domingo, 24 de fevereiro de 2013

Madagascar, um ensaio sobre o desejo

de Isloany Machado
Outro dia uma pessoa riu quando eu disse que adorava filmes infantis. Digo de novo: adoro filmes infantis! Aprendo muito com eles, inclusive sobre psicanálise. Esses dias, assisti o último da trilogia Madagascar: Os procurados. Para quem não assistiu nenhum dos três, vou fazer um breve resumo. As personagens principais moram num zoológico, nada mais, nada menos que o Central Park, em Nova York/EUA, e são: Melman (uma girafa macho, hipocondríaca), Alex (um leão vaidoso, estrela mor do zoológico), Glória (o hipopótamo, fêmea e graciosa, mais corajosa do que os machos) e Marty (uma zebra macho, cujo maior desejo é sair do zoológico e conhecer a natureza).

            Toda a história começa com o aniversário de Marty que, na hora de fazer o pedido ao cortar o bolo, pede para sair do zoológico e conhecer a natureza. Na primeira oportunidade, literalmente cavada pelos pinguins moradores do zoológico também, Marty, movido por seu desejo, foge. Seus amigos temem por sua segurança e vão atrás dele. São apreendidos pela guarda local e, devidamente acomodados em caixotes, são mandados de volta para o zoológico. Algo dá errado no caminho e eles caem no mar. Todos sobrevivem, mas vão parar na ilha de Madagascar.

            Acontece que nenhum dos quatro conhecia a natureza antes e agora precisam lutar para sobreviver na selva, arranjar o próprio alimento e essas coisas que os animais selvagens fazem. De todos, o único que está feliz, muito feliz, é Marty, afinal seu desejo estava se realizando. Os outros três estão apavorados. Alex, o único carnívoro, tem sua civilidade/animalidade colocada em xeque. No zoológico comia bifes que eram lançados para ele diariamente, mas agora, até seus melhores amigos são possibilidades de comida fresca. Alex enfrenta um conflito ético em relação à sua dieta alimentar. Ele não é um assassino, mas por outro lado, precisa comer carne. Seus amigos tentam remediar a situação oferecendo-lhe peixes. Depois de enfrentar muitas dificuldades na ilha, percebem que não é isso o que querem. O desejo evanesce quando se alcança o objeto desejado. Saem da ilha de Madagascar com um avião trazido pelos pinguins.  

 No segundo, os bravos animais retornam às suas origens. Eles “caem” de avião na África, onde encontram seus pares. Mais do que isso, retornam literalmente às origens, conseguem ter recordações da infância e de suas histórias familiares. Alex, por exemplo, consegue recordar-se de como foi raptado por caçadores que o venderam e assim, descobre como se separou de seu pai e foi parar no zoológico. No encontro com seus pares, cada um deles deveria agora estar feliz, pois ficariam identificados com outros iguais a eles, mas não é o que acontece.

Eles acabam ficando mimetizados entre os outros, que são muito diferentes deles. Alex é o que mais sente a perda da posição de destaque que ocupava no zoológico, lá ele era Rei. O que havia se tornado? Mais um entre outros e, para piorar a situação, era um leão com excesso de conflitos éticos que não sabia caçar, rugir para assustar de verdade. Ele não passava de um leão dançarino, um bobo. Além de tudo, Alex precisa se confrontar com a queda de sua posição narcísica. De Rei, ele é reduzido a um resto, um nada. Seus amigos, sem saber como consolá-lo, fazem na areia uma escultura reproduzindo o zoológico Central Park, mas não é a mesma coisa. O objeto está perdido desde sempre e todo o resto será mera representação satisfatória. Mais uma vez a decepção, pois não é isso o que querem.

            No terceiro estão tentando a todo custo retornar para o Central Park, pois acreditam que lá é o lugar deles, alucinam o objeto perdido. No caminho de volta pra “casa”, passam pela França, pegam carona com o trem de um circo que só tem animais, não tem humanos. Estão todos – os quatro mais os animais do circo – à mercê do próprio fracasso. Este circo já foi bastante famoso, mas uma fatalidade ocorreu com o tigre (o grande astro do circo). Vejam que os felinos são os maiores astros da trilogia.

O Tigre atravessava argolas incandescentes com mestria. No espetáculo, as argolas começavam grandes e iam diminuindo até não passarem de um pequeno anel, pelo qual o tigre passava com o louvor do público. Mas como sua ambição era grande, um dia colocou uma argola muito pequena e besuntou-se de azeite para poder escorregar pela argolinha com mais facilidade. Pelo excesso de azeite e por causa da argola incandescente, o tigre teve o corpo queimado e nunca mais conseguiu superar o fracasso diante do público. Há um conflito narcísico também com este pobre felino. Depois deste episódio, o circo começou a perder público até quase falir.

