião de famílias de conjuntos abertos, com o qual se aborda finitamente a infinitude. Neste caso não se incluem os pontos limites na série. Com uma lista finita pode recobrir o infinito. Esta reunião de abertos em estrutura de lista corresponde a um segundo tipo de infinito (teorema de Heine-Borel-Lesbegue).
Ocorre que as mulheres possuiriam, de modo contingente, dois gozos: o fálico (como o dos homens) e o especificamente feminino (gozo Outro). O inconveniente, segundo Lacan, é que este segundo infinito só pode ser exprimir, em termos de linguagem, constrangendo-se às regras impostas pela lógica da série. Isso levou Geneviève Morel, uma estudiosa da teoria lacaniana da sexuação, a afirmar que os homens dependem de uma fantasia para gozar, ao passo que na sexualidade feminina a fantasia é sempre um tanto incompleta, inacabada ou manca. As mulheres, que não podem formar um conjunto unitário, pelos motivos antes examinados, encontram sua modalidade preferencial de inscrição discursiva da sexualidade no mito. Narrativas como a de Don Juan, são compreensíveis como um mito, ou seja, uma articulação lógica entre inúmeras fantasias. Entre gozo fálico (enumerável) e gozo feminino (não enumerável) não há continuidade, mas ausência de relação previsível. Por exemplo, se encontramos o número “3” podemos tomá-lo como elemento da série dos Números Naturais ou elemento da lista dos Reais. É apenas uma contingência que ele pertença a ambos.
Ninfomaníaca é um ensaio sobre a liberdade infinita, sobre os modos de uso do corpo para além das restrições de segurança, da exaustão dos corpos (velho tema sadeano) e da hermenêutica da proibição. Entre o infinito representado pela relação entre liberdade e lei, infiltra-se o infinito do infinito, representado pelo registro da potência e da impotência. E é exatamente com relação a este segundo infinito-ruim que se articula a narrativa de sofrimento que articula o filme: o momento em que Joe se questiona o que há de errado com a sua “boceta”. Momento que sucede a maternidade e no interior do qual ela percebe que este é um órgão sem corpo.

Podemos agora lançar nossa hipótese. Não seria possível que este ponto de exaustão, o limite da prática sexual, o momento de conversão da Ninfomania em Ninfo-Melancolia, o acontecimento de um ponto de liberdade, entre o possível-necessário e o contingente? Não seria esta a mais trágica experiência que poderíamos supor em matéria sexual? A ninfomania pára de se escrever. Joe, apesar de ter se dedicado de forma análoga ao mito de Sade, este sim um mito masculino, a uma série infinita de encontros, talvez não estivesse procurando apenas a razão de formação desta série, o traço unário que reuniria todos os homens. Sua saga não teria a estrutura da corrida de Aquiles contra a tartaruga, que tenta nomear os pontos infinitos e infinitesimais que separam o Um do Outro, mas a estrutura de uma perda infinita do objeto. Se isso é verdade ao contar sua história para Seligman ela passa do infinito masculino ao feminino, ainda que depois se veja obrigada a desfazer a totalidade assim constituída. Neste caso sua aventura pode ser o prenúncio de uma sexualidade além do possível e do necessário. Outro tipo de verdade para a coisa sexual.
Trailer do filme
Christian Dunker é Psicanalista, Professor Livre Docente do Depto de Psicologia Clínica-IPUSP, Analista Membro de Escola da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental, Doutorado (IPUSP) e Pós-Doutorado pela Manchester Metropolitan University (UK). Autor de vários livros, entre eles o vencedor do Prêmio Jabuti 2012: “Estrutura e constituição da clínica psicanalítica: uma arqueologia das práticas de cura, psicoterapia e tratamento” (ed. Annablume, 2011).

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Sonata de Outono : uma relação perigosa

