quarta-feira, 1 de julho de 2015

ÁRVORES DE AMOR E FÚRIA - BRASIL, América Latina

de Arnaldo Domínguez de Oliveira
"Não sou um ateu total, todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não o encontro." — José Saramago
“Quem tem medo de formiga não assanha mangangá” – Ditado Tupinambá

As redes sociais da internet ficaram coloridas neste dia 26 de junho de 2015 comemorando uma “retomada” que para alguns significa “invasão”. As pessoas decidiram homenagear toda forma de amor, esse célebre informal, porque foi aprovada nos Estados Unidos uma lei que garante a legitimidade das uniões homoafetivas. Mas isso não é uma expressão da existência de deus, pelo contrário, senão o resultado de uma longa e dolorosa luta que causou muitas perdas humanas e muito sofrimento ao longo da história da humanidade, que é uma história de horror.
Esse acontecimento representa uma longa batalha que frutificou em otimismo e eficácia, felizmente, como já havia acontecido na Argentina, no Uruguai e depois no Brasil. Milhares de homens e mulheres que enfrentaram com coragem a verdade diferente de seu modo de amar e de gozar e venceram essa etapa.
Entretanto, os extremistas religiosos dirão que essas mulheres que amam outras mulheres não são as legítimas fabricadas pelo criador e esses homens homossexuais tampouco são homens de verdade.
De maneira semelhante à incessante e infrutífera procura de Saramago, Diógenes de Sínope, o protocínico, homem-cão vagabundo, animal político da Antiguidade, também procurava homens de verdade com sua lanterna ateniensei. Á diferença do que destacam os “fundamentalistas”, o autêntico homem, para Diógenes, é aquele que continua sendo senhor de seus desejos e vive racionalmente em harmonia com a natureza e é obvio que o homem social urbanizado não é senão quem se comporta de modo irracional e desumano. Na Crítica da Razão Cínica, Peter Sloterdijk1, também afirma que “...a psicanálise é um híbrido histórico. Com sua fundamentação sexual patológica olha para o passado; com o convencimento de que o inconsciente é algo produzido, ao futuro. À maneira de um detetive cultural, deixa que a suspeita precoce-burguesa de que o homem está baseado no animal se constitua uma certeza”.2 (Página 391)
Já, Abeguar, índio Tupinambá, herói trans temporal do filme brasileiro dirigido por Luiz Bolognesi “Uma história de amor e fúria”, garante que “Viver sem conhecer o passado é como andar no escuro”. E assim, com essa lógica de cunho psicanalítico, nos convida a acompanha-lo na sangrenta aventura que, algum tempo depois, será denominada Brasil. Uma árvore! E ele, o herói sem estátua, porque está do lado dos “perdedores”, apenas mais um belo pássaro em extinção da fauna desta terra tropical que Lévi-Strauss supôs que fosse “triste”.
Um pássaro quiçá contrabandeado por aqueles transgressores da mata que burlam o IBAMA.3
Tal fantástico filme de animação foi produzido em 2013 e conta, na sua dramaturgia, com as vozes de Camila Pitanga (Janaínas), Selton Mello (os heróis Abeguar, Manoel Balaio o Professor Cau e, por fim, João Cândido nº 3, um comunicador do futuro, que já havia desistido da luta e engrossava o coral cínico dos pós modernistas que murmuram “foda-se”) e Rodrigo Santoro (O Grande Cacique Piatã), dentre outros/as.
O amor não é só o que insiste e não cessa de não se escrever, manifestado por essa mulher que se metaforiza reencarnando qual objeto do desejo, Janaína. Quase um amor louco e é claro que por um sorriso dela nosso herói será capaz de enfrentar os maiores exércitos com a mesma presteza com que realizou seu rito de passagem ao matar uma onça e tornar-se Guerreiro Tupinambá. O amor é pelo seu povo, preservação da vida! Essa é a sina que o Deus Munhã lhe conferiu ao dotá-lo da virtude do pássaro e da missão de conduzir seu povo para a terra sem mal e distante do império de Anhangá, o Anhanguera da destruição. Uma terra do além, que os hebreus disseram prometida e os crentes, confirmando sua crença, garantem que deus é fiel, porque sempre cumpre sua promessa (da casa própria ou da salvação eterna?).ii
A Sinopse do filme resume o seguinte:
“Um homem (Selton Mello) com quase 600 anos de idade acompanha a história do Brasil, enquanto procura a ressurreição de sua amada Janaína (Camila Pitanga). Ele enfrenta as batalhas entre tupinambás e tupiniquins, antes dos portugueses chegarem ao país, e passa pela Balaiada e o movimento de resistência contra a ditadura militar, antes de enfrentar a guerra pela água em 2096”.
Este homem desafiou o Grande Piatã (pai da horda) ao tratar de impedir que seus guerreiros enfrentassem os portugueses em Bertioga e foi expulso da aldeia. Desde a copa das árvores, observou o festim canibalesco em que os guerreiros Tupiniquins foram comidos e alguns portugueses também.4 Esses colonizadores de além-mar já haviam fundado São Sebastião do Rio de Janeiro e em nome da Santa Cruz capturaram os índios sobreviventes do massacre para torna-los escravos nas plantações de cana de açúcar.
A nação Tupinambá foi dizimada? Nossos amigos de Olivença garantem que não! Entretanto, exclama Abeguar, “Como se fosse possível escapar!”
Isso vale para todos/as nós: “A única maneira de vencer Anhangá é não desistir nunca!”.
Quando Freud escreve, no Futuro de uma Ilusão: "A humanização da natureza deriva da necessidade de pôr fim à perplexidade e ao desamparo do homem frente a suas forças temíveis, de entrar em relação com elas e, finalmente, de influenciá-las. (…) O homem primitivo não tem escolha, não dispõe de outra maneira de pensar. É-lhe natural, algo inato, por assim dizer, projetar exteriormente sua existência para o mundo e encarar todo acontecimento que observa como manifestação de seres que, no fundo, são semelhantes a ele próprio”, eu lhe questiono: teremos nos afastado tanto dessa pré-história subjetiva? E ele responde: Mas não há dúvidas que o infantilismo está destinado a ser superado. “Os homens não podem permanecer crianças para sempre; têm de, por fim, sair para a vida “hostil.”
“Freud afirma acerca dos homens que eles não são criaturas gentis, que desejam ser amadas, que se defendem apenas quando atacadas, mas são criaturas dotadas de uma poderosa agressividade. Para eles, o próximo não é naturalmente um objeto de seu amor, mas sim alguém que os tenta a satisfazer sobre ele sua agressividade, por exemplo, ao explorar sua capacidade de trabalho sem compensação, ao utilizar dele sexualmente sem consentimento, ao apoderar-se de suas posses, ao causar-lhe sofrimento e matá-lo. Daí a frase: “homo homini lúpus””.5
Segundo Thomas Hobbes, movido pelo instinto de autopreservação, o indivíduo busca dominar os outros, conduta esta que dá ensejo à “guerra de todos contra todos”.
Do lado dos “ganhadores”, neste filme, se destacam os Bandeirantes, também o Patrono do exército brasileiro, coronel Luiz Alves de Lima e Silva, que depois do genocídio do cangaço seria transformado em barão e a posteriori do genocídio do Paraguai, em Duque, se não me equivoco. E virou estátua! E a batalha do Cerro Corá, na qual as crianças paraguaias se fantasiaram com bigodes para intimidar aos inimigos brasileiros e morreram degoladas,6 tornou-se nome de uma Rua intransitável de São Paulo, pela qual circulamos – se é que isso pode ser dito assim – sem lembrar de que se trata. Porque estamos correndo, buscando pegar um lugar no futuro, quem sabe? Chico Buarque?7
Os rebeldes sempre são considerados “escória”, lamentavelmente uma escoria que tende a se acomodar, sobre tudo depois das últimas sangrentas ditaduras da América Latina (que sempre precisará de ridículos tiranos, Caetano?8).9 Em 2012 a nossa Associação Etcétera e Tal, psicanálise e sociedade, conjuntamente com os remanescentes da cultura Tupinambá de Olivença, organizou o Seminário sobre “O Medo” que aconteceu durante o “Seminário Caboclo Marcelino” naquela localidade do sul do Estado da Bahia. Foi uma riquíssima e inesquecível experiência para nós, os urbanos.iii
Desse encontro surgiu um manifesto que também aspira transformar-se em LEI que proteja a vida.
A lei desde suas formas mais primitivas evidenciadas no totem e nos tabus, até as mais complexas, como o moderno código penal, tem a função de controlar o pulsional em cada sujeito. Em Êxodo 20:3-17, podemos ter acesso aos mandamentos revelados a Moisés. A violência, por exemplo, é coibida com a lei “não MATARÁS”.
A proibição de três desejos pulsionais em especial parece estar na base constitucional do processo civilizatório: O canibalismo; O incesto; A ânsia de matar.
Então, fica comprovado que “Enquanto os homens não saibam amar temos que obrigá-los”, como disse o Jurista italiano Francesco Carnelutti.10
Por outro lado, salve-se que puder. Já teremos chegado nesse ponto?
Alguns alarmistas afirmam que sim e para confirmação, por exemplo, a crise aquática já começou!
Cabe a nós todos/as apelarmos para a lei e a força sugeridas por Maquiavel, quando for preciso, e lutar é preciso, numa revolução pela “retomada” da pulsão de vida articulada à pulsão de morte, em função da vida! E que o slogan da batalha desta Pátria Educadora, além de incluir questões como Gênero e Identidade no Plano Educacional brasileiro seja “água e comida para todos”. E que essa enunciação circule pelas veias abertas da América Latina.iv
1 Biblioteca de Ensayo Siruela.
2 Homens da sociedade burguesa iniciaram no século XVIII a domesticação definitiva do animal inferior através da razão e da moral. Ordem e Progresso, disseram!
3  Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis.
4 Pedrinho o matador, no Brasil (2012), matou o próprio pai, além de mais 100 vítimas, e comeu o coração.
5 Celia Regina N. de Souza - A lei e o desejo – Interlocução entre direito e psicanálise. Jus Brasil.
6 Osvaldo Lamborghini, escritor argentino, escreveu sobre os degoladores do exército argentino que atuaram na guerra do Paraguai: uma tropa de elite. Na atualidade essa atrocidade é cometida publicamente pelo Estado Islâmico para nossa impotência e perplexidade.
7 Sinal Fechado.
8 Podres Poderes.
9 Las grandes huelgas
Autor: Felipe Pigna - Una de las primeras huelgas concretadas en el territorio argentino se produjo en 1868. En plena Guerra del Paraguay un grupo de trabajadores de distintos astilleros de la provincia de Corrientes se negó a construir embarcaciones destinadas a las fuerzas de la Triple Alianza argumentando que no contribuirían a la matanza de sus hermanos.
10 Celia Regina N. de Souza - A lei e o desejo – Interlocução entre direito e psicanálise. Jus Brasil