No encontro com os quatro viajantes, algo reacende nos circenses, talvez desejo pelo desejo do outro, não sei, mas conseguem reerguer o circo. Todos participam dos espetáculos e o tigre volta a fazer seu número, substituindo azeite por condicionador de cabelo. Agora estarão os quatro satisfeitos? Não. Eles querem retornar ao zoológico, a casa deles. Querem retornar àquele paraíso de gozo, perdido com a partida para a natureza. Atravessam a Europa e, não me perguntem como, chegam ao Central Park. Tudo está escuro e o lugar lhes parece bem menor do que se lembravam. Enfim, estão em casa, felizes e satisfeitos? Não. Mais uma vez, não é isso. Eles entram em apuros e são resgatados por seus amigos circenses, passam a viver com eles, viajando por vários lugares. Uma vez ouvi dizer que um sujeito desejante é um sujeito viajante, que está sempre com as malas prontas para uma nova partida. Assim foi que aprendi com esta trilogia infantil que sempre seremos estrangeiros em qualquer morada. É melhor que sejamos viajantes, sempre em busca de desejar, e não de realizar o desejo, pois este, ah, este não se realiza nunca!
Isloany Machado, 13 de outubro de 2012.
Isloany Machado é Psicóloga, Psicanalista, membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – MS. Especialista em Direitos Humanos pela UFGD e em Avessos Humanos pelo Ágora Instituto Lacaniano. Mestranda em Psicologia pela UFMS. Despensadora da ciência e costuradora de palavras por opção, é autora do livro “Costurando Palavras” (ed. Life, 2012) e fundadora do blog  www.costurandopalavras.com.br

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Freud: The Secret Passion - parte III: O filme deixa marcas na equipe de produção

de Nilson Perissé
Embora tenha sido concebido pelo diretor norte-americano John Huston como um filme popular de suspense psicológico, “Freud, Além da Alma” (Freud: the Secret Passion), de 1962, tinha representações diferentes para os demais responsáveis por sua realização: Sartre, roteirista original, idealizou uma obra de arte voltada para um público erudito; Montgomery Clift via no papel de Freud um resgate de sua carreira; os estúdios da Universal esperavam um misto de sucesso comercial com prestígio de crítica. Submetida às fantasias de cada um, depositária de desejos divergentes e lidando com os temas polêmicos da psicanálise, a produção americana de “Freud” foi como que tomada pela “peste” anunciada pelo biografado ao visitar os Estados Unidos, trazendo consequências inesperadas para aqueles que dela participaram.
Com base em depoimentos deixados pelos principais envolvidos na produção do filme, esta resenha em três partes propõe-se a refletir sobre os desafios da proposta psicanalítica e a forma como é apropriada por aqueles que dela se aproximam. 

Freud, além da alma- parte 1: procurar neste blog pela data 12 de janeiro de 2013 
Freud, além da alma- parte 2: procurar pela data 27 de janeiro de 2013


Freud no cinema americano: a peste que insiste em incomodar 
Capítulo Final: Freud, além da alma deixa marcas na equipe de produção. Repercussões do filme e reflexões finais.
Clift caracterizado de Freud
Na biografia que Robert LaGuardia escreveu sobre Montgomery Clift, um capítulo inteiro é dedicado a Freud. Embora grande parte do texto esteja focada nos conflitos intermináveis entre John Huston e o ator – e LaGuardia pareça carregar com tintas fortes e amargas esse embate – o biógrafo admite que Huston nutria grande ambição pelo filme. “Ele tinha entrado no projeto com a intenção de fazer um filme importante, um extraordinário filme. Percorreu um longo caminho para contratar psiquiatras, hipnólogos, pacientes; insistiu em filmar de forma cronológica, para que os atores pudessem sentir a intensidade da construção mental de Freud; planejou as cenas meticulosamente em longas tomadas, de forma que o público pudesse entrar na mente dos personagens sem distrair-se com cortes”(2). Huston foi além: para garantir realismo na cena em que Charcot apresenta seus pacientes para os alunos, contratou e trouxe para as locações na Alemanha o Dr. Steven Black, especialista em hipnose de Londres, e alguns de seus pacientes reais. O Dr. Black condicionou seus pacientes, através da hipnose, para que, ao contato com a voz do ator que interpretava Charcot, entrassem em transe hipnótico e agissem conforme ele comandasse durante as gravações.
Freud trata Cecily
As filmagens dessa cena duraram dias, foram exaustivas, exigiram troca de “pacientes” que não funcionaram como o esperado, gastaram uma boa parte do orçamento do filme. Por outro lado, foram responsáveis pelo que é considerado por muitos como uma das cenas mais impressionantes do filme - e ao mesmo tempo evidenciam as altas expectativas de Huston com a produção. Entretanto, ao longo do desastroso processo de materialização da saga freudiana, Huston perderia completamente seu entusiasmo e seu gosto pelo trabalho. “Prefiro mil vezes refilmar As Raízes do Céu [um dos fracassos de sua carreira], com tudo o que teria que enfrentar de novo. (...) Se o filme foi um inferno para Monty, para mim também se constituiu numa experiência medonha”, admitiu (3).  