de Henrique Senhorini
 
Não, não estou misturando os filmes, porém a relação entre Charlotte e Eva, apresentada por Bergman em seu belíssimo representante da Sétima Arte, me remeteu ao título de um outro, pois é mais que uma relação conturbada. Muitas vezes é uma relação perigosa mesmo.
   E não estou falando isso só pelo que assisti no filme, mas sim pelo que escuto também na clínica, com pequenas variações da fala de Eva: “meu obstáculo maior é eu não saber quem eu sou” e também “se alguém me amar do jeito que sou, talvez eu finalmente me arrisque a olhar para mim mesma”. E, em alguns casos clínicos, fico com a impressão que este tipo de relação mãe e filha é mais que o outono bergamaniano, onde não só as folhas caem, mas também os véus, as máscaras, os semblantes que usamos em muitos momentos como tentativas de tamponar a falta, como protetores das nossas próprias feridas narcísicas para não ficarem tão expostas ao público e até de nós mesmos. Dá a impressão que o sofrimento que vem na clínica está mais para o clima do deserto, onde os dias são desoladamente quentes e as noites impiedosamente frias, onde a possibilidade de alguma coisa nascer, crescer - desde uma flor até o amor - é consideravelmente remota. Uma catástrofe! Uma devastação!
          E essas são, pela ordem, expressões utilizadas por Freud e Lacan à se referirem a relação entre mãe e filha. Freud utiliza este termo em 1931, no seu artigo “Sexualidade Feminina”, quando menciona a imensa e tensa relação ambivalente de amor e ódio que marcam a ligação da menina com sua mãe, na sua fase anterior ao Édipo, na famosa fase pré-edipiana, de forma intensa: “A transição [da mãe] para o objeto paterno é realizada com o auxílio das tendências passivas, na medida em que escaparam à catástrofe” (Freud, 1931)
          Já Lacan usa o termo devastação em “O Aturdito”, de 1973, com todo cuidado e respeito ao pai da psicanálise, quando diz: “Por esta razão, a elucubração freudiana do complexo de Édipo, que faz da mulher peixe na água, pela castração ser nela ponto de partida (Freud dixit), contrasta dolorosamente com a realidade de devastação que constitui, na mulher, em sua maioria, a relação com a mãe, de quem, como mulher, ela realmente parece esperar mais substância que do pai – o que não combina com ele ser segundo, nessa devastação.”
Quer dizer que há algo da mãe que é não-todo apreendido pela lei simbólica, pela metáfora paterna, pela castração, diferente do todo-falocentrismo freudiano.
           Freud, até por ser de uma época mais moralista, mais vitoriana e marcada fortemente pelo patriarcado e monoteísmo (já houve uma época do matriarcado e de mulheres como deusas) que exercia uma influência imperialista - e ainda exerce até hoje - sobre a sociedade, tentou, mas não conseguiu, fazer da mulher mais um peixe na água, como os outros peixes do oceano falocêntrico. Porém, diferentemente dos peixes comuns, a mulher vai além do só nadar, além do gozo fálico.
          Lembremos que há também um tipo de peixe - o peixe voador – que, além de nadar, voa. Trata-se de um peixe que possui uma espécie de par de asas que permite que ele consiga planar por 45 segundos acima do nível do mar, além de nadar dentro d'água como os demais peixes do oceano.
          Assim é a mulher com seu gozo feminino, um gozo suplementar, justamente por estar não toda na função fálica. Isto a faz ter acesso a um outro gozo, o gozo do Outro, o gozo suplementar. E foi essa diferença entre gozos e não entre sexos que permitiram Lacan, com muito esforço e com o máximo rigor teórico, ampliar para além do falo a obra gigantesca iniciada por Freud, promovendo grandes contribuições para a Psicanálise e avanços, através de suas construções teóricas e clareando o enigma da feminilidade. Através de sua matematização da Psicanálise, de sua teoria da sexuação, ele ordenou esta, a sexuação, para todos os seres falantes e isso é somente um dos grandes exemplos desses avanços.
           Então, a mulher, além do gozar na ordem fálica, tem um gozo suplementar justamente por ser não-toda inscrita na metáfora paterna e não ter o falo como significante da falta, o significante do desejo do Outro. Por isso há uma classe de homens, mas não há uma classe feminina. As mulheres, portanto, “são únicas e só podem ser contadas uma a uma” (Valdivia,1997). Não há mulher “artigo definido” para designar o universal, pois não há um significante nela que lhe seja específico, diferente dos homens.
          Será por isso, por ser homem e consequentemente inscrito na ordem da universalidade através do falo, que também fico meio atordoado com esse tipo de relação que não escuto na minha clínica entre um homem e sua mãe? Uma relação que não ata e nem desata, que não autoriza a filha a se autorizar ser mulher e nem abandonar (não fisicamente) sua mãe a favor de uma vida própria, uma vida com tudo que ela já representa e pode vir a representar mais ainda? O que será que prende essas mulheres nessa posição de refém, posição de sequestradas de si mesmo, até de seus próprios corpos e que não prende os homens da mesma forma? Seria a face oculta de um amor, de um deus?
          Há pacientes, não as mulheres, que também tem mães Charllotes e pais invisíveis como o de Eva, mas não ficam presos como elas, como as Evas. Aliás, existem várias Charlottes cujos filhos não encontram o lugar que gostariam de ocupar no desejo da mãe. Temos ciência, através de Freud, que em se tratando de histórias familiares, não há infância feliz e, apesar do esquecimento, são histórias de desespero, principalmente em relação à mãe, visto que primeiro objeto de amor é justamente ela ou quem ocupa seu lugar. Porém outros objetos surgirão, o que não significa que ficaremos livre do primeiro, pois o segundo, terceiro..., assim por diante, “carrega as marcas do Outro primordial concernido na primeira demanda de amor”, de acordo com Colette Soler (2012). E quem é o Outro primordial nas nossas vidas, assim como na vida de Eva? É a mãe. Portanto, o amor é repetitivo, como demostrou Freud. Nas palavras de Soler, “um amor repete-se num outro”. E todos nós, no mínimo neuróticos, passamos por isto.

abre-se um parênteses aqui
E sobre os infortúnios da infância, para quem quiser ler mais a respeito, há uma página dedica ao tema no texto freudiano “Além do Princípio do Prazer” de 1920.
fecha...

... Para as Chalottes da vida, os filhos são, também, praticamente invisíveis ocupando um lugar que eles consideram de menos valia. E, algumas vezes, essas Charlottes introduzem seus filhos na ordem simbólica também pela via da devastação, através da rejeição, dos insultos e até mesmo pelo silêncio, quase do mesmo modo como assistimos por meio de Eva.
          E como uma das consequências possíveis, a consagração da “crença inabalável na onipotência de um Outro não castrado, de uma mãe que escapa à falta da castração” nas palavras de Marie-Hélène Brousse (2002). Bem, sabemos que esse tipo de consagração, de tornar sagrado, de se oferecer a divindade Mãe também acontece com neuróticos e neuróticas, portanto não é uma exclusividade das meninas. Porém, parece que é aí mesmo - como Freud já havia indicado em “Feminilidade” de 1933 - nesse período pré-edipiano da relação com a mãe, que as meninas (algumas), diferentes dos meninos, tem um encontro com algo do Real (a queda de um semblante pode provocar esse encontro) que as marcam como sulcos, como cicatrizes na alma que parecem permanecer por quase toda uma vida. Cicatrizes estas que uma experiência de análise podem não removê-las, mas podem transformá-las em cicatrizes de cirurgias plásticas, com aqueles pontos quase imperceptíveis.
          Não que os meninos não sejam afetados por essas Charlottes também, porém dão a impressão que absorvem e ou lidam com as marcas de um jeito diferente. O que os protegem? Talvez, o falo como significante, a identidade, o traço unário. Mas, as marcas também são diferentes nas meninas, parecem muita mais profundas, quiçá por não ter um significante que as represente e as protejam das mães fálicas, das mães Charlottes.

