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domingo, 3 de novembro de 2013

Uma "Sonata de Outono" - de Bergman

de  Aline Elizabeth Marino Oliveira

De acordo com o dicionário da língua portuguesa Houaiss, sonata consiste em uma composição musical para um ou dois instrumentos (esp. para instrumentos de teclado), constituída de três movimentos que se relacionam quanto à tonalidade e contrastam quanto ao andamento, ao modo e à forma de expressão.
Três mulheres, três histórias e três formas de expressão diferentes. A esperança de um encontro (eu-com-Outro) idealizado que, ao longo do filme, parece nunca acontecer como o almejado: “o que ela espera após 7 anos? E eu? A esperança não acaba? Sempre mãe e filha!” (Eva).
       No outono de Bergman, não somente as plantas e as folhas secas, mas também as máscaras vão caindo e nos colocando, pouco a pouco, frente a um Real que vai adquirindo consistência. Eu, num primeiro momento, emudeço diante desse encontro.
       Um filme intenso, provocante, Sonata de Outono retrata os encontros e desencontros da relação entre Eva, Charlotte e Helena. Nada fácil a tarefa de comentar esse filme, nele a falta faz questão, aliás, a falta é uma questão. E por esse território pretendo me adentrar.
       Somos conduzidos ao concerto por Viktor que produz os primeiros acordes. Ele fala sobre a sua dificuldade em expressar seu amor pela esposa: “eu não saberia dizer de um jeito que a fizesse acreditar...não encontro as palavras certas”. Mas existem palavras certas para expressar os sentimentos?
Teríamos aí indícios de uma idealização, como se existisse um saber fazer que nos desse garantias, que nos colocasse numa posição de controle das situações?
       Nosso encontro com Eva acontece ao som de suas palavras endereçadas a Charlote: “mamãe venha e encontrarás espaço, privacidade, conforto, um piano e mimos”. Interessante observar que no convite de Eva, o que fica para mim é venha que atenderei todos os seus desejos. Hum, tarefa impossível até mesmo para o gênio da lâmpada que sabiamente limitou os desejos a três.
       Bergman usufrui da possibilidade oferecida pela linguagem imagética do cinema, enfatizando as expressões faciais e os olhares. Mas uma tomada de câmera me chama a atenção. Enquanto o carro de Charlote se aproxima da casa de Eva, um breve foco é dado em uma roseira que contrasta com a paisagem árida. O que estaria ali simbolizado? O que isso faz pensar?
       O encontro entre Eva e Charlote finalmente acontece após 7 anos, mas de que encontro estaria eu falando? Pois logo nos primeiros momentos, o que fica em evidencia para mim é que não seria algo tão simples assim. Charlote chega “tomando para si todas as palavras da casa” ao passo que Eva vai se colocando numa posição de espelho do narcisismo materno, reconhecendo, testemunhando e admirando. Aliás, me ocorre agora que talvez Eva já tenha corrido para esse lugar, assim que escrevera a carta para a mãe.
       A presença de Helena é anunciada. Impactada, Charlote diz não estar disposta a vê-la, mas alegando falta de opção, se dirige ao quarto da filha. A suposta alegria e as promessas de companhia e passeios se intercalavam com o silêncio e o olhar apavorado de Charlote: “eu senti a doença contraindo os
músculos de seu pescoço...aquele corpo mole e deformado é a minha Lena!” Um breve encontro com o Real?
“Que mãe extra-ordinária! Ela encarnou a atriz e fez uma atuação impecável!” diz Eva ao compartilhar com Viktor suas impressões do encontro entre a irmã e a mãe.
Helena parece contar sua história através do seu corpo - a doença, as expressões faciais, os movimentos limitados e os sons que se assemelham a grunhidos.
       A noite cai, Charlote dorme em seu quarto de princesa, preparado pela súdita Eva, mas produz um pesadelo que interrompe seu sono. A partir daí, outro pesadelo vai se configurando bem diante de seus olhos, dessa vez, abertos! Eva começa a visitar o passado e derrama sobre Charlote todo seu ódio, sua mágoa, seu abandono, seus anseios.....hum sua falta!, num “discurso cobrança”. Eva parece não metaforizar a falta e ficar presa na demanda: “olhe para mim, olhe para Helena, não há perdão....só existe uma verdade” (Eva). Uma verdade?