A verdade é que Freud teve repercussões – em variados graus de importância - na vida de quem participou de sua produção. A começar por Sartre. Roudinesco observa com bom humor a saia justa em que o filósofo francês havia se metido: “Ele, que havia desde sempre negado a existência do inconsciente, estava agora lidando intimamente com seu inventor – uma situação sartreana por excelência” (4). Ela pondera que esse relacionamento não o deixou sair ileso do desafio: “Pode-se colocar as questões dessa forma: através de um Freud mais freudiano que o original, Sartre em parte renuncia à sua posição filosófica anti-freudiana de sua obra inicial” (5). Pontalis também identifica uma mudança de Sartre em relação a Freud: “A ideia que Sartre fizera de Freud anteriormente – a de um chefe de escola doutrinário e meio limitado, de um filósofo medíocre, nenhum de cujos conceitos resistia a um exame (...), essa ideia já não se sustentava. (...) A intransigência de Freud, o que havia nele de intratável quando a questão era ceder quanto ao exigido pela verdade, sua oposição tenaz à medicina e à psiquiatria reinantes, no que elas só faziam ostentar seus títulos, o anti-semitismo dissimulado de que ele foi alvo, sua solidão, ou melhor, o que ele teve que viver como solidão, e ainda sua pobreza e seu longo desdém pelas honrarias: é muito pouco dizer que todos esses traços seduziram Sartre. Por um lado, ele se reconheceu neles. (...) Sem querer exagerar, pode-se também elaborar a hipótese de que o roteiro sobre Freud foi também para Sartre um roteiro de Freud em que ele representou um papel; de que, no começo encarado como um divertimento em relação ao trabalho a que iria se consagrar inteiramente, o roteiro o fez divertir-se com o seu próprio programa. Talvez, por um tempo, ele tenha consentido, mas rindo às escondidas, em aceitar-se, como todos nós, filho de Freud” (6).
Breuer e Cecily
Pontalis argumenta que o tema do filme também teve seu efeito na equipe de produção, “mais ainda durante a filmagem, a julgar pela descrição detalhada que dela faz Robert LaGuardia em sua biografia de Montgomery Clift”(7). LaGuardia, que teve o mérito de entrevistar testemunhas da produção de Freud, incluindo o roteirista Wolfgang Reinhardt e a atriz Susannah York, reconstituiu os contratempos da filmagem que, na sua opinião, “destruiu o que quer que ainda houvesse na vida de Monty. Quando os cinco meses de filmagem acabaram, Monty era um cadáver andante” (8).
Ele conta que Montgomery Clift encontrava-se com a carreira instável e ameaçada por seus graves problemas com alcoolismo, e vislumbrara na possibilidade de representar Freud uma chance que não poderia ser perdida. Haviam muitas evidências de que Monty não estaria em condições de enfrentar um papel de protagonista e cheio de desafios como seria o de Freud. Em 1961, Marilyn Monroe – que havia protagonizado com Clift o filme “Os Desajustados” (The Misfits, 1961), de John Huston, e que morreria vítima de overdose de medicamentos naquele mesmo ano, descreveria Monty como “a única pessoa que eu conheço que está num estado pior que o meu” (9). Por outro lado, exatamente pelo tamanho do desafio, aquele poderia ser o filme que o redimiria perante Hollywood e, quiçá, perante si mesmo. Clift, conhecedor do processo analítico e das teorias freudianas, considerou a proposta irrecusável, embora, ao receber o roteiro já reescrito por Huston, tenha considerado os diálogos ruins, algumas falas vulgares e certas frases de difícil compreensão. Tranquilizou-se diante das alegações de Huston de que tratava-se de um roteiro provisório que seria totalmente reescrito, e assinou o contrato.
La Guardia atribui muito dos conflitos entre Monty Clift e Huston ao desequilíbrio emocional em que o primeiro se encontrava, mas Huston, por sua vez, em nada facilitou. Às vésperas do início das filmagens, ao tomar conhecimento do homossexualismo de Monty (segundo LaGuardia, Huston teria surpreendido o ator na cama com um namorado quando hospedados em sua residência), o diretor considerou a situação inaceitável, chamou Clift para uma conversa em particular e fez uma série de exigências, nas quais “Monty não deveria se comportar de forma homossexual ou ter qualquer relacionamento homossexual enquanto trabalhasse no filme. Deveria se comportar de uma forma normal. Não deveria beber ou tomar pílulas” (10).
Freud e Cecily
Foi o início desastroso de uma relação profissional que se transformaria num relacionamento marcado por contornos patológicos. Segundo testemunhos apresentados a LaGuardia por integrantes da equipe, Huston passou a tratar Monty com rispidez, desconsideração e a submetê-lo a humilhações. Se nas primeiras semanas de filmagem o ator apresentava algumas dificuldades em decorar suas falas, nas semanas seguintes já não conseguia memorizar uma única frase inteira e era obrigado a ler partes do roteiro em pequenos papéis colados na mobília do set.
Na famosa cena em que Freud, em sonho, escala uma montanha segurando uma corda, escorrega um pouco e depois chega ao topo, o conflito parece ter chegado ao seu ápice. LaGuardia conta que as palmas das mãos de Monty, muito sensíveis devido a um acidente automobilístico do passado, machucaram-se ao contato com a corda durante as filmagens. “Era óbvio que Monty estava sentindo dor e exausto, mas Huston mandou cortar e refazer a cena. O sangue saia das mãos de Monty. Alguém contou a Huston; alguém também perguntou a Monty se ele não queria descansar. Huston insistiu que prosseguissem; Monty recusou-se a parar. (...) Pela sétima ou oitava tomada, suas mãos eram uma massa sangrenta, e o sangue escorria pela corda. Mais uma vez Huston mandou refazer, e novamente Monty recusou-se a descansar” (11).
Breuer e Freud