abrindo outro parênteses
Em seu artigo intitulado “Mãe e Filha – Da Devastação E Do Amor”Cristina Marcos(2011) sobre isso diz: “É no romper do semblante que algo do gozo se evoca como um desgaste, uma erosão que marca um território. É na queda dos semblantes que a devastação se dá a ver revelando um gozo opaco, refratário à ordem simbólica. Devastar é tornar deserto, despovoar, remetendo a uma destruição completa, a um aniquilamento.” E, ainda de acordo com autora, “a devastação provém de um defeito que tocou a palavra".
fecha parênteses

É... Bem que eu poderia recorrer aos poetas como Freud recomenda, mas suponho que de forma chistosa, para tentar saber algo mais sobre o enigma da feminilidade. Pois os meninos não se atrelam, não se aprisionam da mesma maneira que algumas meninas neste tipo de relação tão bem representado em Sonata de Outono apesar de alguns, como já mencionei, passarem por algo próximo das meninas, como o de não reconhecer seu lugar no desejo da mãe, de uma mãe não-toda castrada como Charlotte. Ah... e isto não quer dizer que se trata de uma psicose, pois ela está inserida na ordem simbólica pelo Complexo de Édipo, pela Lei do Pai, pelo Complexo de Castração, que tem funções normativas e normalizadoras. São estruturantes do e no Sujeito. Elas, as Charlottes, também tem a metáfora paterna como ponto de ancoragem como todos os neuróticos ditos normais.
           Entretanto, algumas meninas - como a representante bergamaniana – sofrem como Eva e algumas, mais ainda. Não conseguem avançar na vida, além da vida prática. Conquistam a condição do trabalhar, mas não do amar. Muitas vezes, dá até a impressão que conseguem ficar aquém da condição de desejante, presas como objeto do Outro, apreendidas pela repetição. Para quê? Tentativas que em algum momento a mãe possa reconhecê-la, nomeá-la, dar-lhe consistência e inscrevê-la no registro da troca através de um significante que a represente? Ou, na fantasia, ficam esperando alguém que faça isso, que as retirem desse lugar marcado pela impossibilidade do amor? Ou, ainda, aguardam uma autorização materna para ter acesso ao gozo feminino? Permissão para amar além de trabalhar (o que não é pouca coisa) ? Ir além até dessas conquistas?
          Bem, uma mudança de posição subjetiva é a perspectiva de um dos principais fins da experiência de análise. E o sujeito desidentificado é um sujeito mais livre das limitações impostas, pela repetição, as suas escolhas de objeto, possibilitando a abertura de um leque maior de opções, uma maior “variedade de encontros”.
Como diz Colette Soler (1998), “des fins... de l'amour”.

Trailer do Filme
Link para assistir o filme completo:
https://www.youtube.com/watch?v=SGfD4fZFn1w

sábado, 17 de janeiro de 2015

Kieślowski : Decálogo I

por Francina Sousa

Aviso: assistir (abaixo) antes de ler.
Apesar da pretensão, não, não entendo nada de arte, tenho no máximo desconfianças... E desconfio que esse tal de Kieślowski (assim como Trier, referência fundamental no movimentado mercado do verniz cultural) seja um desses fazedores de arte, e que Decálogo I (primeiro média-metragem de uma série de dez chamada "Decálogo", cujo fio condutor são os dez mandamentos) seja um bom exemplo disto. Um diretor que consegue tocar o ser lá no âmago, lá onde, apesar da tentativa, não cabem palavras... é isso que sinto com esse cara!

Tudo parece dançar em harmonia melancólica nesse primeiro Decálogo, sobretudo imagem e música. O filme parece te olhar, te refletir, te chorar. O leite que se azeda ao tocar o café, a tinta que rasga o pote de vidro, prenúncios de que aquilo que resiste ao sentido e às fantasias que estruturam a realidade, está ali, à espreita! Há sempre algo passando a perna em nossas certezas, algo que por vezes nos faz tremer de dor e espanto. Por que, apesar das evidências em contrário, o maldito gelo tinha de se quebrar? A voz do quase anjo, doída e gelada, questiona: "Quem precisa saber quanto tempo leva para a Piggy alcançar o Caco? Não faz sentido."O pai não consegue responder, não há resposta. É diante do enigma da morte que o menino duvida de sua forma de entender a realidade, uma realidade que encontra seu sentido, sua verdade, nos números, na matemática, sentido este que lhe fora transmitido pelo pai. Um sentido pouco aberto às fantasias. Afinal, no mundo do pai, 2 e 2 são quatro e quantas vezes terei de evocar o homem do subsolo de Dostoiévski pra explicar que se é o humano que está em causa, 2 e 2 nem sempre somam 4?

Erra aquele que pensa que só é crente aquele que acredita em Deus. A Razão pode ser tão dogmática quanto a Religião. Mas instável como a vida, o gelo se quebra, e com ele, as certezas daquele homem. Resta a dor e quem sabe uma questão: ainda que uma máquina venha a ter a capacidade de escolha, assemelhando-se ao ser humano, seria ela capaz de sentir tão profundamente o non sense existencial?


"Amar a Deus sobre todas as coisas", este é o primeiro mandamento. É mesmo necessário impregnar a existência com Eros, com amor, essa coisa que tenta insistentemente preencher o vazio que a todos habita. E que atire a primeira pedra quem (sinceramente) nunca duvidou do porque disso tudo...