       Imediatamente me vejo pensando na questão da demanda de amor. Amor (não no sentido romântico), mas no sentido narcísico, de reconhecimento, de completude. Um tremendo engano, uma vez que a completude narcísica é uma ilusão e a demanda infinita. Bom, então algo sempre faltará?
       A falta é constituinte, ela funda o desejo e a questão do desejo é não ter um objeto específico que o satisfaça plenamente. O objeto do desejo para Freud é um objeto perdido, que desliza infinitamente numa cadeia marcada pela falta e que continua presente como falta. Ele não constitui algo da ordem do concreto que se oferece ao sujeito e sim da ordem do simbólico. Antes de ascender ao plano do simbólico o desejo se realiza no plano do imaginário (GARCIA-ROZA, 2002).
       A falta que suscita o desejo persiste a conquista do objeto desejado e o sujeito segue desejando: “eu me sinto tão deslocada, tenho saudade de casa, mas quando chego, vejo que eu sinto saudade de alguma outra coisa” (Charlote).
       Ao longo do filme, Charlote me pareceu sob o efeito de “um anestésico” que fazia barreira ao sofrimento, mas tudo que precisa ser visto e elaborado dava notícias a cada vez que o efeito passava, “estou morta de medo e vejo uma imagem terrível de mim mesma....eu adquiri lembranças e experiências, mas com tudo isso, eu nem cheguei a nascer” (Charlote).
       E então, uma nova dose “de anestésico” permitia que ela emergisse triunfante: “você precisa ser calma, precisa e firme, controle total o tempo todo” (Charlote).
       A trama do filme me fez pensar na relação mãe e filha. Que relação é essa? Nessas horas em que me ponho a divagar, vou conversar com Freud. Lacan estava por perto e acabou opinando também. Eles foram me contando que o bebe humano nasce numa situação de desamparo tal, que necessita de um Outro que intermedeie a relação com o objeto, que vá o inserindo na linguagem, que decodifique as demandas que são expressas no corpo.
       A mãe, enquanto função materna, constitui o que Lacan denominou de o primeiro Outro do bebe. O que eu sei de mim e do meu eu, vem do Outro, sendo um lugar no qual me alieno para depois me separar.
       Antes de a mãe engravidar, o bebe já foi falado por ela, já tem um lugar que podemos chamar de acolhimento simbólico e que se relaciona a um lugar no desejo do Outro.
       O bebe humano tem a ilusão de completar a mãe, mas sendo uma mãe marcada pela castração, algo sempre faltará.
O investimento da mãe na criança passa por seu próprio narcisismo. O amor dos pais, escreveu Freud em 1914, tão comovedor e no fundo tão infantil, não é outra coisa senão seu narcisismo renascido, que, a despeito de sua metamorfose em amor de objeto, manifesta inequivocamente sua natureza anterior.
       Em seguida, ainda com Freud, pensei na questão da identificação, que constitui a forma mais primitiva e original de laço social, que ocorre antes mesmo de qualquer escolha sexual de objeto, havendo um esforço de moldar o próprio eu com base naquele que foi tomado como modelo “....eu falava o que você mandava e imitava o seu jeito...eu não me atrevia a ser eu mesma nem quando eu estava sozinha... eu detestava tudo que era meu” (Eva).
       Pontalis afirma que não se pode mudar de mãe, de onde vem a vontade, até mesmo a obstinação, de mudar a mãe. Na clínica encontro algumas mulheres com um sofrimento brutal por ficarem coladas na posição de satisfazer as infindáveis demandas de amor do Outro: “nada que eu faça parece estar bom para ela”, “sinto um vazio em relação a mim, não consigo me ver, me sentir, me priorizar, vou ficando de lado”.
       Mãe e filha, ampliando, eu e o outro, que encontro! Que encontro? “Que mistura incrível de sentimentos. Tudo é possível e tudo se faz por amor” (Eva)... será?