LaGuardia fala de um ambiente progressivamente tenso, com rompantes de choro de Susannah York diante do embate entre Huston e Clift, cenas refilmadas interminavelmente, atrasos no cronograma e uma produção fora de controle. Por conta das constantes desavenças - Huston à deriva na direção e Monty Clift cada vez mais inseguro e incapaz de representar -, um clima sombrio e um sentimento de estranhamento tomavam toda a produção. Comenta LaGuardia: “Naturamente, nessa ocasião, nessa atmosfera pesada, (...) membros do elenco e da produção teorizavam. Era John Huston um homossexual enrustido? Era Monty um masoquista que amava secretamente John, ou vice-versa, sendo John um sádico? (...) Um a um, os homens e mulheres envolvidos com a filmagem de Freud, embrenharam-se numa atmosfera psicológica sufocante. Por meses eles estavam, literalmente e figurativamente, presos numa sala pequena e sem ar, forçados a ponderar sobre a verdade acerca de si mesmos e seus relacionamentos com os outros. O filme tinha uma única locação principal, numa cidade onde a maior parte do elenco não era familiar ao idioma local, o que os forçava a se recolherem a si mesmos. Dia e noite, atores, operadores de câmera, diretor, produtor e equipe técnica comia, dormia e respirava Freud. (...) Conversas intermináveis sobre repressão, o inconsciente, Monty e Huston, e ensaios, enchiam o ar. O espectro de Sigmund Freud assombrava e permeava tudo ao redor” (12).
Quando foi, enfim, concluído, Freud, além da alma contava com quatro horas de duração. “Dia após dia, Wolfgang Reinhardt mantinha-se na sala de cortes da Universal enquanto seu filme de quatro horas era cirurgicamente amputado em pouco mais de duas horas, e mais tarde, antes da exibição, em hora e meia. Todo o material com conteúdo sexual foi abandonado” (13).
O lançamento nos Estados Unidos ocorreu em 12 de dezembro de 1962 - inicialmente nos cinemas de arte de Nova Iorque, tendo obtido grande sucesso com lotações esgotadas. Porém, quando foi estendido para o circuito popular, nos demais estados, passou quase despercebido. “De modo geral, o público não gostou”, conta Huston. “Os chefões dos estúdios depositaram grande fé nele, achando que ia ser a produção mais importante da Universal naquele ano. No fim foi tudo menos isso, decepcionando profundamente tanto eles quanto eu”(14). Elisabeth Roudinesco fala sobre a repercussão na França: “não teve nenhum sucesso. Ainda assim, a fotografia em preto e branco de Douglas Slocombe recaptura de forma soberba o universo barroco do fin de siécle de Viena. Quanto a Montgomery Clift, representa um angustiado, sombrio e frágil Freud, mais próximo do James Dean de ‘Juventude Transviada’ do que da figura mumificada imposta pelos historiadores oficiais da psicanálise: um personagem, de todas as formas, mais sartreano do que jonesiano. A obra foi distribuída nos cinemas de Paris no início de junho de 1964, duas semanas depois de Lacan ter fundado a Escola Freudiana de Paris. Passou completamente despercebido pelos psicanalistas de Paris, que fracassaram em procurar no filme o herói de sua imaginação”(15).
Alguns anos antes de morrer em 1987, John Huston reviu seu filme, e ponderou: “Tem coisas boas. Apesar das dificuldades que tive com Monty, o gênio dele está bem manifesto no filme e acaba, a meu ver, dando um desempenho simplesmente extraordinário”(16). Reconhecimento tardio: Freud seria o penúltimo papel de Clift, que de tão desacreditado na indústria levou quatro anos para receber outra proposta comercial – tendo falecido logo em seguida ao seu último filme, aos 46 anos, vítima de ataque cardíaco.
Apesar das polêmicas e tragédias que testemunhou, Freud, além da alma continua sendo uma experiência narrrativa estimulante e cheia de significados, pequena joia pronta para ser redescoberta. Suas outras cenas – não as que aparecem no filme ou as que foram cortadas na ilha de edição - falam da dificuldade da cultura americana em compreender a centralidade da experiência freudiana, emblematicamente exposta nos embates conceituais entre o europeu Sartre e o americano Huston. Ao mesmo tempo, reafirmam o quanto a psicanálise é subversiva ao colocar a sexualidade como eixo de sua discussão – fato que se observa não apenas na tesoura censora que cortou cenas inteiras da produção como no próprio acting-out de um Huston incapaz de lidar com seus próprios preconceitos e de aceitar que o protagonista de seu filme fosse homossexual. A experiência de Freud denuncia também as inúmeras soluções de compromisso a que a indústria do cinema se expõe para garantir um sucesso de bilheteria, ainda que isso implique em falsear a vida. Como disse LaGuardia, “ironicamente, as pessoas que fizeram Freud, em seu encontro pessoal e em suas interações com o material do filme, criaram uma história por trás das câmeras tão dramática, tão angustiada, que faria o filme parecer patético por comparação” (17).
Nada mais psicanalítico que a eloquente batalha que se instaurou nessas diversas interações. Em meio às falhas do simbólico representado pelo que deveria ser um simples filme, as questões da psicanálise ali estão, expostas nas brechas dos bastidores das filmagens que revelam um material esquisito, cheio de situações bizarras, onde algo estranho, inconsciente, insiste em vir à tona. Esse inconsciente, feito peste que insiste em incomodar, repercutiu em Sartre, e por que não acreditar que também teve influência sobre um Huston e um Clift, que tiveram abertas questões que preferiam ter adormecidas?
Assim como a questão freudiana, Freud, além da alma nos invoca e nos provoca pelo filme que é e pela tumultuada produção que o construiu - e vale à pena assistir. Se for competente em nos instigar, certamente nos levará a outro tesouro – o roteiro de Sartre, experiência literária inesquecível e extraordinária que, resgatada do anonimato com sua publicação em 1984, é em si prova de que o destino de todo recalcado é, inevitavelmente, emergir.
Freud, Além da Alma  (Freud: The Secret Passion) : completo