i
“Una vez exclamó a grandes voces: ¡Venid aquí, hombres! Y cuando éstos se acercaron, les golpeó con su bastón al tiempo que profería las siguientes palabras: “Hombres he dicho y no inmundicia”.
ii
"… [a religião é] um sistema de doutrinas e promessas que, por um lado, lhe explicam os enigmas deste mundo com perfeição invejável e que, por outro lado, lhe garantem que uma Providência cuidadosa velará por sua vida e o compensará, numa existência futura, de quaisquer frustrações que tenha experimentado aqui. O homem comum só pode imaginar essa Providência sob a figura de um pai ilimitadamente engrandecido. Apenas um ser desse tipo pode compreender as necessidades dos filhos dos homens, enternecer-se com suas preces e aplacar-se com os sinais de seu remorso. Tudo é tão patentemente infantil, tão estranho à realidade, que, para qualquer pessoa que manifeste uma atitude amistosa em relação à humanidade, é penoso pensar que a grande maioria dos mortais nunca será capaz de superar essa visão da vida. Mais humilhante ainda é descobrir como é vasto o número de pessoas de hoje que não podem deixar de perceber que essa religião é insustentável e, não obstante isso, tentam defendê-la, item por item, numa série de lamentáveis atos retrógrados." — Sigmund Freud – O Futuro de uma Ilusão.
iii
Seminário lança manifesto em apoio à causa indígena: Evento será finalizado hoje com caminhada que lembra os Mártires do Massacre do Rio Cururupe e o Índio Marcelino