Bom, interrompo aqui na certeza de tudo o que ainda ficou por dizer, mas como bem disse, algo sempre falta! 

Sonata de Outono - trailer



Aline Elizabeth Marino Oliveira é praticante da psicanálise, psicóloga clínica, coordenadora de projetos sociais em psicoterapia na ABRAPE.

domingo, 2 de dezembro de 2012

O PERFUME : História de um assassino

de Aline Elizabeth Marino de Oliveira


O filme que escolhi como tema é uma adaptação do livro best seller de Patrick Süskind. Ele me fez pensar na questão da volatilidade do eclipsado objeto do desejo, de difícil controle, domínio e tão fugaz quanto os aromas. O que há por trás do objeto desejado que tanto nos escapa? Por que é tão difícil mantermos a mesma intensidade de desejo por algo já conquistado? Ora, se a falta que suscita o desejo persiste a conquista do objeto desejado e, então, o sujeito segue desejando, desejaríamos a falta?
Na visão psicanalítica, a concepção de objeto é visto sob três aspectos: enquanto correlativo da pulsão, enquanto correlativo do amor ou do ódio, enquanto correlativo do sujeito. (LAPLANCHE e PONTALIS)
O objeto do desejo para Freud é um objeto perdido, que desliza infinitamente numa cadeia marcada pela falta e que continua presente como falta. Ele não constitui algo da ordem do concreto que se oferece ao sujeito e sim da ordem do simbólico. Antes de ascender ao plano do simbólico o desejo se realiza no plano do imaginário. (GARCIA-ROZA)

No transcorrer da história, o desejo de Jean Baptiste parecia ser controlar o desejo do outro. E no final, de posse do desejo do outro, ele se depara com a sua ausência de desejo por esse outro. Junto com o poder permanecia a falta. Falta de que? De quem?
Cabe aqui, então, um retrocesso.
Jean Baptiste quando chega ao mundo não é recepcionado pelo desejo de sua mãe. Mas de que desejo estaria eu falando? Ele é expelido como qualquer um dos dejetos fabricados pelo corpo dela e seria recolhido ao final do dia juntamente com as tripas dos peixes e lançado ao rio. No entanto, ele não quis que fosse assim. Ele escolhe viver e grita, anunciando ao mundo sua existência. Sobrevive ao parto e ao abandono, contrariando o esperado e subvertendo a ordem. “O primeiro som que sai da sua boca leva sua mãe para a forca”. Xeque-mate na rainha! Jean Baptiste segue em sua aposta solitária, carregando consigo seu primeiro crime? Uma culpa primordial e quiçá a insígnia de assassino? Teria ele então se condenado e se calado por cinco anos, vivendo enclausurado em sua prisão interna, ensimesmado, recolhendo seu cheiro, sua existência, permanecendo “incluído de fora”, como um sonâmbulo a vagar pelos espaços que lhe eram destinados? Eu me lançaria nessa hipótese como uma das muitas possíveis.

Quem como ele havia sobrevivido às condições de seu nascimento não cedia tão facilmente seu lugar no mundo. Seu corpo sobrevivia com um mínimo de comida e de roupas e a sua alma parecia de nada precisar. Ele se apresentava imune à dor e com a resistência de uma bactéria, sendo visto como um “extra” terrestre. Sua presença causava estranhamento e repugnância. Era como se pertencesse a outra realidade; ficava ausente para as pessoas e objetos que o cercavam e que, para ele, eram como que transparentes, desprovidos de sentido. Sua forma de reconhecimento e relacionamento com o mundo se dava através do olfato. Teriam os odores ocupado o lugar simbólico deixado vago pela mãe? Sua voracidade em buscar e colecionar novos aromas teria alguma relação com um registro mnêmico do cheiro de sua mãe?

O que mais poderíamos dizer do encontro de Jean Baptiste com o mundo externo? Desde a tenra idade, suas relações foram pautadas pela questão da utilidade x valor monetário, e, em dado momento, a experiência de ser descartado se repetia. O mundo que vai se descortinando além de hostil, não comporta experiências de afeto, amor, compaixão, estabilidade. A frouxidão dos laços gerava níveis de insegurança, propiciando a criação e o isolamento em um mundo interno paralelo onde ele podia se sentir seguro. Um mundo com linguagem própria (a dos odores), em que ele era o senhor absoluto, controlando e criando novas experiências e sensações: Jean Baptiste acumulava, no seu íntimo, uma quase infinidade de experiências olfativas e, a partir de suas decomposições, realizava novas combinações e criações que não existiam no mundo real.
A par de sua aparente renúncia ao desejo de descoberta do mundo e de si mesmo, poderíamos considerar seu interesse e curiosidade pelos aromas um ponto de ancoragem com a realidade dos outros seres humanos?

Jean Baptiste deseja vorazmente algo que ele não sabe o que é, e que eu penso estar deslocado e condensado para essa questão do domínio do aroma. O que ele traz em seu discurso é a necessidade de aprender a capturar e manter o aroma, sendo este, para ele, a alma do ser humano. Para que? Para nunca mais perder, para poder reprisar. Qual seria a representação de alma para ele?