Nilson Perissé é Mestre em Sistemas de Gestão, psicanalista em construção e bacharel em Comunicação Social. É autor da dissertação “A gente já entra se sentindo menor: impactos da terceirização na subjetividade do trabalhador”. No Cinefreudiano, publicou o artigo “O Desejo em Woody Allen”. Para correspondência: nilsonperisse@hotmail.com

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Um brinde!

de Liz Guimarães Vasconcelos


“Trata-se sempre de uma relação com o furo, com o vazio no Outro, que o artista, o louco, a mulher e o analisando em fim de percurso- cada um a sua maneira- podem encontrar e da qual podem dar testemunho”. (Alain, Didier-Weill).


O furo no saber se faz presente na dança. Há uma dimensão de finitude constante no ato do dançar.
Para esse resto inominável do fim, para um luto simbolizado e seu resto inaudito, danço. Passo. Passo do olhar que reconhece para o olhar que ouve. Encontro o vazio do Outro.
Des-ser. A dança mixx foi criada a partir do fim de minha análise. Dança das mixxturas, das alienações e separações. Dança da relação com o som.
Os tempos de ver- tempo de angústia
Tempo de compreender- tempo de oscilações. A queda.
Quando concluir? Tempos de furo no saber. Há que inventar! Há um resto inominável na qual a dança encontra seu ponto mais iluminado. Valida o des-ser, possibilita a queda e aponta a passagem.
Do conhecimento paranoico ao desconhecimento do outro. Passagem da satisfação pulsional escópica ao corte na carne. Chegando até onde posso ir.
Ao meu fim de análise, me autorizo a dançar e a ouvir o som!!! Tin tin.
DANÇA MIXX
Liz Guimarães Vasconcelos
Liz Guimarães Vasconcelos é psicanalista, professora, coreógrafa, dançarina, psicóloga. Criadora da DANÇA MIXX. Estuda a organicidade do movimento, a relação dança- som e a constituição da imagem corporal e suas relações com o psiquismo. Fundadora do blog http://dancamixx.blogspot.com.br/

domingo, 27 de janeiro de 2013

Freud: The Secret Passion - parte II : No que se transformou o “Projeto Freud”

de Nilson Perissé
Após a emblemática deserção de Jean-Paul Sartre da produção de “Freud, Além da Alma” (Freud: the Secret Passion), de 1962, os riscos de que a saga freudiana, transformada em filme, sofresse deturpações e reduzisse a psicanálise a uma caricatura se tornaram maiores. O que veio a seguir intensificou esse temor. A inexperiência do diretor John Huston com o referencial psicanalítico, as Influências da censura e a intervenção dos atores na revisão de suas falas alterariam o legado de Sartre e levariam a produção a enfrentar perigos imprevistos. Com base em ampla pesquisa bibliográfica, esta resenha em três partes propõe-se a refletir sobre os desafios da proposta psicanalítica e a forma como é apropriada por aqueles que dela se aproximam.

Freud no cinema americano: a peste que insiste em incomodar                         
Capítulo II: No que se transformou o “Projeto Freud”
Segundo o psicanalista e filósofo francês Jean-Bertrand Pontalis, a proposta que o diretor norte-americano John Huston fez a Sartre para a escrita de um roteiro sobre a vida e a obra de Sigmund Freud estipulava que a trama deveria estar centrada, “segundo uma tradição muito hollywoodiana, sobre o tempo ‘heróico’ da descoberta, aquele ‘tempo forte’ em que Freud, renunciando à hipnose, inventa, progressivamente, dolorosamente, a psicanálise”(2). Mal comparando, fosse o diretor um Spielberg, o filme seria algo como um “Indiana Freud”. Como se tratava de Huston, diretor de “O Falcão Maltês” (The Maltese Falcon, 1941), consagrado filme “de detetives” adaptado de um romance noir de Dashiell Hammett, a saga freudiana deveria retratar, no mínimo, uma trama de mistério. “A ideia básica, a de Freud aventureiro, é minha”, diria Huston em entrevista. “Eu queria me concentrar nesse episódio à maneira de uma história policial”(3).
É natural que a perspectiva de Sartre levasse a narrativa mais na direção de um filme de ideias do que de uma obra de entretenimento. Mas haviam pontos em comum. Elisabeth Roudinesco comenta: “Ambos desejavam ilustrar o momento inovador quando um cientista dá o passo que irá torná-lo o fundador de uma nova ciência”(4). Essa convergência foi o laço possível para o que poderia ser uma obra conjunta de dois homens tão diferentes.