Aléxis Góis, colaborador da Agência Jovem em Ilhéus (BA)
A última roda de conversa do IV Seminário Internacional de História e Cultura Indígena: Índio Caboclo Marcelino teve como tema as “Perspectivas, Ações e Lutas dos Povos na Latino américa”. Durante o evento, foi lançado um Manifesto em Apoio à Causa Indígena, para reforçar a importância da luta dos povos originários, em especial dos Tupinambá de Olivença, que vivem um processo recente de retomada de seu território no sul da Bahia. A cobertura do Seminário está sendo realizado por indígenas que participaram de laboratório de apropriação de Artes e Tecnologias, promovido pela Oca Digital, projeto da ONG Thydêwá e Cardim Projetos e Soluções Integradas, com o Patrocínio da Telefônica/Vivo e do Fundo de Cultura da Secretaria de Cultura da Bahia.

Manuel Rozental, indígena do povo Nasa, da Colômbia, ressaltou que não adianta ter um discurso em favor da causa indígena se as mentes estiverem colonizadas pelo pensamento capitalista. “Também temos de retomar o nosso território do imaginário”, afirma Rozental, que é médico e Professor nas Universidades Novo Fiat Viaggio da Colômbia e do Canadá. Também participaram da roda de conversa anciões, caciques, e representantes de diversas instituições e organizações, como a professora francesa Dra. Esther Fernandes Rose Katz, do Instituto de Recherche pour le Developpeçent-IRD e os argentinos Ana Zabala, psicanalista integrante da Instituição Abuelas de Plaza de Mayo, Arnaldo Dominguez de Oliveira, psicanalista coordenador do Curso de Formação em Psicanálise do Centro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo e fundador da Associação Etcétera e Tal, Psicanálise e Sociedade.
O evento será finalizado amanhã com a 12ª Caminhada Tupinambá em Memória aos Mártires do Massacre do Rio Cururupe e ao Índio Marcelino, com concentração a partir das 8h, em frente á Igreja de Nossa Senhora da Escada, em Olivença.
Segue texto da minuta do Manifesto, que será finalizado de forma colaborativa por meio do blog do Seminário.
“Manifesto em apoio à causa indígena:

Entre os dias 27 a 29 de setembro de 2012 estiveram reunidos na Terra Indígena Tupinambá de Olivença, por ocasião do IV Seminário Internacional de História e Cultura Indígena: Índio Caboclo Marcelino – Histórias, Culturas e Lutas dos Povos Indígenas do Brasil e da América Latina, membros dos povos Tupinambás, Pataxó, Pataxó Hã-hã-hãe, Pankararu, Kariri Xocó, Xocó e representantes de distintas instituições e organizações que ora assinam este manifesto em apoio à causa indígena, em especial à luta do povo Tupinambá:
- Pela demarcação imediata da Terra Indígena do povo Tupinambá de Olivença;
- Pela de intrusão imediata de seu território;
- Pelo direito de viverem de acordo com a sua cultura;
- Pelo direito à educação diferenciada;
- Pelo direito à saúde diferenciada;
- Pelo fim da criminalização e da perseguição ao povo Tupinambá, em especial de suas lideranças;
- Pela autogestão do território indígena, proteção e respeito aos recursos naturais.

Afirmamos que a Terra é Mãe e assim ela deve ser compreendida e reconhecida como um direito originário dos povos indígenas. Consequentemente, exigimos do Estado brasileiro que faça valer a legislação das quais é signatário, especialmente a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Constituição Federal de 1988.
Aqueles que estão de acordo chacoalhem o maracá ou batam palmas.
Aldeia Gwarani Taba Atã, Território do povo Tupinambá de Olivença, 29 de setembro de 2012.”

iv Aproveito este final para homenagear o “necessário” recentemente falecido Eduardo Galeano.