Francina Sousa é Psicanalista, membro do Fórum do Campo Lacaniano de Mato Grosso do Sul e do Ágora Instituto Lacaniano, psicóloga da Universidade Federal da Grande Dourados / UFGD.  Fundadora  do  blog  Sim Thomas!
Filme completo

Endereço do filme : https://www.youtube.com/watch?v=98SU1Yq1c8g 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

EU, MAMÃE E OS MENINOS : Dizer-se homem ou mulher, eis a questão

de Marisa De Costa Martinez

Adicionar legenda
Eu, mamãe e os meninos (Les Garçons et Guillaume, à table!) é um filme autobiográfico, premiado na França. O ator interpreta ele mesmo e sua própria mãe. Dado bem interessante, pois tem tudo a ver com a história do filme, o qual apresenta a questão da escolha sexual e do dizer-se homem ou mulher. Em que medida os sujeitos fazem suas escolhas ou são determinados pelo desejo do Outro?
O título original do filme é o grito da mãe: “Os meninos e Guillaume para a mesa!”, deixando claro logo de saída a forma como sua mãe lhe tratava, diferentemente de seus dois irmãos mais velhos – os meninos. Apesar do grito aparecer em apenas uma cena do filme, ele faz jus ao título por representar precisamente sua essência, qual seja, o desejo materno. Com a psicanálise, podemos pensar o quanto somos condenados pelo discurso dos pais. Será? Talvez possamos dizer com o filme que somos não-todos efeitos do desejo do Outro parental.
A teoria lacaniana apresenta que há alteridade na constituição do sujeito. A essência do ser humano é justamente constituir-se pelo Outro, no inconsciente. De que maneira o Outro influenciaria quando um sujeito diz-se homem ou mulher? O enredo do filme é justamente sobre o impasse do sujeito diante do desejo de sua mãe. Ela, mãe de três filhos, desejava ter uma filha menina. Isso fica claro não só a partir do título do filme, mas também pelo diálogo inicial entre mãe e filho, em que Guillaume diz: “Mamãe, dei de cara com meu primeiro amor hoje! Lembra da Ana?”, sua mãe responde: “Como ele está?”. Não precisamos dizer o quanto esses lapsos representam um desejo inconsciente. Guillaume chega a dizer que o único que não queria que ele agisse como menina era o seu pai, e conta: “Mamãe só compra roupas de menino para mim para que papai não fique bravo”. Esse não o queria alienado ao desejo da mãe. O filme então se segue com inúmeras tentativas frustradas do autor responder desse lugar em que é colocado. Inclusive uma pessoa cai no erro de dizer-lhe que deveria experimentar relacionar-se com homens a fim responder sua questão sobre ser homem ou mulher, já que ele – adulto – nunca tinha se relacionado com ninguém.
No decorrer do filme não fica claro se Guillaume considerava-se menino ou menina, evidenciando assim o seu conflito. Embora possua trejeitos deveras afeminados: anda, fala, gesticula como sua mãe ao passo que repudia os esportes viris que tanto atraem seu pai e irmãos. A dúvida nos leva a pensar em uma estrutura neurótica, já que ele demanda o tempo todo ao Outro as seguintes questões: “O que quer de mim?”, “Quem sou eu?”. Exemplo disso é a cena em que uma moça espanhola nega-se a dançar com ele a sevilhana, pois a dança seria para dançar com homens e não entre duas mulheres. Imediatamente Guillaume questiona-lhe se ele parece com uma mulher ao que ela responde positivamente. Ele, então, conclui que sua mãe adorará saber disso! O protagonista tem sua voz confundida com a de sua mãe inúmeras vezes: por sua avó materna, pela cozinheira e por seu pai. Guillaume, em uma fixação, não só imitava os trejeitos de sua mãe, como a idealizava na mesma proporção, dizendo: “você é sempre linda! (...) Minha mãe é maravilhosa (...) Confesso que ela não tem nenhum defeito!” É como se ele nos dissesse que é preciso que um homem se afaste de sua mãe para se aproximar de uma mulher. Nesse sentido, entendemos que “Primeiramente, para tornar-se homem, o menino deve separar-se, em maior ou menor medida, da fixação ao objeto materno. Tanto é assim que tal fixação será diretamente proporcional ao obstáculo que encontrará no momento de se relacionar com as mulheres”. (MONSENY, 2004, p. 90). Nas palavras de Lacan: “Que uma mulher, aqui, só sirva ao homem para que ele deixe de amar uma outra” (1972/2003, p. 469), neste caso, a mãe.
Em outra passagem do filme fica nítida tamanha alienação ao desejo materno, quando em sua pergunta sobre o que o Outro materno quer dele, depara-se com a irritação de sua mãe. Não entende como ela não está feliz se ele é uma menina como ela, mas, sobretudo, como ela desejava. Pensa então que deve ser porque ele se parece demais com ela. Assim, para deixá-la feliz, passa a observar todas as mulheres com suas singularidades e admirá-las por isso – uma a uma – quando se dá conta que A Mulher não existe. Desta forma, Guillaume começa a abandonar sua posição de falo para sua mãe, e além disso, passa a gostar das mulheres. Cito novamente Monseny: “para que um homem goste de uma mulher é preciso gostar antes das mulheres” (2004, p. 96).
Em alguns momentos Guillaume parece ser convencido de que é uma menina. Ao chegar de férias, em casa, chora na presença da mãe pois estava apaixonado por um rapaz que gostava de uma garota. Com dificuldade, sua mãe lhe diz que há de existir outros homossexuais, meninos que gostam de meninos e são felizes. Por uma questão lógica, ele conclui surpreso que para ser homossexual era preciso inicialmente ser homem, enfrentar o medo que tinha de cavalos e servir ao exército. Nesta cena, ineditamente, sua mãe o nomeia como menino. Assim, o desejo da mãe de ter uma filha, por fim, desencadearia que seu filho caçula fosse visto como homossexual também por todos – terapeuta, colegas de escola e irmãos.