O laço, porém, mostrou-se frágil, pois a forma como cada um pretendia narrar essa saga caminhava para direções diferentes. Na verdade, o “projeto Freud” poderia ilustrar, com rara precisão, a premissa lacaniana de que a comunicação se faz no mal entendido: se Huston vislumbrava um requintado filme de suspense psicológico associado a um retumbante sucesso comercial, Sartre visualizava “um filme de arte monumental de valor duradouro” (5). Assim, após a saída do filósofo francês do projeto, Huston e Reinhardt viram-se às voltas com um farto material que precisaria ser editado e ajustado a um filme de aproximadamente duas horas, que mantivesse o espírito de aventura proposto por Huston e ao mesmo tempo não representasse um perigo junto à censura americana.
“Wolfgang e eu começamos então a trabalhar”, conta Huston. “Wolfgang (...) não sabia escrever muito bem uma cena, mas conhecia profundamente a obra de Freud e a psicanálise em geral. Gastava um tempo enorme trabalhando o dia inteiro no roteiro de Sartre, cortando, podando, sintetizando. Aos poucos ia entregando o que já estava pronto para Gladys Hill datilografar em inglês correto, fazer sugestões e passar para mim, que revisava tudo de novo. Desse modo levamos quase seis meses para redigir a versão definitiva de Freud” (6).
O resultado final foi um roteiro de 190 páginas, ainda sujeito a sofrer mudanças. Huston conta que o estúdio continuava pressionando por uma versão menor, e além disso ele sentia-se desconfortável com algumas questões conceituais. Ele admite: “O roteiro ainda tinha coisas mal-resolvidas. Por exemplo, como demonstrar o mecanismo psíquico da repressão? Uma coisa é compreender e outra, bem diferente, é conseguir mostrar isso de maneira convincente para a plateia”(7). Reinhardt relata o episódio sob outra perspectiva: “John ficava me dizendo que tudo aquilo parecia uma falácia e contestava o que Sartre e eu falávamos sobre a vida de Freud e suas teorias. Eu tinha lido todos os livros de Freud, mas John não, e isso levou a reuniões improdutivas. Ele ficava me perguntando ‘O que significa repressão?’ toda hora. Mesmo quando estávamos filmando, ele perguntaria na frente dos atores como se não tivéssemos conversado sobre isso”(8). Havia, portanto, a dificuldade de Huston em lidar com um material cujo domínio conceitual não possuía, mas a isso seria acrescentado outro problema, caracterizado pelo difícil manejo do elenco principal e pela exigência dos atores em reescrever suas falas - o que contribuiu para que o texto original de Sartre fosse sendo alterado incessantemente.
Huston contava com dois artistas de filmes anteriores seus para os personagens principais: Montgomery Clift para o papel de Freud e Marilyn Monroe para o de Cecily. Marilyn havia sido uma sugestão do próprio Sartre. Convidada, manifestou-se honrada com o convite, especialmente pelo fato de que ela própria encontrava-se em análise desde 1954. Entretanto, sua analista na ocasião era Marianne Kris, amiga de Anna Freud, que desde o início se manifestara contrária ao projeto do filme. Elisabeth Roudinesco afirma que Anna teria falado de seu desagrado à amiga Kris, que teria influenciado Marilyn a desistir do projeto (9). Em seu lugar, Huston escalou uma jovem Susannah York, atriz britânica então com 22 anos, que logo imporia desconcertantes exigências em relação ao roteiro. Invariavelmente, segundo Huston, ela recusava-se a atuar em várias cenas da forma como estavam escritas, exigindo que lhes fosse dada uma nova redação. Ele conta que ela “tinha tudo para personificar a ignorância arrogante da juventude. Não demorou muito (...) para ficar convencida de que tinha o direito de emitir opiniões científicas a respeito de um assunto do qual não entendia absolutamente nada” (10).
Mas York não estava sozinha. O ator principal, Montgomery Clift, também impactaria o texto já tão mexido por várias mãos. Ele estivera em análise por cerca de dez anos e tinha suas próprias ideias sobre Freud e sobre a psicanálise. Queixa-se Huston: “Monty queria participar das nossas discussões. Fazia análise desde 1950 e se julgava uma autoridade em matéria de Freud. Entrava na sala, tirava os sapatos e deitava no chão. Dizia que só assim conseguia se concentrar. Interrompia a conversa nos momentos mais inoportunos, com comentários simplesmente incompreensíveis. (...) Não sei como, Monty conseguiu as versões anteriores do roteiro e, juntando trechos de todas, tentou modificar as cenas. Me mostrava páginas tão cobertas de rabiscos que se tornavam completamente indecifráveis para mim e que nem ele podia ler direito. (...) Os dois (Monty e Susannah) passavam noites inteiras reescrevendo as cenas de Cecily com Freud e me apresentavam as alterações propostas cada manhã” (11).
Mais adiante, seria a mesa de edição que efetuaria novas alterações no projeto. É Huston quem conta: “Os diretores-executivos do estúdio me forçaram a cortar uma cena [integrante da primeira versão do roteiro de Sartre] que ofendia seus brios morais. Nela, uma moça hipnotizada contava, na presença do pai, a tentativa de estupro de que tinha sido vítima por ele mesmo. Eu não devia ter aceito esse corte; a cena era muito importante para a história porque mostrava uma das pistas falsas que levaram Freud a enveredar por uma linha errada de dedução. (...) Mas o corte foi feito...”(12).
Após todas essas “soluções de compromisso”, é admirável que o filme tenha preservado minimamente um enredo compreensível. Estão lá os primeiros anos de atividade profissional de Freud, realçando alguns pontos marcantes que fizeram parte do processo de descoberta: 1) a relação com o psiquiatra e anatomista cerebral Theodor Meynert, do Hospital Geral de Viena (1883-1886), com quem Freud viria a polemizar por conta de pontos de vista distintos acerca da hipnose e da histeria; 2) o entusiasmo com as práticas de Jean Martin Charcot (entre 1885 e 1886), com quem concorda que, “de modo geral, a anatomia concluiu seu trabalho e pode-se dizer que a teoria das doenças orgânicas está completa; agora chegou o tempo das neuroses”(13); 3) a convivência com Josef Breuer - a quem em várias ocasiões atribuiria o papel de descobridor da psicanálise – e a descoberta da “terapia da fala” estabelecida por aquele com a paciente Anna O. e que daria sustentação ao método catártico, 4) a utilização da técnica da associação livre (1892), 5) a elaboração da teoria da sedução e a abdicação dela (1895-1897), 6) alguns elementos que levaram ao conceito do Complexo de Édipo (1897); 7) considerações sobre os sonhos (1900), e 8) a defesa do conceito de sexualidade infantil (1905).