Filme Completo: https://www.youtube.com/watch?v=wdkqo_M1gw8

Trailer do Filme

Arnaldo Domínguez de Oliveira é Psicanalista e Professor do CEP - Centro de Estudos Psicanalíticos, fundador do PROJETO ETCÉTERA E TAL... Psicanálise e Sociedade, conselheiro da Biblioteca Popular de Itaquaciara D.Nélida e médico de formação.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Tarja Branca e Psicanálise: Tudo a ver

de Isloany Machado

Dias atrás, por indicação de uma amiga, assisti um documentário chamado Traja Branca. Mais uns dias depois, assisti de novo. É um documentário que a gente mal termina de ver e já quer ver de novo. Esquisito isso, mas foi exatamente o que senti. É porque Tarja Branca fala sobre a infância e sempre me bate uma nostalgia desse lugar. Não é bem uma vontade de voltar, até porque isso seria impossível, a não ser na ficção científica, quando assistimos De volta para o futuro ou ainda O exterminador do futuro. Esses dois filmes têm o futuro no nome, mas tratam mesmo é da volta pro passado.
Voltar ao passado, exceto nos exemplos de filmes citados, só é possível, em minha opinião, quando deitamos num divã de analista. Obviamente que qualquer vivente pode voltar ao passado quando acessa suas lembranças dos anos iniciais, mas remexer nelas, encostar o dedo e até mesmo cutucar as feridas da infância é um trabalho para a psicanálise. No Tarja Branca, são muitas as “personagens” que falam sobre a importância do brincar, mesmo que já se tenha passado do peso e da idade. Uma senhora nordestina bem engraçada diz: “Quando eu era criança, pulava corda. Parei, fiquei gorda!”. Mesmo assim, em seu trabalho de feirante, ela continua brincando, com os colegas, com os clientes.
O mais importante é não parar de brincar. Mas como isso seria possível? Ora, fazendo aquilo que a gente mais ama. Quando estamos de acordo com nossos desejos, o trabalho, por mais sério que seja, não passa de uma brincadeira porque sentimos um prazer tão grande que não dá vontade de parar. Outras “personagens” do filme, como por exemplo o escritor Marcelino Freire, dizem que de vez em quando é preciso parar e perguntar para aquela criança que fomos um dia: “E aí, como estou me saindo?”. Muito parecida com a pergunta da psicanálise: “Agiste conforme teu desejo?”. Poderíamos fundir uma coisa na outra e dizer: “Agiste conforme a criança que te habita?”.
Por algum motivo, ou algunS motivoS, nós às vezes nos separamos ou nos esquecemos da criança que fomos. Mas ela fica em algum canto escondidinha, esperando pra dar o bote. Esta criança grita junto com os sintomas, junto com as desmesuradas depressões de que os trabalhadores tanto se queixam e que os incapacitam para o trabalho. Parece chavão psicanalítico, mas é necessário que se diga que a melhor saída ainda é bancar o próprio desejo. Por mais caro que custe, por mais que implique em declinar de muitas coisas, recuar, enfrentar fúrias (de pais e familiares), ainda custa menos do que não ser sincero consigo mesmo sore aquilo que se deseja.
No Tarja Branca, um psicanalista diz: “ É preciso ter colhões para bancar aquilo que se quer”. Isso me emocionou. Porque exatamente no momento em que ele disse isso, o assunto era a escrita. Marcelino Freire dizia que descobrira cedo que queria ser um Poeta menor, como na poesia de Manuel Bandeira. E o psicanalista diz, em seguida, para a câmera: “Você tem que se perguntar todos os dias ‘eu poderia não escrever?’, se a resposta for sim, então abandona essa porcaria e vai fazer qualquer outra coisa, mas se a resposta for não, então faça o melhor que puder, com toda a sua vontade”. Isso é muito parecido com o que Rilke escreve em suas Cartas a um jovem poeta.
Toda essa coisa moveu mais ainda do lugar minha criança interior. Dias atrás remexi em papéis antigos e achei um diário da infância no qual eu dizia “Quero escrever um livro”. Não me lembrava mais disso, mas de alguma forma essa criança se fez ouvir. Precisei de muitos anos de análise para ajudar no processo todo, mas nos reencontramos. Agora a porra ficou séria! Decidi escrever um romance, o que antes me parecia impossível. O mais esquisito é, às vezes, sentir culpa por fazer as coisas que se gosta, porque é notável que há um incômodo na forma como algumas pessoas tratam isso. Mas eu quero que se dane. É o que eu quero.

Tarja Branca é o tratamento sugerido por uma das “personagens”, que passou 25 anos carimbando cheque de pessoas que não conhecia, num emprego de Banco, até que um dia descobriu que podia sair do Banco. Ele tinha feito Economia, então, juntou Economia e Arte, deu miniatura. Faz miniaturas lindas. Tarja Branca é um remédio que se pinga no ouvido, à base de palavras. “Muitas pessoas já usam”, diz ele. Sou imensamente feliz por trabalhar com remédios tarja branca, ouvindo pessoas em meu ofício de psicanalista, “receitando” palavras; e também escrevendo, juntando palavras que podem não curar ninguém além de mim, mas me fazem estar em paz com a criança que me habita. E isso é a melhor coisa que pode existir. Assistam Tarja Branca.
Isloany Machado, 02/02/2015

Trailer do filme

Isloany Machado é Psicanalista, Escritora e Professora.  Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano/MS. Especialista em Direitos Humanos pela UFGD e em Avessos Humanos pelo Ágora Instituto Lacaniano. Mestre em Psicologia pela UFMS. Despensadora da ciência e costuradora de palavras por opção, é autora dos livros “Costurando Palavras”  (ed. Life, 2012) e "Em Defesa dos Avessos Humanos" (ed. Life, 2014). Fundadora do blog  www.costurandopalavras.com.br

sábado, 16 de maio de 2015

O(s) Solista(s) de um mundo normatizado : laço de amizade é possível ?

de Henrique Senhorini

Eu não sei ao certo o que me levou assistir novamente o belo filme O Solista do diretor Joe Wright. Talvez, motivado pelo interessantíssimo texto da colega Isloany Machado sobre o filme “Garota Ideal” ou talvez pelo clima outonal deste mês de abril ou, simplesmente, para confirmar que pouca coisa, que quase nada mudou no mundo dos normais em relação aos chamados loucos da nossa sociedade, desde então. Não importa o que me fez assisti-lo mais uma vez, pois sei que algo fez.