O impasse da sexualidade fora relacionado, tanto por Freud quanto por Lacan, à histeria. Nosso interesse aqui não é realizar um diagnóstico estrutural de Guillaume, até porque não se trata de um caso clínico. Nossa intenção é discorrer sobre algumas contribuições teóricas importantes para a análise do filme. Freud em “Fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade” lembra de uma paciente histérica, a qual de um lado tentava cobrir-se segurando seu vestido como mulher, enquanto por outro lado tentava arrancá-lo como homem. Freud diz que existe uma disposição bissexual que é humana. Exemplo disso é o que ocorre na masturbação, quando em uma mesma fantasia estão presentes sentimentos tanto do homem quanto da mulher. O autor conclui: “No tratamento psicanalítico é extremamente importante estar preparado para encontrar sintomas com significado bissexual” (1908/2006, p. 154). Nesse mesmo sentido, Freud adverte em outro texto que a atividade auto-erótica das zonas erógenas são idênticas em ambos os sexos e retoma a temática da bissexualidade afirmando: “Desde que me familiarizei com a noção de bissexualidade, passei a considerá-la como o fator decisivo e penso que, sem levá-la em conta, dificilmente se poderá chegar a uma compreensão das manifestações sexuais efetivamente no homem e na mulher”. (1905)
Lacan, por sua vez, afirma que não haveria nada no psiquismo “pelo que o sujeito se pudesse situar com ser de macho ou ser de fêmea” (1964/1988, p. 194). Deste feito, cada sujeito deverá constituir-se e construir a partir de sua cadeia de significantes sobre sua escolha sexual e seu modo de gozar.
Além disso, o filme coloca a questão do que é a verdade para a psicanálise. O fato do filme ser um relato autobiográfico, isto é, baseado em fatos reais, não implica em ser um documentário. Fato esse que o deixa ainda mais interessante: o filme tal qual a realidade psíquica engendram uma verdade ficcional.
Faz-se necessário ainda apresentar o final do filme: Guillaume telefona a uma amiga para ir à casa dela. A mesma diz que receberá somente suas amigas mulheres para um jantar. Com essa resposta, sua amiga já o coloca no grupo dos homens. Apesar disso, ou justamente por isso, ele insiste e vai ao jantar. Naquela noite, surpreendentemente, ele tem um bom encontro com o amor de sua vida, segundo ele “a mulher mais linda do mundo”, curiosamente na mesma noite em que sua amiga inverte a mensagem de sua mãe, chamando-os para jantar: “Meninas e Guillaume para a mesa!”. Quinet lembra-nos que posição sexuada e escolha de objeto são de âmbito totalmente distinto (2013, p. 133). Estar na posição feminina ou masculina é uma coisa, ter um homem ou mulher como objeto sexual é outra”. A posição sexuada nos diz de um elemento todo fálico ou um elemento não-todo fálico. Deste modo, Guillaume pode ter uma posição não toda-fálica e mesmo assim ter uma mulher como objeto de escolha amorosa. Não são esses descompassos que vemos na clínica o tempo todo?
Alguns críticos colocam o final do filme como uma heteronormatividade forçada. Com Lacan, prefiro pensar paradoxalmente que uma escolha mesmo que forçada é sempre uma escolha. Assim sendo, podemos escolher por algo diferente do que o Outro espera. Em psicanálise, não pensamos pela lógica de causa e efeito, mas sim em sujeitos responsáveis por sua sexualidade, seja ela homo ou heterossexual, que podem escolher por responder tal e qual desejam dele, ou não. Escolher de forma oposta ao desejo de seus pais, seria continuar preso a ele? O outro lado da mesma moeda? Mais do mesmo? A esse respeito, Lacan nos lembra no seminário 11: “as vias do que se deve fazer como homem ou como mulher são inteiramente abandonadas ao drama, ao roteiro, que se coloca no campo do Outro. [...] o que se deve fazer como homem ou como mulher, o ser humano tem sempre que aprender, peça por peça, do Outro. [...] A sexualidade se instaura no campo do sujeito por uma via que é a da falta” (p. 194). No entanto, como ser homem ou mulher é um enigma que não pode ser respondido pelo Outro. Assim, somos levados a permanecer com nossa hipótese de que a escolha é cada sujeito. Até porque não há ninguém com uma “sexualidade bem resolvida”. Por isso que o Outro não responde ao sujeito. Sequer ele tem a resposta. Nesse sentido, seja o sujeito, seja o Outro, homem ou mulher, somos sempre seres faltantes. Não é esse o legado de Freud com sua teoria da castração?
Deste modo, a falta de resposta do que é ser homem ou mulher aponta para o mal-entendido do discurso. Daí a escolha do tema dizer-se em detrimento do ser homem ou mulher. Colocar a escolha do sexo como inerente ao dizer é aproximá-la de sua estrutura de linguagem e portanto afastá-la da ordem de um naturalismo biológico. É justamente por ser de ordem simbólica que a sexualidade dá margem à dúvida. Assim, a psicanálise “enquanto experiência e enquanto ética do bem-dizer, parte do princípio de que o sujeito tem algo a dizer que ninguém mais poderia dizer em seu lugar” (JORGE, 2013, p. 26). Assistindo ao filme pudemos escutar o desejo de Guillaume, que foi para além do desejo de sua mãe. Guillaume ensina-nos que é possível não se render ao imperativo desejo do Outro. Porém, sua mãe não fica muito feliz com isso. E questiona-o ao saber de sua escolha: “100% hetero?”. Diferentemente, em psicanálise sabemos existe uma disposição bissexual humana (1908/2006). Portanto, a propaganda do desodorante com partículas de cabra macho nos enganou: o homem homem, não existe!
O fato de haver uma escolha subjetiva sexual tira o sujeito de seu lugar de vítima do desejo de seus pais. Essa é a ética da psicanálise, a qual “lida com o sujeito responsável. A primeira retificação subjetiva, portanto, a ser feita para com todo sujeito hétero ou homossexual é implicá-lo em sua forma de gozo e fazê-lo responsável por sua sexualidade” (QUINET, 2013, P. 131).
Lacan, em Instancia da Letra, ao inverter o algoritmo saussuriano, faz uso não apenas da famosa árvore, mas também de duas portas com letreiro: homem e mulher. Deste modo o autor discorre sobre a soberania do significante em detrimento do significado. Em última instância, homem e mulher são apenas significantes que nos servem para clarear em que porta de banheiro devemos entrar. Deste modo, só podemos concluir fazendo uso de nosso título do trabalho que é uma questão de dizer-se em não de ser homem ou mulher. Assim, nós, psicanalistas, só podemos é escutar cada sujeito com sua história, sua sexualidade e seu gozo, um a um. Diferentemente do que se parecia, Guillaume passava pelo tortuoso caminho de “como chegam os homens a interessar-se pelo Outro sexo”, não de forma direta, mas sim, através de um semblante. (MONSENY, 2004)
Para finalizar, com Lacan:

Não há a mínima realidade pré-discursiva, pela simples razão de que o que faz coletividade, e que chamei de os homens, as mulheres e as crianças, isto não quer dizer nada como realidade pré-discursiva. Os homens, as mulheres e as crianças não são mais do que significantes” (LACAN,1972-1973/2008, p. 38).

Trailer do filme

Marisa De Costa Martinez é Psicanalista, membro do Fórum do Campo Lacaniano do Mato Grosso do Sul e do Ágora Instituto Lacaniano - MS. Mestre em Psicologia pela UFMS.

domingo, 30 de novembro de 2014

ÁLBUM DE FAMÍLIA (August: Osage County)

de Olivan Liger

O filme do diretor John Wells teve duas indicações ao Oscar, Meryl Streep como melhor atriz e Julia Roberts como melhor atriz coadjuvante.
O cenário são as pradarias do condado de Osage em Oklahoma, Estados Unidos. Superfícies planas e secas. Agosto: condado de Osage é o título do filme. Um filme duro, seco e quente como um verão nas pradarias de Oklahoma, onde se confirma a natureza destrutiva do ser humano e através dessa natureza destrutiva e auto-destrutiva, histórias se constroem, vínculos se perpetuam.

Como o título em português, o filme vai nos revelando os traços, a história construída e segredos da família, como se folheássemos um álbum onde cada foto nos revela a história da construção dos vínculos que (des)unem os personagens desse filme.
-”A vida é muito longa” (T. S. Eliot) é a frase que Beverly, o patriarca, fala no início do filme e começa a narrar a sua história. Pouco a pouco, vamos entendendo que a vida é muito longa, quando se abre mão do desejo. Bev é casado com Violet, um casamento que segundo Bev - “Foi nosso acordo; um parágrafo do contrato matrimonial. O fato é que minha esposa toma pílulas e eu bebo”, ou um casamento de sintomas mediado pela predominância da escolha narcísica de objeto em ambos. Ainda na narrativa inicial, Bev fala para a empregada, Johnna, que está contratando para tomar conta de Violet: - “Os livros como meu último refúgio”. Abrir mão do desejo implica na impossibilidade do investimento libidinal nos objetos e confronto com o indizível do real, a falta. A bebida e escrever poesias são aquilo que condensou tudo o que restou do desejo e encobriu a falta em Bev.
Violet ingere todo tipo de pílulas e no decorrer do filme, fica claro a sua dependência química instalada há anos. Tem um câncer de boca que curiosamente nos sugere a ligação com o oral, com a fala e a palavra. Fala para a filha mais nova Ivy: - “Minha boca está ardendo para caramba, minha língua está em chamas”- significantes que traduzem o seu veneno e o quanto vai tentando destruir cada um a sua volta, de forma ferina e cruel, como um dragão que cospe fogo e destrói tudo ao seu redor, mas ao destruir o outro, se destrói.

O casal tem três filhas, a mais nova Ivy, a filha do meio Karen e a mais velha Bárbara. Cada uma das filhas usou de defesas próprias contra a disfuncionalidade da própria família onde encontramos um homem/pai depressivo, alcoólatra e desistente da vida e uma mulher fálica, controladora, viciada em medicamentos e dominada pela pulsão de morte, evidenciada na sua agressividade contra si mesmo e principalmente contra todos à sua volta. Ivy é a filha que vive e cuida dos pais, na tentativa de ser reconhecida e amada, de deixar de ser o lixo da mãe. Karen, uma mulher madura porém regredida que se comporta como uma adolescente todo o tempo e que encontra no perverso Steve, 10 anos mais velho, a idealização do homem perfeito que casará e passará a lua-de-mel em Belize, seu único objetivo de vida. - “Eu vivo o agora”, este é o mote de Karen, como uma adolescente perdida e apaixonada. Bárbara, segundo a descrição do marido que a traiu com uma mulher bem mais jovem, razão de estar separada desde então: - “Você é tão moralista, você é atenciosa, mas não é acessível. Você é ardente, mas é dura”, é a filha que foi favorita do pai e que “bate de frente” com a mãe. O significante “bate de frente” faz jus ao ataque à mãe durante o jantar do funeral de Bev, o qual planeja e cumpre o suicídio. Bárbara tem uma filha adolescente que fuma maconha e que reproduz na sua relação com a mãe, a relação de Barb com Violet.