O que ficou do material de Sartre faz um vínculo significativo entre a vida pessoal de Freud e a formulação da psicanálise, buscando reforçar que a exploração da neurose alheia tinha estreita ligação com a busca de cura da própria neurose. Pontalis testemunha um significativo comentário de Sartre, quando este entra em contato com a biografia de Freud escrita por Ernest Jones: “Cá ente nós, diga-me, o seu Freud era neurótico até a medula”(14). Pontalis analisa que, a partir dessa leitura, Sartre iria ver, “na sucessão das hipóteses formuladas, na modificação às vezes drástica da teoria (basta lembrar o abandono da teoria da sedução), algo inteiramente diferente de um exercício puramente intelectual ou do resultado empírico de uma recensão minuciosa dos fatos: tratava-se antes do próprio movimento de uma cura de que Freud, assim como os neuróticos que ele tratava como podia, e somente como podia, era o objeto. Freud, médico doente, teria quase a contragosto descoberto a psicanálise – ao mesmo tempo, o método e seus objetos – para curar a si mesmo, para resolver os próprios conflitos” (15).
Elisabeth Roudinesco, deixando à parte inconsistências do roteiro original e do filme, opinou que, apesar das fragilidades do roteiro, “o Freud de Sartre foi ao mesmo tempo mais fiel à vida real e menos ficcional que o Freud em parte autoritário e em parte um tranquilo pai de família retratado nas páginas de Ernest Jones”(16). Na visão dessa autora, Freud foi apresentado no roteiro de Sartre como um cientista ao estilo de Fausto, uma criatura de luz e sombras, assombrado por desejo e sexualidade e em guerra contra a ordem estabelecida.
Huston respeitou uma solução que Sartre propôs ao condensar os diversos sintomas histéricos de pacientes diferentes em uma única personagem, batizada de Cecily. Simplificando assim o que seriam intermináveis cenas de Freud no contato com as histéricas em seu consultório, Sartre concentrou nessa fictícia personagem as experiências de Breuer com Anna O. e as de Freud com Elisabeth von R. (com quem iria desenvolver o processo de associação livre) e outras. Fez o mesmo com outro personagem fictício, Carl von Schlossen, compósito de vários pacientes que contribuíram para o desenvolvimento da teoria do Complexo de Édipo. Trata-se de um recurso funcional e, poderia se dizer, de inspiração psicanalítica. Freud, em sua “Interpretação dos Sonhos” (1899) explica que “a construção de figuras coletivas e compostas é um dos principais métodos por que a condensação atua nos sonhos”(17). O mesmo recurso seria utilizado por Sartre na segunda versão do roteiro - no caso, o personagem de Wilhelm Fliess, interlocutor fundamental de Freud em suas investigações preliminares, some e tem suas falas principais incorporadas ao personagem de Breuer. Assim, Breuer-Fliess, como um único homem, tem a participação ampliada, atuando no filme como um dos principais coadjuvantes de Freud.
É possível dizer que Freud, além da alma retrata o conjunto de forças – contraditórias entre si - que o geraram: o tom de mistério pretendido por Huston pode ser notado através de uma trilha sonora de suspense e pelo uso caprichado do contraste entre branco e preto da fotografia; as ideias principais de Sartre podem ser apreciadas nos diálogos densos e numa narrativa cuidadosa que preserva os principais fatos históricos do período coberto pelo filme; as preocupações do estúdio com o apelo popular podem ser identificados em detalhes como, por exemplo, o processo de divulgação - o filme, que no lançamento era simplesmente “Freud”, rapidamente foi rebatizado como “Freud: the secret passion”. No cartaz promocional pode ser lido: “Ele se atreveu a buscar além da carne...sabendo que a verdade chocante poderia arruinar sua carreira... e destruir seu casamento”. Um segundo texto trazia uma fala de Martha para Freud: “Quando você está em seu consultório eu tapo os ouvidos para os segredos íntimos que você deve compartilhar”...
Por tudo isso, é certo que “Freud, além da alma” não pode ser visto como uma biografia fiel. O crítico Norman Holland (18) observa que no filme jamais são mencionados os seis filhos de Freud e Martha no período coberto pela trama; suas pesquisas sobre a cocaína são ignoradas; foi Brücke e não Breuer quem influenciou Freud ao atendimento clínico particular ao invés da atuação em pesquisa; Anna O., representada em grande parte na personagem Cecily, jamais foi paciente de Freud; o uso do simbolismo na interpretação não era comum até 1910, período não abrangido pelo filme; a cena final em que Freud é humilhado diante de seus colegas médicos é uma ficção; o amigo Fliess e a paciente Dora, embora existam na primeira versão do roteiro, não estão no filme, tendo sua importância menosprezada na narrativa sobre Freud. Todas essas concessões para viabilizar Freud em filme levaram Anna Freud a confirmar seu repúdio à produção: “Em nossa opinião nem verdade histórica nem científica sobre a pessoa, Sigmund Freud, ou seu trabalho, podem ser ou são transmitidas pelo filme, ao contrário da pretensão de seus produtores” (19).
Apesar da postura crítica da herdeira de Freud, o filme refletiria, minimamente, um emblemático jogo de forças mobilizadas no processo de absorção da psicanálise pela cultura e – no extremo – teria a capacidade de despertar na equipe de produção comportamentos inusitados.
A SEGUIR: Freud, além da alma, deixa marcas na equipe de produção. Repercussões do filme e reflexões finais.
Freud, além da alma- parte 1, procurar nesse blog pela data: 12 de janeiro de 2013