Trata-se da história de Nathaniel Anthony Ayers Jr., apresentada como verídica, contada através de Steve Lopez - jornalista e colunista do Los Angeles Times - e roteirizada para o cinema.
Ayers é um sem-teto, morador de rua, exímio músico, apaixonado por Beethoven, com passagem numa conceituada escola de música e apresentado com diagnóstico de esquizofrenia. Já o outro protagonista, Steve Lopez, é um jornalista/colunista que se encontra em plena crise, talvez não só dele mas de todas redações de jornais tradicionais de sua época, promovida, de certo modo, pelo medo oriundo das demissões e falências causados pelo avanço da internet concomitante a falta de interesse dos jovens por este velho hábito. Em luta, ele - Steve Lopez - procura uma grande história para se manter vivo no emprego e também manter vivo o hábito de se ler jornais. Talvez, procurasse um mais além do que isso.

E em sua busca - já no filme - Lopez escuta, no parque Pershing, o som de um violino sobressaindo dos barulhos tradicionais de uma grande cidade. Reconhecendo o som como música clássica, levanta-se do banquinho da praça e aos pés de uma estátua de Beethoven encontra um morador de rua tocando seu violino. Lopez se aproxima e vendo as inscrições no boné do músico pergunta: “Fã de Stveie Wonder?”. O sem-teto responde: “Ma Cherie Amour, é a canção da minha vida”. Assim se apresentam e iniciam uma conversa sobre violinos. Nathaniel Ayers fala do seu instrumento com somente duas cordas, fala de onde veio - Cleveland - enquanto Lopez diz do seu trabalho. O músico, por sua vez, continua sua fala, só que cada vez mais acelerada, quase sem pontuações, num fluxo palavroso com frases sem sentido, que se mostra - não só para Lopez - como uma verborreia, apresentada desta maneira:

“Há muitas estátuas militares em Cleveland. Em Los Angeles tem a polícia e o Los Angeles Times. Vocês tem o L.A. Lakers. Esses são os exércitos também. A regimentação, experimentação. Telhado romano, catolicismo romano, o coronel Sanders, o condutor da orquestra. O violoncelo pode apoiá-lo, mas não pode ser condutor...”

abro um parênteses aqui
Neste instante, a fala de Ayers remeteu-me novamente a uma frase - é de Leclaire? - ligada à época na qual trabalhei em um hospital psiquiátrico e também com moradores de rua. A frase que se fez presente é a seguinte: o psicótico faz amor com as palavras. E o por quê desta lembrança? É que nesta época minha escuta estava mais sensível para a clínica da psicose e esta fala do Nathaniel - no filme - é um belo exemplo. É uma fala de um sujeito absorto a algo parecido a uma associação livre sem fim, como um discurso ininterrupto. Um sem fim da cadeia significante que por falta do significante mestre (S¹) – Nome-do-Pai, enquanto função paterna – “as frases não possuem a representação meta que permitiria precipitar uma significação”, como nos diz Quinet (2006) em seu livro “Psicose e Laço Social”. Pois o Nome-do-Pai (pai como termo referencial), que para nós neuróticos é o nosso ponto de ancoragem, além de ter a função de amarração da cadeia de significantes com a dos significados, exerce também o ponto de basta (estabilização do significante e do significado através da metáfora paterna) que daria um fim ao sem fim destas associações, um basta na cadeia de significantes. Também é bom lembrar que o significante mestre, Nome-do-Pai, é um significante de comando que não necessita estar encarnado pelo pai real, observando que, segundo Quinet, o real para Lacan em 1956 correspondia à realidade e em 1970 ao impossível, sendo o pai, “no primeiro, o pai do desejo, o totem da lei”. No segundo, já em 1970, o pai gozador, impossível de suportar, que condena “todo sujeito a ter apenas restos de gozo”. E os psicóticos, diferentes dos chamados normais (das normas) - os neuróticos das normas do pai - possuem o Nome-do-Pai foracluído, que seria a não inclusão na norma edipiana. Porém, o excluído pelo sujeito psicótico retorna como delírios e alucinações do lado de fora. E “quando falamos de volta no Real do que está forcluído, estamos falando de volta no Real de um lugar e de uma função que não fazem parte da organização psicótica do sujeito.”, de acordo com Calligaris (1989) no seu clássico “Introdução a uma clínica diferencial das psicoses”.
fecho parênteses

Bem... voltando ao filme, Nathaniel continua seu desfile... “O comandante é Itzhack Perlman, Jascha Heifetz... Não se pode tocar no inverno em Cleveland por causa do gelo e neve. É por isso que eu prefiro L.A., cidade de Beethoven, porque nunca chove no sul da Califórnia e se chove basta entrar no túnel e posso tocar o quanto quiser. Esta estátua me assusta, não te assusta? Ela me encanta, realmente me encanta. Como alguém como Beethoven era o líder de Los Angeles?”
Lopez, ouvindo todo o isso a céu aberto, faz cara de interrogação e se vira, dando de ombros, para uma rápida e estratégica retirada, do tipo... deixa eu ir embora que esse cara é maluco. Mas ao virar-se vê três nomes esculpidos numa árvore próxima. Pergunta quem são e obtém de Nathaniel a resposta que foram seus colegas da Juilliard (escola de artes de Nova York, criadora de talentos mundialmente famosos). O jornalista colunista cresce os olhos... estaria aí sua grande matéria, um maluco sem-teto músico da Juilliard Scholl ?

Em função disso, da coluna para o L.A.Times, Lopez faz ligações. Primeiro para Juilliard, buscando confirmação da presença do músico naquela instituição, depois para a irmã de Ayers, obtendo mais informações sobre o irmão músico. Decide, então, escrever sua coluna contando a história de Nathaniel Anthony Ayers, Jr.. Resultado: Sucesso!!!