Outros personagens rodeiam a família nuclear do filme, a irmã de Violet, Mattie Fae, seu marido Charlie e o filho Little Charlie. Esta família imita a família nuclear. Uma mulher fálica que inferioriza o filho todo o tempo, tratando o como um deficiente. Little Charlie tem algo em comum com Ivy, tenta todo o tempo ser perfeito para responder a demanda da mãe e assim ser reconhecido, se identifica com o pai afetivo, mas sem força de lei.
Assim, Violet, Barb e Mattie Fae são desenhadas como mulheres duras e fálicas.
O jantar do funeral é um dos pontos cruciais do filme. Violet, sob efeito de medicação, faz todo tipo de ataque violento a cada um dos membros da família. Fala da infância difícil dela e do marido: - “Este é o nosso problema. Tivemos uma vida difícil demais”. Sugere que o mundo lhe deve algo, lhe deve honras pela história difícil, lhe deve reconhecimento, lhe deve autoridade. Escancara-se nesse momento a luta pelo poder, pelo falo entre ela e a filha Barb. Não é uma mãe, exceto pela condição biológica, é uma competidora a quem a filha se identificou. Barb a ataca fisicamente para tomar-lhe as pílulas e diz - “Eu é que mando agora”. Violet nos reporta ao mito de Chronos, que nunca deixa seus filhos assumir o trono. Quando estão prontos para assumir o trono do rei, este os devora para nunca permitir a circulação do falo.

Numa conversa entre irmãs, vai se desvendando segredos como a histerectomia de Ivy devido a um câncer e sua relação afetiva com Little Charlie. Ivy é o bode expiatório da família, o lado frágil que não conseguiu deixar o ninho, o sintoma familiar, e sonha abandonar tudo aquilo em troca de uma vida de amor com Little Charlie em Nova York. Ninguém quer a responsabilidade de cuidar da mãe tirana e cruel e nessa conversa, se referindo ao vínculo com as irmãs, Ivy diz: - “Não sinto que seja uma ligação muito forte.” Um engano do sentir... uma verdade se idealizarmos relações amorosas e suaves como única forma de criar vínculos, mas os vínculos se fazem de outras formas, com afetos como raiva, medo, submissão e destrutividade. É uma ligação forte, muito forte que até então foi regida com maestria por Violet e Bev. Ligação forte pela competitividade da mãe e filha, pela tirania da mãe sobre as filhas, pela demanda por um pai ausente e submisso que interdite a mãe, imponha a lei e faça o falo circular. Ligação que transcende o espaço e o tempo, pois mesmo distante Karen busca o pai capaz de valorizá-la em Steve, de quem espera ser a escolhida para o casamento e uma lua-de-mel em Belize. Presas pela história todos são regidos pela compulsão à repetição da pulsão de morte.

Numa cena seguinte, Charlie repreende Mattie Fae pela sua destrutividade em relação ao filho, única cena que se faz lei. E mais uma parte da história vai se revelando quando Mattie conta a Barb que Little Charlie é irmão dela e não pode estar envolvido com Ivy. Little Charlie é a lembrança viva de um deslize, de uma imperfeição, de uma traição da mãe, por isto precisa ser combatido, destruído tão cruelmente. É o rastro de uma falha que precisa ser apagado. É o obstáculo ao recalque que faz da lembrança, o ato vivo que se presentifica todo o tempo para Mattie Fae.
Como uma chama de vela que vai se tornando uma tocha e iluminando toda a história, os segredos e as patologias de cada um vão aparecendo. Há uma permanente ameaça a integridade psíquica e física dos membros dessa família. Jean, 14 anos, filha de Barb fumando maconha e aceitando o assédio do perverso Steve são testemunhados pela empregada. Karen, usa da defesa de negação para não desmantelar a sua idealização de Steve como um homem bom que a escolheu. Prefere sustentar a ilusão do casamento e a lua-de-mel em Belize a admitir a estrutura perversa de Steve. É o que lhe resta pois não foi a favorita do pai e é ignorada todo o tempo pela mãe. Saem assim da história.
No momento seguinte, Ivy decide contar para Violet sobre seu namoro com Little Charlie e Violet lhe diz que são irmãos, que sempre soube disto. Uma vitória para Violet que se mostra no controle todo o tempo, nada lhe passa oculto, está sempre um passo adiante de todos. Parece não perceber o desmoronar da filha frente a verdade de que seu amado é seu meio irmão. Goza por mostrar seu controle, seu sintoma, mas se trai ao deixar escapar sobre o bilhete que Bev lhe deixou antes de morrer, no qual lhe contava o hotel que estava e sua intenção de suicídio. Violet nada fez para impedir. Primeiro foi retirar todo o dinheiro do casal no cofre do banco e quando ligou para o hotel, Bev já tinha partido no seu barco para morrer afogado no lago. Queria se livrar da presença masculina para que triunfasse o seu poder feminino? Para Bev, a vida era longa demais. Para Violet, a vida parecia curta para dominar a todos e a tudo. Tenta responsabilizar Barb pelo suicídio do pai que ressentido do seu abandono, abandonou o estatuto de sujeito desejante. Era Bev o duplo do espelho que ameaçava o trono narcísico de Violet? Ou diante de sua resignação a submissão, deixou de ser importante para desafiar Violet? E na sua onipotência narcísica, Violet diz - “Quando não restar mais nada, quando tudo se for e desaparecer, eu estarei aqui.”

E quando nada mais restou e todos se foram, Violet estava lá para se render nos braços acolhedores da empregada Johnna, com quem não precisa competir, com quem não se sente ameaçada e desafiada a mostrar seu controle e poder, para quem a sua fragilidade e solidão não são armas usadas contra si.
Poderíamos entender a necessidade de controle e poder de Violet como a defesa ao delírio persecutório decorrente de anos de dependência de medicamentos ou ainda refletir acerca de uma forma de assegurar o não retorno a uma história de vida miserável e cheia de sofrimentos.

Assim é um álbum de família, onde registros indeléveis das mazelas de cada um aparecem nas fotos envelhecidas e desvanecidas pelo tempo e a história vai se construindo a cada foto/cena e mostrando a condição humana de destrutividade e angústia como elementos estruturantes e vigentes.

trailer oficial


Olivan Liger, psicanalista, presidente do ILPC - Instituto Latino americano de Psicanálise Contemporânea, analista e supervisor institucional. Autor da obra: "Um olhar psicanalítico sobre a contemporaneidade e suas emergências" - Ed. Livre Expressão, RJ.

domingo, 16 de novembro de 2014

Relatos Selvagens (ou simplesmente atuais?)

de Priscilla Cheli
Dividido em seis histórias, com começo, meio e fim, Relatos Selvagens, traz uma reflexão a cerca de questões mais que atuais, com as quais nos deparamos todos os dias, seja por meio de uma notícia de jornal, seja por algum personagem da vida real.