O dicionário da língua portuguesa Houaiss, define alma como o “princípio vital; a sede dos sentimentos, da vida afetiva, a natureza moral e emocional de uma pessoa”.
De acordo com Jean Baptiste quem controla os aromas, controla o coração dos homens. Se pensarmos o coração simbolicamente como a sede das emoções, estaríamos falando de um desejo de controlar o amor e o ódio? De um modo de defesa relacionada à perda de pessoas significativas, que de alguma forma haviam deixado uma inscrição, uma marca em seu psiquismo?
O que estaria por trás dessa necessidade de controle? Caberia pensarmos em uma pulsão de dominação?
Quando o cheiro da vendedora de ameixas invade suas narinas, ele se sente fortemente atraído, completamente absorvido, sendo tocado de uma forma tão avassaladora e doce como, aparentemente, nunca fora, pela crueza de sua realidade. Algo de uma beleza tão sutil e ao mesmo tempo com um poder tão grandioso que desperta o gigante adormecido, que só existira de forma animalesca, voltando-lhe o olhar para o externo. Ele, então, o persegue até encontrar a fonte, mas inadvertidamente, “sem querer, querendo”, comete seu segundo assassinato. O que teria nesse cheiro que o deixou tão desorientado? Por que ele não conseguia retê-lo, sendo que tinha a capacidade de recordar e sentir, a qualquer momento, o cheiro dos milhares de odores específicos arquivados em sua memória?

A experiência na caverna propicia a Jean Baptiste um maior contato consigo a partir do qual ele se percebe como alguém sem odor e insignificante para os outros, temendo o próprio esquecimento. A partir desse momento, os crimes cometidos, que até então me pareceram involuntários, passaram a ser premeditados. “Eu simplesmente precisava dela” responde ao pai inconsolado com a morte de sua filha. Nesse momento eu me questionei: Quem fala e de quem se fala? Seria o Isso falando?
Cabe aqui uma observação: o sujeito está dividido e não centrado no eu. Temos, portanto, “o sujeito do enunciado, (...) portador do discurso manifesto, porém desconhecedor do sujeito da enunciação e do conteúdo da mensagem; (...) e o sujeito da enunciação (...) que não é expresso ou significado no enunciado, mas recalcado e inconsciente.” (GARCIA-ROZA)
Nosso protagonista viveu a angústia de não ser conhecido por quem o gerou, de não ser visto, de não existir. Ele, então, cria uma alma Frankenstein, composta de treze essências femininas, que lhe possibilitaria existir e saciar sua fome ininterrupta de ser alguém no mundo. Por instantes, a sensação parecia ser de triunfo. “Ele consegue criar para si a aura mais radiosa e eficaz da face da terra sem dever a ninguém: a um pai, a uma mãe e, menos ainda, a uma divindade benfeitora. Ele era, na realidade, o seu próprio deus” (SÜSKIND). Aos seus pés estavam o bispo e toda a população. No entanto, por detrás da máscara do melhor perfume do mundo, persistia sua total ausência de odor, de desejo por si e pelo outro. Então, qual era o sentido?
Ele remonta a cena em que encontra a vendedora de ameixas, mas dessa vez, ela o vê, o abraça, o deseja. A cena é bruscamente interrompida pela imagem do corpo morto e, pela segunda vez na vida, ele chora. Teria ele se dado conta que o objeto de seu desejo estava para sempre perdido?
Então ele se retira, sendo levado por suas memórias olfativas ao local do seu nascimento. Ele derruba o perfume sobre a sua cabeça e se deixa devorar pelos ali presentes, que se sentiram “tomados por uma felicidade infantil, pois, pela primeira vez na vida, acreditavam ter feito algo puramente por amor”.
Vieram a mim as seguintes questões:
    - Jean Baptiste quando chega ao mundo não é recepcionado pelo desejo do Outro, mas, de alguma forma, teria ele com o perfume reproduzido no outro a voracidade do seu desejo de ser desejado e conseguido, pelo menos, se retirar do mundo por essa via?
    - O ato de se deixar devorar pela multidão presente no local de seu nascimento seria uma tentativa de retorno para o ventre de sua mãe, de se sentir completo, pertencente, parte de, na simbiose, na alienação?
    - O que estaria por trás, ou na frente, da 13ª essência?

Aline Elizabeth Marino de Oliveira é Psicóloga Clínica em processo de contaminação pela psicanálise.