Uma leitora sensibilizada doa, ao músico sem-teto, seu antigo instrumento de cordas esfregadas, cujo tipo fez Ayers se introduzir na arte da música, um violoncelo. Aquele instrumento que apoia mas não conduz, nas palavras dele, que tem que ser tratado como uma criança. O mesmo tipo de instrumento que, na sua infância, o fez conhecer, apaixonar e idolatrar Beethoven. Que também o fez, anos a fio obsessivamente, se dedicar integralmente à música, a viver para ela, pois, através dela - talvez movido pela profecia materna e também de seu professor - o mundo se abriria para ele. Obsessivamente a ponto de marcar as posições das cordas do violoncelo no próprio braço para treinar a noite, em sua cama, até adormecer. Estaria Nathaniel, sem querer querendo e sem saber sabendo, envolto numa construção sintomática, de tipo obsessiva, para tentar reparar a foraclusão do Nome-do-Pai? Colette Soler (2007), no livro “O inconsciente a céu aberto da psicose”, nos lembra que Lacan mostrou que esse tipo de construção pode funcionar como “forma de equilibração de uma psicose latente” que ele, Lacan, “a trouxe [a forma de equilibração] à luz no caso de Joyce, no qual ela é um efeito da arte”. Seria o mesmo com Ayers? É possível.

E diante da boa repercussão da coluna do L.A.Times, Steve volta a procurar Nathaniel para que, talvez, possa dar continuidade na sua história e consequentemente maior visibilidade na sua coluna do jornal, pois encontrara aí, quem sabe, seu veio de ouro. Até então, para ele, o maluco nada mais era que um músico com uma história interessante para ser contada. Lopez o encontra entre carros, quase sendo atropelado, tentando retirar a sujeira das ruas (uma bituca de cigarro) pois não tolera a degradação da cidade causada por aqueles que “não respeitam Beethoven”. Neste encontro, o jornalista entrega o violoncelo doado e o diretor do filme, Joe Wright, nos brinda com a mais bela cena do filme, na minha opinião, embalada pelos acordes do violoncelo na mãos de Ayers. Nesse momento majestoso, parece que Nathaniel, para Steve, se transforma em algo maior que uma simples história de coluna de jornal. Um laço social começa a se formar?
Lopez, preocupado com a integridade física do músico, tenta convencê-lo ir a um abrigo, para que este se afaste dos perigos eminentes das ruas, condicionando (palavra feia, né?) a sua ida à Lamp Community ao violoncelo. Porém, Nathaniel reluta em sair das ruas - via régia do inconsciente para os sujeitos psicóticos - dizendo, em vão, que não é assim que se começa uma relação. Mas, depois de alguns dias cede à exigência.

outro parênteses aqui
A Lamp Community (http://lampcommunity.org/) é uma instituição sem fins lucrativos, vive de doações, não é governamental e está estrategicamente inserida numa espécie de cracolândia paulistana deles. Enfim, é uma casa que recebe e auxilia, sem exigências prévias, as pessoas mais vulneráveis - mais de 9.000 moradores de rua em Los Angeles - como se definem, oferecendo até habitação para quem queira.
fecho parênteses

Nesta comunidade, Steve encontra várias pessoas ditas loucas, entra em contato com elas, conversa, interage, ouve suas queixas, vê a importância delas terem seus espaços para falarem o que der na veneta e principalmente ter alguém disposto a escutá-las. Acredita que está no caminho certo. Porém, como muitos de nós, cai na armadilha que detém um saber sobre o outro. O “eu sei que é melhor para você” é tão comum entre nós, que isso se dá até - e principalmente - nas relações mais íntimas, começando nos laços familiares. Muitos apelam dizendo que fazem isso em nome do amor, esquecendo que com isso retira a competência desse outro de aprender, cuidar e viver a própria vida. Chama o outro, mesmo que indiretamente, de incompetente. Ceder a esta tentação, a tentação de ocupar este lugar de saber, entendemos que não é nada fácil, pois acontece até com quem não deveria deixar acontecer. No caso, talvez por culpa da formação, muitos psicólogos e alguns psicanalistas que se esquecem da advertência lacaniana, que em relação ao outro somos ignorantes. Doutos, porém ignorantes.

Lopez crê, como muitos, que somente através de um diagnóstico psiquiátrico (tipo DSM/CID) e da medicamentação, compulsória se preciso, estaria prestando uma grande ajuda ao músico, pois este ficaria (na fantasia de Lopez) dentro da “realidade”, esquecendo-se que cada um - mesmo os neuróticos - tem a sua versão e ou perdas e alterações fragmentadas da mesma realidade compartilhada. E em busca de aliados da sua verdade, aproxima-se de David (tipo coordenador da Lamp) para que este providencie a satisfação de seu desejo. Porém recebe, a contra-gosto, a resposta que este, o coordenador da Lamp, não se interessa muito por diagnósticos. Sem entender e indignado, Lopez retruca: “como pode ajudar alguém se não se sabe o que ele tem?”. “Olhe para estas pessoas”, tenta explicar David, “todas foram diagnosticadas mais do que pode imaginar. Pelo que eu vejo, não fez bem a ninguém.”. Lopez insiste: “mas ele precisa de medicação”. “O que ele não precisa é de mais uma pessoa dizendo-lhe que precisa”, finaliza David.