As histórias se dão em contextos diferentes, porém, em seu âmago, trazem a vingança e a violência como protagonista, nos convidando a refletir sobre a ética de cada um e nos colocando diante da pergunta: “o que você faria se...?”
Num estilo tragicômico, o filme, dirigido pelo argentino Damian Szifron e produzido pelo espanhol, Pedro Almodóvar, tem uma configuração diferente da que estamos habituados a assistir. Seis histórias que não se cruzam, não se excluem, e nem se contradizem, mas que em sua efemeridade, tocam a singularidade da ética de cada um que as assiste.
Tal como o formato que o filme se apresenta, tentarei fazer um breve relato das histórias, ressaltando seus pontos cruciais, separadamente.
1 - Fazendo uma alusão aos casos de meninos que abriram fogo em escolas americanas, Gabriel, comissário de bordo, reúne em um vôo, todos aqueles que ele julga serem seus malfeitores e leva a aeronave à queda.
2 - Uma garçonete se depara com um cliente que arruinou sua família e está pleiteando um cargo político. Sua colega de trabalho sugere que o envenenem. Eis o dilema!
3 - Um homem, dirigindo seu carro de luxo, tenta ultrapassar outro homem, num carro caindo aos pedaços. No momento em que consegue, abre o vidro e o xinga. Minutos após a ultrapassagem, seu pneu fura. Ele se surpreende com a chegada daquele que ele outrora agrediu, pronto para lhe dar o troco. A clássica cena de briga de trânsito, que traz com ela, nesse relato, a arrogância versus a fragilidade do homem rico, tal como a fúria e a ira que aparece no homem pobre, quando os dois se encontram numa situação de igual para igual.
4 – Um engenheiro especialista em implosões se vê vítima do sistema de trânsito, e após tentativas de ser ouvido sem sucesso, resolve criar uma explosão no pátio de estacionamento para veículos guinchados, lugar para aonde seu carro havia sido levado. Ele acaba se tornando uma celebridade nos noticiários pelo ato que talvez muitos tenham vontade de cometer.
5 – Filho de um milionário sai com o carro do pai, atropela uma mulher grávida e foge. Os pais, para pouparem seu filho da responsabilidade, têm a ideia de sugerir que o caseiro, em troca de dinheiro, assuma o crime. Essa trama aponta a corrupção da polícia, a “esperteza” de alguns advogados, e o dinheiro como uma forma de escapar da lei.
6 – Noiva descobre traição do marido durante sua festa de casamento, entregando-se ao deleite de ameaçá-lo e vinga-se de um modo que seu sofrimento seria muito maior que o dela.
Esse filme ressalta, pelo menos para mim, dois possíveis caminhos para percorrermos. Um nos leva a reflexão sobre o inusitado e a resposta que dele advém quando a palavra não é convocada. O outro, nos coloca em direção de olharmos para a responsabilização de cada um diante de sua própria singularidade.
Podemos observar que o inusitado se une à urgência de uma escolha, onde os envolvidos não têm espaço para ponderar, argumentar, problematizar ou relativizar. Com a subtração da palavra, o ato se impõe. A certeza entra onde a palavra é subtraída. A palavra traz consigo a possibilidade da dúvida, e no filme, o que suscita é que na ausência dela, da palavra, aparece o que o autor nomeou de selvagem.
A lei do mais forte é o que rege a lei da selva, pelo menos é isso que sempre ouvimos falar. Neste caso, podemos pensar que a palavra é a possibilidade que temos de mediar o selvagem, o selvagem do próprio gozo.
Outro ponto a ser destacado diz respeito àquilo que psicanalistas, filósofos, educadores, entre tantos outros, se dedicam, ou seja, sobre o tempo em que vivemos. Sabemos que com a queda de uma sociedade paternalmente orientada, onde as leis eram mais claras, definidas e delimitadas, e portanto, os sujeitos tinham modelos socialmente admirados a serem seguidos, hoje nos deparamos com perguntas mais singulares, ou seja, como cada um se coloca frente às contingências.
Surge assim, a formação de uma nova ordem simbólica. Se antes éramos orientados pelo falo, e hoje não mais, quais seriam os efeitos desta nova ordem simbólica?
Um deles, sem dúvida, é a gama de opções e possibilidades que se apresentam a cada um de nós. Hoje podemos questionar mais livremente e escolher um caminho, bem como elegê-lo como uma direção a ser seguida. Mas não podemos nos esquecer que as angústias, frente a tantas possibilidades, podem ser proporcionais às opções. A falta da orientação falocêntrica implica necessariamente na responsabilização frente às angústias, prazeres e conseqüências advindas das escolhas e posicionamentos de cada um.
O filme nos coloca frente a essa questão de maneira direta e nos tira o riso justamente quando cada espectador se encontra com o seu próprio gozo. O que você faria em cada situação apresentada? O que justificaria, para você, tirar a vida de alguém? Para ser ouvido por um mundo surdo, vale uma transgressão? Ou ainda: por um filho, vale incriminar alguém?

Seriam horas e horas de discussão que provavelmente não nos levaria a Um lugar, afinal, Lacan bem nos disse: a Verdade não existe. Portanto, só nos cabe interrogar a nós mesmos, um a um, a respeito daquilo que suportamos de nossos próprios atos, se podemos nos responsabilizar por eles e, por fim, o quanto podemos suportar de nossa própria singularidade. Aliás, papel esse ofertado pela escuta psicanalítica.
Trailer Oficial do Filme

Priscilla Cheli é psicanalista com pós-graduação em psicologia clínica pela PUC-SP.