                                            - parte 3, procurar nesse blog pela data: 17 de fevereiro de 2013

Freud, Além da Alma  (Freud: The Secret Passion)
Nilson Perissé é Mestre em Sistemas de Gestão, psicanalista em construção e bacharel em Comunicação Social. É autor da dissertação “A gente já entra se sentindo menor: impactos da terceirização na subjetividade do trabalhador”. No Cinefreudiano, publicou o artigo “O Desejo em Woody Allen”. Para correspondência: nilsonperisse@hotmail.com

sábado, 19 de janeiro de 2013

Sarau CineFreudiano é transmissão sim ?

por Henrique Senhorini

O Sarau CineFreudiano como
dispositivo de transmissão da psicanálise ?
Amigos já contaminados e amigos dispostos à contaminação
Bia Tucci e Leandro Rosa
Liz Guimarães Rosa e a Dança Mixx
Sarau este que nasceu do entusiasmo e se destacou pelo meu amadorismo.
Porém, no desenvolvimento do evento, lembrei-me de um texto meu - escrevi
anos atrás - que ajudou a declinar minha superegóica severidade.
Afinal, todo analista, de certa maneira, é um amador.
Amigos já contaminados e amigos dispostos à contaminação
Amador : do latim "amatore"
é aquele que ama o que faz, na visão de Roland Barthes.
Amigos já contaminados e amigos dispostos à contaminação
Liz Guimarães Rosa e a DANÇA MIXX
Liz Guimarães Rosa e a Dança Mixx
É o amante que, segundo Sonia Leite, se dedica a uma arte ou ofício
por prazer e que visa tão somente ao gozo do fazer sem se preocupar em
expor uma imagem pública. Seria algo próximo do desejo do analista ?
Amigos já contaminados e amigos dispostos à contaminação
Mariana Giorgion apresentando texto de Liz Guimarães Rosa

Isso sem falar do entusiasmo, do entusiasta. Daquele que mantém sempre
o mesmo frescor de sua primeira experiência como analista, pois o que
ele já sabe não lhe serve de nada para escutar um novo analisando.
Amigos já contaminados e amigos dispostos à contaminação
O poeta Rodolfo Coelho e seu amigo, também poeta, Joel

Esse frescor também seria constituinte do desejo do analista
e imprescindível na transmissão da peste ?  Acredito que sim !
Amigos já contaminados e amigos dispostos à contaminação
Walkyria Spinelli - Feitos Religioso do Nepal e a Neurose Obsessiva 1
Walkyria Spinelli - parte 2 com fotos
Neurose Obsessiva 1
Entendo que na psicanálise a transmissão sempre está em questão. É algo
que passa não só na relação privada analista-analisando, na supervisão,
nas instituições psicanalistas, mas também na cultura, na sociedade,
no blog cine freudiano assim como no sarau.
Amigos já contaminados e amigos dispostos à contaminação
E o Sarau, com o auxílio da minha fantasia,
poderia ser este lugar de intersecção do público com o privado.
Do sagrado com o profano ? Ou seria no entre ???
Amigos já contaminados e amigos dispostos à contaminaigos já contaminados e amigos dispostos à contaminação
Alexandre Holtmann Pastore

Para Philippe Julien, a transmissão da psicanálise se dá de duas maneiras,
em dois lugares distintos: um dentro (relação analista-analisando) e outro
fora (relações que os psicanalistas mantém com a sociedade em que vivem).

Amigos já contaminados e amigos dispostos à contaminação
Amigos já contaminados e amigos dispostos à contaminação
Amigos já contaminados e amigos dispostos à contaminação
A história da transmissão da psicanálise, ainda com Julien, é 
a história da relação entre esses dois lugares conflitantes.
Liz Guimarães Rosa e a Dança Mixx
Também poderia pensar o sarau como uma forma de sublimação e ou
reinvenção da transmissão - diria - mais ortodoxa.
Liz Guimarães Rosa e a Dança Mixx
comentários sobre "Nossa Música" de Jean-Luc Godard:
Christian Dunker  e  Arnaldo Domínguez
               Arnaldo Domínguez - parte 1 à contaminação
Arnaldo Domínguez - parte 2: "Nossa Música" de Godard… 

Além disso, ficou a impressão que, durante o sarau, ocorreu
uma espécie de lampejo, de fagulha desse enigmático desejo que
Lacan chamou, segundo Didier-Weill, de "desejo X".
Seria o desejo X que nos levou a ser analistas?
Desejo X, algo do entusiasta e do amador?
comentários sobre "Nossa Música" de Jean-Luc Godard:
comentários sobre "Nossa Música" de Jean-Luc Godard:
Christian Dunker  e  Arnaldo Domínguez
Christian Dunker - parte 1
Christian Dunker : parte 2 - "Nossa Música" de Godard
Christian Dunker - parte 1
Enfim, no Sarau CineFreudiano
a vida até pareceu uma festa
foi diversão sim
foi transmissão pra mim