Steve não percebe, não entende ou não quer entender, que ocupar o lugar de suplente do significante-mestre de referência, como uma “pseudometáfora paterna” (Calligaris) para o músico tentar promover um tipo de autofiliação que lhe dê sustentação, “a cada momento, com sua certeza”, apenas(?) oferecendo sua amizade para que Nathaniel tente se enlaçar socialmente a ele, não é pouca coisa. Não, uma amizade, definitivamente, não é pouca coisa!
Até então, numa tentativa de dar sentido ao sem-sentido, Beethoven ocupava este lugar - lugar da foracluída metáfora paterna - através da construção de uma “metáfora delirante”. Sabemos que, para Freud, o delírio é uma tentativa de “cura” da psicose, assim como as tentativas de inserção no laço social, para Lacan. Pois apesar dos sujeitos psicóticos se encontrarem “fora-do-discurso [os 4 discursos: do mestre, do universitário, da histérica, do analista] e, portanto fora do laço social” isto não impede “todas as suas tentativas de estabelecimento de laço social, na medida em que está tanto no campo da linguagem quanto no campo do gozo”, nas palavras de Quinet.

Entretanto, Lopez insiste e persiste, como que tomado por um furor sanandi, enquadrar no nosso quadradinho o que é não é quadrado. É difícil conviver com o diferente, com os que não pensam, não agem, não seguem as mesmas normas e regras dos considerados normais. Para alguns, além do impossível da convivência, é muito difícil até de aceitar que existem pessoas que simplesmente não são como nós, que não compartilham do nosso modo de ser. E já que não é possível transformar um psicótico em um neurótico, queremos porque queremos fazer com que sejam, no mínimo, parecidos com a gente - nem que for na marra - sob o pretexto que desejamos o melhor para eles. Ah... Essa hipocrisia, socialmente aceita, nos faz dormir melhor?
E caso não aceitem e não queiram se enquadrar, nós os varremos do nosso campo de visão, pois o que não vejo, logo não existe ou, pelo menos, posso pensar que não, ou ainda tentar esquecer (na maior parte do tempo) que existe gente assim. É o que acontece desde sempre, ao longo da história, via hospícios, manicômios (o horror de Barbacena), extermínios (Hitler), política e polícia repressora e outras formas de exclusão em nome da higienização. Mas que higiene é essa? Higiene de quê?

Bem... daí surgiram expressões como louco “varrido”, por exemplo, para identificá-los.
Somente agora - no Brasil após a reforma psiquiátrica e da lei antimanicomial (LEI No10.216, DE 6 DE ABRIL DE 2001) - podemos enxergar alguma luz no fim do túnel para os sujeitos psicóticos. Mesmo assim, precisamos de algum esforço para ver esta luz sem o uso de uma boa luneta, mesmo parecendo ser simples promover a inclusão do psicótico na sociedade, pois para tanto basta incluir as diferenças, a diferença do psicótico, pela mesma. Ah... lembrei de mais uma expressão: lunáticos.

Ao filme... O jornalista, apesar de todo seu ceticismo, tenta se convencer das palavras ditas por profissionais da área psi, que a amizade é o melhor que ele poderia oferecer para o bem do músico, agora amigo. É o que acontece no fim do filme. Steve Lopez, quebrando alguns de seus pré-conceitos em relação a loucura, percebe, enfim, que é possível construir e manter um laço social viável entre um psicótico e um neurótico, também, pela via da amizade. Por incrível que pareça, tenho a impressão que a dificuldade em aceitar esta possibilidade está mais do nosso lado (dos ditos normais, das normas do Pai) do que do lado deles (dos fora das nossas normas, do falocentrismo). No final, na cena final, suscita a última questão: estaria aí nesta nova amizade, para Lopez, seu mais além do veio de ouro? Quem sabe...
São Paulo, 27 de abril de 2015.

Trailer do Filme

sábado, 2 de maio de 2015

Ida e seu sacrifício cristão

de Andréa Brunetto

Ida, filme polonês de 2013, dirigido por Pawel Pawlikowski, ganhou o Oscar de Filme estrangeiro desse ano. Já tinha ganhado ano passado dois prêmios, mas teve sua fama estendida após o Oscar e suscitou acaloradas polêmicas em seu país. Os poloneses não gostaram muito de se ver nele, e que seu país fosse exposto no mundo inteiro pela questão judaica. Nele, cristãos mostram-se indiferentes ao destino dos judeus e um deles mata a machadadas uma mulher e uma criança judias só para ficar com a casa delas. Essa cena não é mostrada, ela faz parte da história a ser resgatada no tempo atual em que a ação se desenrola. O filme se passa na década de 60 do século XX, mais de uma década depois de terminada a II Guerra Mundial.

Antes de entrar no debate sobre o filme, faço algumas considerações sobre o país. Uma cena sobre a Polônia que li e me marcou: o jornalista polonês Ryszard Kapuscinski, que viveu décadas de sua vida como correspondente na África, conta em seu livro “Ébano, minha vida na África” que uma vez um africano disse para ele que ele, homem branco, não sabe o que é ser escravizado por outro povo. Ele respondeu: sei sim, meu povo já foi oprimido por três outros povos. O africano teve descrédito e desconfiança com o que ele tinha dito, não achava que um povo branco pudesse ser tão oprimido. Mas podem, e esses são os poloneses, que já estiveram sob o jugo dos austro-húngaros, dos russos e dos alemães; que já tiveram seu território retalhado e distribuído a bel prazer dos conquistadores algumas vezes; que após o fim da Segunda Guerra estiveram sob o domínio da Rússia por muito tempo. E que tiveram uma posição estratégica bem ruim durante a guerra, no meio do fogo cruzado entre russos e alemães. E eles têm tragédias muito grandes durante essa guerra, como o massacre de Katyn, por exemplo.

Então, não se prestam muito bem a serem considerados pró-nazistas ou algozes. Mas que os cristãos lá, bem como em outros países europeus, fizeram vista grossa ao que acontecia aos seus vizinhos judeus, fizeram. Há relatos em vários livros que li sobre a conivência dos cristãos poloneses com o destino dos judeus. O livro de Claude Lanzman dá vários exemplos. Esse autor fez uma grande pesquisa nas pequenas cidades polonesas para seu filme Shoah. Boa parte dessas histórias de segregações dos cristãos poloneses eu li antes de estar na Polônia. E foi muito chocante quando estive lá - andei pelo país em 2011, fui a Auschwitz - pois em contraposição a isso, nunca conheci um povo tão acolhedor, tão simples, tão simpático como esse. E tão cristão. Sobretudo na Cracóvia, de João Paulo II.  Deixando essa questão de lado, entro no filme.

Anna, uma jovem às vésperas de fazer seus votos e tornar-se freira, é instada pela madre superiora a procurar sua tia, única parente viva, a conversar com ela e só depois, confirmar sua vocação. Sai à procura da tia e com isso descobre que seu nome é Ida Lebenstein, uma judia, filha da irmã dessa tia, Wanda. A tia é uma magistrada, alcóolatra, aparentemente faz parte do partido comunista que conduz o país após o final da Segunda Guerra. Essa camarada está desiludida com os rumos do país, e culpada por ter deixado seu filho com a irmã e sua própria filha ainda bebê, para lutar na resistência. O filho de Wanda e a irmã foram mortos a machadadas pelos vizinhos cristãos que ficaram com a casa deles. Quando o homem que os matou, mostra onde estão as ossadas, ele dentro da cova que abriu, Ida pergunta a ele: por que eu não estou aí com eles? Ele responde: você era tão pequena, passava bem por cristã. O menino não, era moreno e circuncidado. Ser branca a salvou da morte. Assim Ida sobreviveu, porque passaria por cristã. É isso Anna\Ida: uma judia que se passa por cristã, uma indiferente a tudo o que vê, que não se envolve, se passando por doce e bondosa.

Wanda e Anna\Ida viajam ao interior, a cidade onde tudo isso se passou, conversam com as pessoas. Todos os cristãos tem um segredo a esconder, são resistentes, não querem tocar nessa história do extermínio dos judeus; estão bem acomodados na casa que agora é deles, que foi tomada com sangue e assassinato. Quando Wanda investiga, quando é dura com os assassinos cristãos, Ida se afasta, não quer ouvir, sai da casa. Ida não quer participar do resgate dessa história. Ela está bem certa de que é cristã, que será freira. Sua tia culpada, atormentada, deprimida, ensaiando uma posição de objeto a ser descartado, caminha para um suicídio que se concretizará ao final do filme, jogando-se pela janela, e Anna\Ida não diz nada, não ora por ela, não a acalma. Ela está sempre numa vacuidade. Nunca está onde aparentemente está. Ela parece indiferente a tudo. Por isso tenho dificuldade em dizer que ela é Ida. Ela renega suas raízes judias, ela é Anna. Ela só sai da indiferença quando surge o desejo por um homem.

No começo da busca delas pela verdade, Wanda dirigindo, diz a Anna que ela vai deixar os homens loucos e pergunta se ela tem maus pensamentos com os homens. Ela responde que não. Pois devia, senão que sacrifício terá nesses  votos que vai fazer? Mas depois darão carona a um músico, um belo rapaz, que vai despertar-lhe o desejo, e aí os “maus pensamentos” vem. Ele lhe diz: você não tem ideia do efeito que causa. Ela não diz nada, mas vai para o quarto e tira o véu, fica se olhando. A partir do desejo dele, que a torna desejável, vê-se como uma mulher no espelho. E após o suicídio da tia, liga para ele, encontram-se, vão para cama e ela descobre o sexo. Acordam, ele faz planos, terão uma casa, um casamento, viagens a trabalho para ele tocar e ela o acompanhando. Ela volta a sua indiferença de antes, não diz nada. Ele dorme, ela faz a mala e volta para o convento.

O filme tem cenas belíssimas, com neve que não acaba mais, e estradas brancas e árvores secas. E é esta a cena final: ela chegando, à pé no meio da neve, sozinha, para seu sacrifício dos votos. Viveu o desejo que sentiu, virou as costas sem dizer nada ao homem. Ele fica lá, dormindo ainda, sem saber que foi usado como objeto sexual. Nenhuma palavra lhe será dita para explicar nada, sem a casa, sem o casamento. Sem nada. Ele e Wanda são os objetos a serem defenestrados. Assim como em outro tempo foram Roza e o menino. Os cristãos, sejam aqueles durante a guerra, seja Anna, são indiferentes à dor do outro. O retrato que o filme trata dos cristãos é bem triste. Retrato ruim de ver, e creio que foi isso que esse país tão cristão não gostou de ver.
A grande personagem do filme é Wanda. Ética, culpada, buscando a verdade, desorientada, pois perdeu seus ideais. A que se sacrifica é ela. Anna só se sacrifica por si mesma. Anna é uma raposa-indiferente em pele de cordeiro. Sua pele\pêlo é a beleza branquinha. Ouvi dias atrás um ditado pela primeira vez: uma raposa perde o pêlo, mas não perde o vício. Anna é isso, uma raposa. No filme, todos os cristãos o são.

Trailer do filme

Andréa Brunetto é Psicóloga e Psicanalista, membro (AME) da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, fundadora do Ágora Instituto Lacaniano, de Campo Grande. Autora de Psicanálise e educação: sobre Hefesto, Édipo e outros desamparados dos dias de hoje (UFMS, 2008). Escreve, publica e apresenta trabalhos na interface da psicanálise com outros saberes. Fundadora do blog http://andreabrunetto.blogspot.com.br/